Retomando a nossa Sexta de Contos, aí está um pequeno conto, escrito a partir de uma conversa com minha querida amiga Silvana Jeha, sobre uma foto antiga da praça de uma cidade de interior. Acabei inventando outra foto, outra praça, e uma história.
A foto da praça
Para Silvana
É uma foto antiga e, no amarelado do tempo, vê-se o largo; ao fundo, a igreja.
Nada disso existe mais.
Mesmo a igreja, que é a matriz da cidade, e que, sim, está de pé, hoje é outra. Ampliaram sua nave e cresceram suas torres. Perdeu a graça de igreja humilde e antiga; ganhou um arremedo de grandiosidade.
Nem a praça é a mesma porque preencheram seus espaços com calçamento, asfalto, quiosques.
E aquelas pessoas que passam pelo largo da matriz já não existem mais.
Acabou. Tudo o que está na foto acabou.
E, no entanto, é a foto de algo que existiu.
Aquelas pessoas existiram.
Distingo daqui a batina negra do padre na porta da igreja e, a seu lado, mais abaixo, o vulto esguio da mulher bonita, conhecida por todos como a mulher do padre. Vejo um grupo de senhores de terno e, mais atrás, um grupo de senhoras endomingadas. Moças se agrupam de um lado, rapazes de outro. As crianças parecem muito leves, mesmo fixas como estão.
Sei que era um domingo.
Bem na frente à direita, perto dos olhos de quem vê a foto – os meus, agora –, quem eu vejo é ele. Reconheço-o pelo terno branco. Impossível ver seu rosto inclinado.
À esquerda, reconheço também a moça, pelo jeito empertigado e pelo vestido; ela tem outra foto com o mesmo vestido escuro, provavelmente preto. A outra, onde está apenas ela – cabelos em coque, olhos de melancolia – e imagino que também essa foram registros do mesmo fotógrafo. Fotógrafos não eram de dar com a mão naquele tempo; na cidade, talvez, nem existisse um fotógrafo. Talvez ele tenha ido ali chamado para fotografar as senhoras, os senhores e as paisagens, tudo que sua Rolleiflex pudesse abarcar no mesmo dia.
O que sei é que era domingo.
E sei também que o nome da moça – teimo em dizer moça porque era muito jovem embora já fosse viúva com três filhos – era Serafina.
O nome dele nunca se soube. Todos se referiam a ele como O Homem do Terno Branco. Ainda que tenha ficado para sempre registrado nessa foto domingueira, ninguém nunca soube quem ele era, nem seu nome.
Sabe-se que foi nesse mesmo dia que ele chegou à cidade de manhãzinha, não se sabe de onde, e já estava no fundo da igreja na hora da missa. Muitos disseram que veio a pé – o que parece improvável dada à brancura do terno impecável; outros disseram que num Fordinho – mas não prestaram atenção à placa; outros, ainda, disseram que quando viram, lá estava ele, no canto da praça se dirigindo ao outro canto. E que assim que chegou frente à viúva, olhou-a fixamente e fez o disparo à queima-roupa.
Esse o momento que ficou registrado na foto: o Homem do Terno Branco indo em direção à Serafina.
Serafina, minha avó.
A cidade nunca soube por que ele a matou. Por engano, dizem. Não, dizem outros, pois ele viu seu rosto de frente.
O mistério até hoje permanece.
Penso um dia, talvez, ter condições de investigar o que puder ser investigado.
Mas não hoje.
Hoje apenas olho a foto e a vejo caminhando distraída para sua morte.
…
(Publicado pela primeira em “O Popular”)
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