O abundante Jorge

Fui ver a exposição do Jorge Amado no Museu da lingua Portuguesa.

Apesar de escura, é bem pequena – como eu gosto – e inventiva como em geral são as montagens da Bia Lessa. Dá bem conta do recado e da abundância desse escritor de altos e baixos, injustiçado pela crítica. Me fez sair de lá querendo relê-lo e relembrando os bons momentos que seus livros me fizeram passar na adolescência.

Li “Gabriela, Cravo e Canela” escondendo debaixo do colchão o exemplar tirado da biblioteca do meu pai.

Que tempos aqueles quando alguns livros eram proibidos!

Quando vou falar para turmas de crianças e adolescentes, gosto de mencionar essas coisas que, tenho quase certeza, eles acham meio incompreensíveis.

Mas por hoje é só porque tenho muito trabalho pela frente.

 

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Coisas que eu não queria ser

 

Se tem uma coisa que eu não queria ser era galinha. Viver no harém do galinheiro entre outras similares, todas igualmente irrequietas, alvoroçadas, histéricas. Passar a curta vida ciscando e botando ovo para terminar numa panela. Dispenso, obrigada.

Outra coisa que eu não gostaria de ser: barata. Asquerosa, assustada, a raça que, dizem, sobreviverá a uma catástrofe planetária. Mal consigo olhá-las. Pior do que elas, só ratos. Tenho uma vontade ancestral, primitiva, de gritar se vejo um rato. Freud certamente explica.

Também odiaria ser transporte público, abarrotado e espremido por todos os lados nas horas de pico. Dirigido por um motorista estressado pelo caos do trânsito, e pior: mal pago. Ser propriedade de uma empresa cujo interesse prioritário é exaurir meu motor até o bagaço.

E uma estrada esburacada, então! Eu odiaria. Ou uma pobre árvore centenária dividida em dois troncos mortos por uma motosserra sinistra. Como eu odiaria ser uma motosserra! Acho que me suicidaria.

Odiaria também ser secretária de corrupto. A bandinha fraca da coisa toda. Sem saber direito realmente o que sabe ou que não sabe. Sem saber direito se deve dizer o que sabe ou afirmar que não sabe. Sem saber direito se tem consciência ou se a deixou trancada debaixo dos papeis da última gaveta.

Outra coisa que eu odiaria ser é uma cozinha gourmet. Correria o risco de ser presenteada por alguém a outro alguém e ter de ouvir coisas que macularia minha limpeza pristina de cozinha de qualidade. E sem conseguir imaginar a que bocas serviriam os manjares saídos de minhas panelas quentes.

Também odiaria ser paladina da moral. Os Paladinos da Moral (a maiúscula no caso é parte do epíteto), além de chatos de galocha, em geral entendem pouquíssimo de moral. A última moral que eles viram foi posta pra correr faz tempo. Muito antes de começarem a vociferar por ela enquanto sujavam a roupa de baixo e erguiam duro o dedo indicador, “batendo forte” nos outros para que ninguém pensasse em “bater neles”.

O que esses paladinos de fato fazem com seu canto rouco de sereias velhas é cultivar os escândalos que a mídia adora, desviando a atenção das questões principais. Tal como acontece agora quando, falando de cascatas, cataratas e cachoeiras, questões como o Código Florestal, como a Reforma Política (que todos sabem que, enquanto não for feita, a corrupção continuará parte do jogo político), vão caminhando devagar pro brejo. Essas e tantas outras questões cruciais para o país, que deviam estar sendo debatidas por nossos parlamentares e por nós, vão sendo atropeladas por esses falsos paladinos tanto quando começam a erguem suas casas, quanto quando elas caem, e outros paladinos de tocaia começam a construir as suas.

Eu odiaria ser qualquer um deles.

(Crônica publicada em “O Popular”)

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O pesadelo de uma autora

Ainda mergulhada na última revisão do meu novo romance “Pauliceia de Mil Dentes”. Momento gostoso mas que às vezes parece interminável: burilar, ajustar, cortar.

É um tanto obsessivo isso. Conheço autores que se detêm nesse momento, aprisionados quase que para sempre. À procura do ideal impossível da perfeição. De um texto onde nada estorve.

E cortam, cortam, e vão cortando…. até que, no final, sequer resta uma frase.

UI! ME ACORDEM!

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Glub! glub!

Estou totalmente mergulhada na última revisão do meu romance, “Pauliceia de Mil Dentes”.  O título vem de um verso do queridíssimo Mário de Andrade.

Estou sem tempo pra dizer um “ai”.

O jeito é só voltar por aqui na próxima semana, combinado?

Beijos a todos.

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Roubaram nossos dias luminosos de maio

 

São Paulo em maio costumava ser azul, alegre e radiante.

Este ano está fria, chuvosa e deprimente.

O que andam fazendo com nossa cidade?

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Sexta de contos

Retomando a nossa Sexta de Contos, aí está um pequeno conto, escrito a partir de uma conversa com minha querida amiga Silvana Jeha, sobre uma foto antiga da praça de uma cidade de interior. Acabei inventando outra foto, outra praça, e uma história.

 

A foto da praça

Para Silvana

 

É uma foto antiga e, no amarelado do tempo, vê-se o largo; ao fundo, a igreja.

Nada disso existe mais.

Mesmo a igreja, que é a matriz da cidade, e que, sim, está de pé, hoje é outra. Ampliaram sua nave e cresceram suas torres. Perdeu a graça de igreja humilde e antiga; ganhou um arremedo de grandiosidade.

Nem a praça é a mesma porque preencheram seus espaços com calçamento, asfalto, quiosques.

E aquelas pessoas que passam pelo largo da matriz já não existem mais.

Acabou. Tudo o que está na foto acabou.

E, no entanto, é a foto de algo que existiu.

Aquelas pessoas existiram.

Distingo daqui a batina negra do padre na porta da igreja e, a seu lado, mais abaixo, o vulto esguio da mulher bonita, conhecida por todos como a mulher do padre. Vejo um grupo de senhores de terno e, mais atrás, um grupo de senhoras endomingadas. Moças se agrupam de um lado, rapazes de outro. As crianças parecem muito leves, mesmo fixas como estão.

Sei que era um domingo.

Bem na frente à direita, perto dos olhos de quem vê a foto – os meus, agora –, quem eu vejo é ele. Reconheço-o pelo terno branco. Impossível ver seu rosto inclinado.

À esquerda, reconheço também a moça, pelo jeito empertigado e pelo vestido; ela tem outra foto com o mesmo vestido escuro, provavelmente preto. A outra, onde está apenas ela – cabelos em coque, olhos de melancolia – e imagino que também essa foram registros do mesmo fotógrafo. Fotógrafos não eram de dar com a mão naquele tempo; na cidade, talvez, nem existisse um fotógrafo. Talvez ele tenha ido ali chamado para fotografar as senhoras, os senhores e as paisagens, tudo que sua Rolleiflex pudesse abarcar no mesmo dia.

O que sei é que era domingo.

E sei também que o nome da moça – teimo em dizer moça porque era muito jovem embora já fosse viúva com três filhos – era Serafina.

O nome dele nunca se soube. Todos se referiam a ele como O Homem do Terno Branco. Ainda que tenha ficado para sempre registrado nessa foto domingueira, ninguém nunca soube quem ele era, nem seu nome.

Sabe-se que foi nesse mesmo dia que ele chegou à cidade de manhãzinha, não se sabe de onde, e já estava no fundo da igreja na hora da missa. Muitos disseram que veio a pé – o que parece improvável dada à brancura do terno impecável; outros disseram que num Fordinho – mas não prestaram atenção à placa; outros, ainda, disseram que quando viram, lá estava ele, no canto da praça se dirigindo ao outro canto. E que assim que chegou frente à viúva, olhou-a fixamente e fez o disparo à queima-roupa.

Esse o momento que ficou registrado na foto: o Homem do Terno Branco indo em direção à Serafina.

Serafina, minha avó.

A cidade nunca soube por que ele a matou. Por engano, dizem. Não, dizem outros, pois ele viu seu rosto de frente.

O mistério até hoje permanece.

Penso um dia, talvez, ter condições de investigar o que puder ser investigado.

Mas não hoje.

Hoje apenas olho a foto e a vejo caminhando distraída para sua morte.

(Publicado pela primeira em “O Popular”)

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O luto por uma amiga

Preciso escrever para compreender que Rachel morreu.

Repetir: Rachel morreu, Rachel morreu, Rachel morreu.

A morte de uma pessoa querida às vezes pode ser algo simples demais. Você vem caminhando distraída e, de repente, à sua frente, faz-se um vazio, e pronto. Aquela pessoa querida não existe mais.

Rachel Joffily Ribas não existe mais.

E a partir desse momento, já não há volta atrás: já não saberemos o que ela faria hoje, amanhã ou depois; o que nos traria de bom nesses próximos anos – uns 10, 15 anos ainda, que era o mínimo que se esperar. Anos que ela enriqueceria com sua presença e humor, sua arte e seus bonecos. Não saberemos mais. Não teremos mais nada de tudo isso. O que nos fica dela, agora, são as lembranças, a memória do que ela foi para cada um de nós.

Quando a conheci, ela era a garota que começou a aparecer na Universidade de Brasília ao lado do Marquinhos. Devo ter sentido um pouquinho de ciúme pois, nesse primeiro momento, parecia que aquela garota magra, cabelos escorridos e grandes óculos, ia tirar nosso Marquinhos, nosso insubstituível Marquinhos, de nós, seu grupo de amigos. Mas não foi o que aconteceu: Marquinhos trouxe Rachel para nós.

Rachel e sua maneira natural de ser diferente. Na dela. No domínio do corpo e dos gestos. Serena. O andar, o colocar um prato na mesa. O humor agridoce. A atenção aos outros.

Havia um mistério na Rachel que eu, como amiga, nunca pude decifrar. E que talvez tenha sido a fonte do fascínio que ela me provocava até nos detalhes. Quando, por exemplo, raspou completamente as sobrancelhas; quando chegava trazendo na mão uma libélula criada a partir de uma folha verde qualquer; quando deixava Ian, menino, chorar, depois de um dia de brincadeiras: “Se agora ele precisa chorar, é bom que possa chorar. Extravasar o cansaço do dia.”. Quando recebeu a notícia da gravidez do primeiro neto e saiu pela cidade com o cartaz pendurado no pescoço: “Vou ser vovó”. Coisas assim pequenas do cotidiano. Para não falar das coisas efetivamente grandes de sua arte. Seus pequenos bonecos e a respiração que ela lhes passava – eu ia dizer mágica, mas não; a melhor palavra para isso é Arte. A criação de algo que não existia antes, e que passa a ter vida e capacidade de provocar emoções estética e afetiva.

Rachel era domínio, humor, talento e afeto. Impossível falar de Rachel sem falar do afeto com que ela se cercava. Sábia, sábia, sábia.

Quando ela e Marquinhos partiram para os Estados Unidos, depois Europa, com um projeto que imagino claro na cabeça, eles foram, amadureceram e voltaram. Trazendo o seu grupo de “Contadores de estórias”, competência, técnica, e um talento criativo reconhecido que nunca parou de evoluir. Na beleza da sua peça mais recente, “Flutuações”, o que me chamou atenção foi como era possível ela estar ainda mais serena, mais totalmente no controle, mais sábia.

E depois de uma curta temporada no Rio, a descoberta de Paraty, e a escolha da cidade para viver e criar. Montaram o Teatro Espaço, logo famoso aqui e lá fora. Criaram peças de extraordinária beleza. Atraíram turistas, encenaram grandes espetáculos nas praças. Deram um tipo peculiar de fama à cidade. E ainda inventaram um lugar mágico no pico do morro, no meio do Caminho do Ouro.

A morte tão rápida e inesperada de uma amiga como Rachel de fato abre um vazio no chão onde piso. Com ela se foi uma parte importante e querida do mundo do qual faço parte.

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