Sexta de crônicas: O mundo de cores que perdemos

Eu já era em grandinha quando fiquei sabendo que as estátuas greco-romanas, conhecidas por tantos séculos como brancas, eram originalmente coloridas. No pequeno e fabuloso Museu de Pergamo, em Berlim, onde fui informada disso, meu espanto foi enorme.

Desde então, imaginando como essas estátuas seriam um deslumbramento ainda maior se coloridas, lastimo minha ignorância. E lastimo mais ainda porque, ao que parece, essa foi uma ignorância coletiva causada por uma negligência proposital das autoritárias elites das artes.
Vejam só.

Na Renascença, os pigmentos coloridos das estátuas greco-romanas já haviam desaparecido por um efeito natural do tempo. Como resultado, passaram a ser consideradas originalmente brancas. Escultores do porte de um Michelangelo acreditaram nisso e as tomaram como modelo para criar suas obras-primas em mármore igualmente sem cor.

Foi um grande equívoco.

Gregos e romanos das priscas eras acreditavam que seus deuses eram cheios de cor e, ao representá-los, não regatearam nas cores. De quebra, coloriram também seus templos. Nas ruas antiquíssimas de suas cidades, a policromia das estátuas e colunas era comum e exuberante. Suponho que deveria ser difícil para o mortal comum passar por elas sem se deter para reverenciá-las.

Que tempos!

Havia até profissionais especializados em pintar o mármore trabalhado. E como se não bastasse – imaginem outra vez a beleza –, as figuras esculpidas eram vestidas com roupas reais e adornadas com joias autênticas, trocadas a cada ano.

Em nossas ruas, hoje, no mesmo dia as belezas imobilizadas pelo mármore ficariam sem roupas e sem joias. Mas poderiam ser expostas com toda sua pompa em um bom museu. Meu queixo cairia vendo o que a humanidade foi capaz de fazer em tempos tão longínquos.

Vizenz Brinkmann, o arqueólogo que pesquisou essas cores e o material usado pelos antigos para pintá-las, conseguiu recriá-las e, graças a ele, hoje, na impossibilidade de ir até a galeria onde ele expõe suas descobertas, uma clicada no Google pode nos fazer ver algumas dessas imagens como de fato eram no tempo em que foram criadas.

Mas o que me fez realmente lastimar a ignorância, quando li a respeito, foi a informação de que desde o final do Século 19 os estudiosos já sabiam que essas estátuas eram coloridas, o que foi completa e propositadamente negligenciado no Século 20. “Provavelmente devido a novas estéticas de purismo”, diz Brinkmann. “Não havia mais pesquisa, documentação ou visualização na ciência até iniciarmos nossa pesquisa nos anos 80″. A explicação que ele dá para isso é que “As cores vívidas e ornamentos da arte antiga são obstáculos para a arrogância europeia decorrente de uma estética e forma gregas abstratas e intelectuais.”

Ora, ora!

O que dizer frente a um despautério desses?

Apenas afirmá-lo como um exemplo inesperado do que perdemos com a arrogância e o autoritarismo.

(Crônica publicada em “O Popular” em 20/06/19)

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Sexta de crônicas: O que está acontecendo com o Everest?

Filas para chegar ao topo da montanha mais alta do planeta? Alpinistas se empurrando para tirar selfies sobre a parte plana do pico da montanha, onde se acotovelaram cerca de 20 pessoas quando ali mal cabem dez?

As mesmas pessoas que esperaram horas sobre a crista de uma montanha rochosa, gelada, sem oxigênio que baste, e com um abismo a seus pés? E onde, até este momento da atual temporada (os meses mais propícios para a escalada), cerca de onze pessoas já morreram congeladas? E cujos corpos, abandonados pela trilha, eram desviados por quem descia – já sem oxigênio para se deter e pelo menos verificar se os olhos estavam fechados – e pelos que subiam e que – talvez pelo ar rarefeito que perturba o raciocínio do mortal – não queriam perder tempo antes de chegar ao topo.

Pessoas sem a qualificação necessária para subir a um cume que, desde sempre, amedronta alpinistas experientes que dedicam anos na preparação para atingi-lo?

Não sou escaladora, mas minha filha e meu genro são. Por eles, tenho conseguido imaginar a grande emoção de chegar ao topo de uma montanha e a euforia da auto realização ao constatar que foram capazes de dar seu melhor para vencer os obstáculos e chegar lá. Entendo isso. Agora, cair nessa esparrela de enfrentar uma montanha sem conhecê-la e respeitar seus perigos, como é possível? Que nova síndrome é essa descoberta na fila do Everest?

Quando ainda tínhamos a Editora Marco Zero (Márcio Souza, Felipe Lindoso e eu), publicamos um livro chamado “Sete Picos”, sobre a aventura de dois milionários americanos (quem mais?) que se propuseram a escalar os sete picos mais altos da Terra. O último, por ser o mais alto, o mais difícil, o mais perigoso e, portanto, exigindo mais experiência, foi justamente o Everest.

Penso nisso, ao ver a foto da inconcebível fila para chegar ao temido topo dessa cordilheira por muitos considerada sagrada.
Que pessoas são essas? De onde vieram?

E se até esse ano, as mortes acontecidas ali eram ocasionadas sobretudo por avalanches imprevistas ou mudança súbita das condições climáticas, este ano, justo este ano de tantos absurdos acontecendo aqui e alhures, elas estão batendo recordes. Causadas pelo número excessivo de pessoas na montanha, combinado à inexperiência de muitos escaladores obcecados por realizar tal proeza.

Ao que tudo indica, agências criminosas estão levando ao Everest pessoas que, pela obsessão e wishful thinking, colocam a si e a todos os demais em risco. Com a contribuição do governo do Nepal, um dos países mais pobres do mundo, que tem emitido mais autorizações do que seria o razoável, segundo quem entende da questão. Sem falar, também, nos esquemas de fraudes que andaram, em outro momento, utilizando mais resgastes do que o necessário.

E sem contar as toneladas de lixo e poluição que os humanos vão deixando como rastro pelo caminho.

Querida humanidade, me diga: até onde irão a sede de lucro e crime de uns, e as irresponsabilidades de outros?

(Crônica publicada no jornal “O Popular” em 7/6/2019)

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Um romance meu indicado para o Bozo ler

Descobri hoje que a Stella Maris Rezende, meus amigos, é tipo uma daquelas loucas que a gente ama. No Rascunho deste mês ela teve o desaforamento de indicar meu romance “A mãe da mãe da sua mãe e suas filhas” para ninguém menos que o Bozo e seus asseclas machistas e misóginos.
Olha só o que a essa escritora genial e maluca de pedra respondeu à pergunta da entrevista: “Se pudesse recomendar um livro ao presidente Jair Bolsonaro, qual seria?”:

“A mãe da mãe de sua mãe e suas filhas, de Maria José Silveira. Um retrato impressionante do Brasil desde os primeiros anos coloniais até a década de 1980, ainda na ditadura militar. Em linguagem poética e encantadora, é uma bela aula do Brasil. Para machistas e misóginos, leitura penosa, mas imprescindível.”

Eu estou rindo até agora. 😂

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Lilia Downs: a voz da minha personagem (2)

Como coloquei no post anterior sobre Joan Baez, Lila Downs é também dona de uma voz que Alelí, a personagem do meu romance “Maria Altamira”, poderia ter.
O que em nada se assemelham é na exuberância.
Enquanto Lila Downs parece uma força da natureza, Alelí, sobrevivente de uma calamidade que soterrou tudo que amava, carrega o peso de um sofrimento insuportável. Independente de qualquer desejo seu, a potência de sua voz torna-se o único obstáculo para sua procura da morte.
Às vezes penso também na voz de Amy Winehouse, outra cantora de voz de derrubar cadáveres.
Talvez a coloque aqui. Outro dia.
A violeira Helena Meireles também poderia entrar nesta composição, menos pela voz e mais pela história de vida.

Por enquanto ficam a Joan Baez e a Lila Downs cujas vozes são as que mais ecoam em mim quando imagino a voz inexistente de Alelí.

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Em louvor à universidade pública e à manifestação do dia 15 de maio

Quinta feira passada, no espaço quinzenal que ocupo em “O Popular”, o jornal de maior circulação de Goiás, publiquei uma crônica sobre o valor da universidade pública e o crime que o governo atual pretende cometer congelando o orçamento destinado a elas – que já sabemos como é pouco. (A crônica está no post anterior deste blog.)
Mas agora volto a falar outra vez em louvor a ela desde um ponto de vista pessoal.
Para mim, mesmo quando bem jovem, nunca houve a menor dúvida de que era na universidade pública que eu encontraria a excelência de uma formação universitária aberta à diversidade e ao desenvolvimento de um pensamento voltado para a realidade do país.
No final dos anos 60, fiz o curso de Comunicação na UnB, em Brasília, e sem vacilar posso dizer que lá aprendi de fato a pensar, a olhar para fora do meu pequeno mundo, e a viver a solidariedade que se forma em torno de um projeto de esperança na construção de um mundo mais justo. Lá descobri as amizades que duram entre pessoas de todo canto do país, e de classes diferentes. Lá, digamos assim, descobri o tamanho do Brasil.
Não muito depois, exilada no Peru, foi também em uma universidade pública – a Universidad Nacional Mayor de San Marcos, em Lima – que fiz o curso de Antropologia e meu primeiro trabalho de campo sobre o campesinato em uma comunidade dos Andes, que depois rendeu o primeiro livro que publiquei – junto com Felipe Lindoso e nosso inesquecível professor e amigo, Rodrigo Montoya – pela Mosca Azul, uma editora peruana, “Producción Parcelária y Universo Ideológico – El caso de Puquio”. Lá, digamos assim, descobri um pedaço da América Latina.
De volta ao Brasil, cursei várias matérias no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional (Universidade Federal do Rio de Janeiro) – com professores extraordinários como Moacyr Palmeira e Lygia Sigaud, e colegas como Sergio Leite Lopes e Afrânio Garcia, MF Garcia, Rosilene Alvim e Beatriz Heredia, todos a quem devo muito e por quem tenho uma amizade daquelas que duram para sempre. Fiz também o mestrado em Ciências Políticas da USP com o Prof. Juarez Brandão Lopes, intelectual rigoroso e aberto para a discussão de ideias diferentes das suas.
Logo, tampouco minha filha teve dúvidas: seu único vestibular foi a para Universidade Federal do Paraná, onde estudou biologia voltada para a ecologia.
Assim, posso dizer que sei, com a cabeça e a vida, o valor imensurável de boas universidades que abrem suas portas para os jovens de todos os cantos e classes. Sei que é preciso defendê-las com garras e dentes, em nome do futuro do país.
Essa, portanto, é uma convocação para irmos às ruas, no dia 15 de maio, nos manifestar contra a burrice criminosa de um governo que desgoverna em nome de interesses privados, os mesmos interesses que relegarão nosso povo à condição de um povo sem formação superior e, em consequência, sem possibilidade de desenvolver suas capacidades plenas, sem conhecimentos, sem ciência e sem arte. Um povo, digamos assim, pronto para sentir sobre o lombo o desperdício humano do cativeiro moderno.

Borá lá, pessoal!

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Sexta de crônicas: É pior

Tem dias que penso estar regredindo a um tempo no qual sou outra vez aquela criança que nada compreendia do mundo.
Mas não é isso. É pior.
É mesmo como adulta que me é difícil compreender como um governo brasileiro torna-se inimigo de suas universidades públicas. E não só. Torna-se inimigo também do ensino fundamental. Os cortes que estão acontecendo na área da educação – cujas consequências até uma criança entenderia – como adulta, hoje, me parecem mentiras, fake news abjetas. Custa esforço me dar conta de que são verdadeiras.
Como um governo pode ser contra a educação de seu país?
Recentemente, fiquei admirada quando o escritor uruguaio Fernando Villalba, na FLIPOÇOS – a feira de livros de Poços de Caldas -, contou que no Uruguai, que há anos investe maciçamente em educação, uma empregada doméstica pode pedir emprestado a sua patroa um livro de Juan Carlos Onetti, seu conterrâneo Prêmio Nobel de Literatura.
Alguém que não reconhece o valor de um bom livro dirá, “Que bobagem! Isso não significa nada. Uma doméstica leitora não é mais rica nem mais feliz por conta disso”.
Feliz, de fato, talvez não. Felicidade é algo que não se mede por nenhuma régua. Mas poder ler Onetti dará a ela, a essa moça uruguaia – nem que seja apenas no passageiro momento da leitura – a benesse de poder desfrutar da riqueza de uma obra literária. E se mais rica materialmente ela tampouco ficará, terá no entanto sua autoestima enriquecida pelo simples fato de ser uma mulher e cidadã capaz de ler bons autores como seus patrões.
É também essa autoestima enriquecida, entre outros incalculáveis ganhos vindos de uma boa educação pública, que pretendem agora tirar de milhões de brasileiros.
Que mal andaram fazendo os brasileiros agora ameaçados de ter que passar para o ensino pago se quiserem ter uma formação?
Se há algo de muito bom neste nosso país são suas universidades públicas. Não apenas em termos da formação dos alunos, mas em termos de pesquisas científicas que, vira e mexe, dão resultados formidáveis. Quem não acredita, dê-se ao trabalho de abrir o Google, digitar “pesquisa universitária” e ver o que as universidades públicas estão fazendo. A bem da verdade, pequenos milagres, já que boa parte delas vêm sofrendo bastante com a escassez de recursos. Mas nunca como agora em que há um cerco financeiro cujo objetivo é, simplesmente, estrangulá-las. Sucateá-las. Liquidá-las.
Por quê?
Porque esse governo atual sofre de um ressentimento que nem Freud explica. São contra o conhecimento para todos. Contra o saber dos nossos jovens e adultos. E a favor da privatização do ensino que colocará, mais do que nunca, os estudos e as ciências nas mãos de uma elite que nunca deixou de ser tacanha e burra.
Essa insanidade absurda nem ao capitalista interessa. Ele precisa de conhecimentos para crescer e enfrentar os concorrentes. O projeto de emburrecer o país é coisa de uma elite atrasada e suicida que se engana ao pensar que, destruindo os outros, continuará como elite. Erro grotesco. A longo prazo, ela não continuará.

Crônica publicada em “O Popular” em 09/05/2019

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Joan Baez: a voz da minha personagem (1)

Uma das duas protagonistas de meu novo romance, “Maria Altamira”, chama-se Alelí.
Sua família foi soterrada com outros cerca de 20.000 habitantes de Yungay, cidade dos Andes peruanos, em um aluvião provocado pela queda do Nevado Huascarán.
Alelí foi uma dos 300 sobreviventes.

(O trágico soterramento da cidade de Yungay e a morte de todos os seus moradores menos os que estavam nas partes mais altas ou no campo naquele belo domingo de manhã, tudo isso de fato ocorreu. Mas Alelí é só uma personagem.)

No romance, ela tem aquele tipo de voz que impacta quem a escuta.

Penso nessa voz inexistente como semelhante à voz de duas cantoras que amo: Joan Baez e Lila Downs.

Hoje coloco hoje aqui a voz da Joan Baez, para quem quiser conhecê-la ou rememorar. Daqui uns dias, colocarei a da Lila Downs.

O romance será lançado este ano.

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