Falar de Brasília ontem me fez lembrar de um conto infantil que, anos atrás, Marcelino Freire me pediu para uma série que ele coordenava sobre as capitais do país. Era uma coleção bem bacana mas, por algum motivo, acabou antes de chegar à Brasília. Meu conto, no entanto, já estava pronto e seria ilustrado pela Maria Valentina. Aí vai ele, agora para Dadá:

Monumento aos Cois Candangos - Foto de José Gabriel Lindoso
“BRASÍLIA E O PÔR-DO-SOL MAIS BONITO DO MUNDO”
Primeira parte
O cerrado está em polvorosa. Rumores agitam o mato e a bicharada.
Alguma coisa está acontecendo no imenso planalto que fica bem no centro do coração do país. Antes, era raro bicho homem passar por ali. Os que viviam naquela terra plana plana, formavam uma grande família: a natureza, o bicho e o homem que só passava.
E agora, isso.
- O quê? O que foi? – pergunta a anta, lerda lerda. Um verdadeiro paquiderme. Ainda não entendeu nada do que está começando a acontecer. Viu o avião passando e cutucou com o nariz o tamanduá a seu lado:
- O que é aquilo? Que passarão enorme. Cê viu?
O tamanduá nem responde, ensimesmado. Já viu, sim, esse pássaro estranho passar. Várias vezes. Viu mais: viu o grande pássaro pousando, e de dentro saindo os homens. Demasiados para seu gosto. A preocupação agora lhe turva a vista. Vira-se para a onça, para saber o que ela tem a dizer.
A onça, pintada e formosa, sempre toda enfeitada de balangandãs dourados como gosta, porque conhece a região e sabe onde encontrar seus ouros. Mas agora está particularmente enfezada. E o que tem a dizer é bufar:
- Eles estão chegando. Um monte. Achando que o mundo é deles. Mas vão ver. Vou acabar com todos: um por um.
- Acabar? – pergunta, suave, a cobra, a que sabe das coisas e, portanto, sabe que nada sabe. – Como pretende fazer isso, dona Onça?
- Fazendo.
- Hum… A senhora sabe quantos eles são?
- Não sei e nem me interessa – a onça bufa.
- Mais do que nós?
- Se for contar os que estão vindo de caminhão, mais esses de avião, e outros que estão chegando a pé ou de carroça, são muito mais – responde o tatu, saindo de seu buraco e olhando, consternado, a sujeira de suas unhas.
- E continuam chegando?
- Todo dia chega um bando – a onça dá outro bufo.
- E a senhora tem fôlego pra dar conta de todos? – A cobra não quer chatear ninguém, só quer a verdade.
A onça, de irritada, nem responde. Dá um rugido bravo, mas todos sabem que é só valentia da boca pra fora. Até ela já compreendeu que tem bem menos poder do que os homens que estão chegando.
Mas o macaco, esperto, quer aproveitar o que puder ser aproveitado.
- É a no-nova capi-pital que-queles vão construir. Eu não me-mimporto. Eu-eu não.
O sapo cururu resmunga:
– Eu, sim, eu mimporto. Eles vão trazer o mar pra cá. É de água salgada, eu num gosto.
- O quê? Que mar? – a anta desperta outra vez da lerdeza.
O tamanduá nem se mexe. Continua olhando pra vastidão, mais angustiado que nunca. Não sabe o que pensar nem o que dizer.
Os pássaros piam sem parar nos galhos retorcidos das árvores baixinhas do cerrado. Também estão assustados. São os que conseguem se aproximar dos recém-chegados, e voltam com as notícias:
- Vão construir um palácio para o Presidente!
- Vão construir uma Praça para os Três Poderes governarem o país!
- O do presidente, dos deputados e senadores, e o dos ministros da Justiça – complementa a cobra.
- Vão fazer escolas e universidade! E um palácio para os embaixadores, que vai se chamar Itamaraty!
- Vão fazer uma rodoviária! Um teatro! Uma catedral!
- E mil prédios para os novos moradores!
- Mil, mil, mil!
Cada notícia é um pio alvoroçado. Não sabem se vai ser o fim do mundo, ou o começo de outro.
A cobra pondera:
- Pensem comigo. Este nosso pedaço de terra é o centro de um país enorme e ainda desconhecido. Vai ser bom passar a ser também o centro das decisões que eles tomam. Daqui fica mais fácil enxergar os lados.
O macaco fala:
- E va-vai ser mais fa-fácil en-enricar.
- O quê? – agita-se de novo a anta. – Eu também quero.
- Onde tem-tem muita gente, tem-tem mais dinheiro, é-é lógico – saltita o macaco.
O tamanduá continua mudo. Acha tudo aquilo um absurdo aquém de qualquer lógica. A onça balança seus balangandãs e bufa:
– Um por um. Ainda acabo com eles. Vou ter indigestão mas vocês vão ver.
O tatu declara como quem há anos vem estudando o problema:
- Vai ter a forma de um avião, a cidade. Quem planejou foi um sábio chamado Lucio Costa. E quem está desenhando os prédios é outro sábio chamado Niemeyer.
- Ni, ni quê? – se espanta a anta.
- É-ma-ier. É assim que se fala – o tatu continua. – E quem está por trás de tudo se chama Juscelino Kubitschek.
- Kubi-quê? – A anta está completamente atordoada.
- Kubi-cheque – o tatu diz devagar. – É assim que se pronuncia.
- I-isso é nome de bi-bicho ou de gente? – pergunta o macaco.
- É nome de presidente – responde o tatu.
O tamanduá tapa os ouvidos: não quer ouvir mais nada.
Além da cobra, só tem uma pessoa calma nessa história: o sol.
Lá no alto, como sempre, ele observa e analisa e, mais uma vez se admira com a atividade do homem. Há tantos milhões e milhões de ano o sol está lá, observando o que se passa na terra, o certo e o errado, o bom e o mau, a morte e a vida. Tudo. Sem perder nada. Só observando. Esperando que o homem consiga viver melhor. É cheio de esperanças, o sol.
Ele envia seus raios para os bichos reunidos lá embaixo, e medita sobre o que fazer.
Enquanto a cobra se enrola, conformada, e declara:
– Pode ser ruim pra nós, mas vai ser bom pro país. Nós também somos brasileiros. Não podemos ser egoístas.
Os passarinhos piam, alvoroçados, nunca foram egoístas e estão doidos para poderem logo se misturar com o bicho homem.
- Vai ser bom!
- Vai sim!
- Sim, sim!
- Sim!
Segunda parte
Uma manhã, depois de 1.250 dias de trabalho incansável, a cidade ficou pronta e bela, quase resplandecente.
Uma cidade moderna, esperançosa, novinha em folha.
Os prédios, os palácios, as escolas, a igreja, as grandes vias urbanas. Tudo pronto. E montes de gente continuando a chegar.
Mas onde estão nossos bichos?
Não estão nada bem, essa é que a verdade.
O macaco, por exemplo, morreu.
Com seu jeitão de esperto, ansioso para aproveitar o momento, foi participar das construções. Achou, o muito tolo, que ajudando os candangos – os trabalhadores que chegaram para levantar Brasília – ele ficaria rico. Que ficaria rico como os patrões. Mas foi contratado, isso sim, pra levar tijolos para o pessoal trepado lá nas grimpas dos milhares de andaimes que se erguiam sobre a terra vermelha.
Um dia, quando pulou nas costas de um candango para lhe passar um tijolo, o pobre se desequilibrou, agarrou-se na primeira coisa que viu que foi justamente a perna do nosso macaco que, sem os aparatos de segurança, despencou lá de cima.
Morreram na hora, os dois.
Já o tamanduá e a onça, compreendendo que não só não teriam vez naquele novo mundo como nada podiam fazer contra, fugiram. O tamanduá sem nem sequer olhar pra trás.
A anta, pobrezinha, apalermada, teve o pior dos fins: acabou assada.
Uma tarde de domingo, a turma de candangos resolveu fazer um churrasco, e foi ela que um deles caçou no mato e colocou para rodar no espeto, de olhinhos esbugalhados, morrendo ainda sem nada entender, ainda perguntando “O quê? Que cheiro de queimado é esse?”
Mas, é preciso que se diga, nem tudo foi tão ruim.
Teve também muita coisa boa.
Os passarinhos, por exemplo, continuaram piando, e novidadeiros como são, amaram de cara a nova companhia, sobretudo os filhos dos novos moradores. Acharam que o lugar ficou mais alegre, mais cheio de gente, mais animado.
Quanto ao sapo cururu, esse se acomodou no grande Lago Paranoá que, afinal, não era de água salgada como disseram no começo, mas de água doce, como era de seu gosto. Muito melhor do que havia pensado, e muito bonito. Mas como é sapo, e sapo é reclamão por natureza, ele acha que não pode dar o braço a torcer. Passa o dia resmungando que antes era melhor.
A cobra, a sábia, achou sua nova moradia num buraco aconchegante debaixo do belo Palácio do Alvorada, o do Presidente. Fica lá, enroladinha, meditando sobre o que ouve e imaginando o que não ouve. Está cada vez mais sábia embora cada vez mais triste. Mas isso talvez seja apenas da velhice.
E o sol?
Bem, no meio de tudo isso, o sol decidiu fazer uma bela coisa.
É que dali do alto, todos aqueles dias, contemplando o grande trabalho dos homens construindo a nova cidade, ele recordou outros tantos trabalhos que já vira sendo feito pelo mundo afora. Os homens construindo, os homens erguendo suas maravilhas, os homens procurando melhorar a vida no seu planeta. Incansáveis. Trabalhando de sol a sol.
Errando muito, é verdade, mas quem não erra?
O importante, o sol pensou, é que a nova capital era uma dessas maravilhas que só o homem é capaz de criar. Era um presente para o país. Traria mudanças. Marcaria um novo tempo. Um novo tempo de esperanças.
Enterneceu-se outra vez. E decidiu dar aos moradores daquela nova cidade um presente: o seu mais lindo pôr-do-sol. Sem pensar duas vezes, o colocou ali, bem no meio do coração do cerrado.
A beleza da cidade ficou completa.
Houve, então, a grande festa da inauguração. Com celebrações, paradas, bandas tocando, fogos de artifício, discursos do Presidente. Todos comemorando o grande feito.
O país alegre aplaudindo a bela capital.
Eu fui nessa festa.
Estava tudo muito bonito, docinhos deliciosos e, quando acabou, peguei uma bandeja para trazer um punhado pra vocês. Tinha chovido o dia todo, o chão estava coberto de pegajosa lama vermelha e, com cuidado, vim carregando a bandeja. Mas quando passei pela margem do Lago, com aquela lama toda escorregadia, bom… foi quando caí e deslizei até quase me afundar na água.
Como sei nadar, consegui escapar, mas os docinhos, não.
Acho que o sapo comeu.
Fim