Sexta de crônicas: Conversa muda com mInha avó

Para Mira e Loli

Eu sou aquela sua neta que, se ganhasse o disputado privilégio de dormir em seu quarto, esperava seu próximo ronco suavíssimo chegar – temendo que se não viesse significasse sua morte. E para quem o prêmio era enfrentar o sono para ter mais uma vez a visão inesquecível: de camisola, sentada na beirada da sua cama de viúva, a senhora trançava os compridos cabelos brancos para arrumá-los em um coque de tal forma que estivessem prontos e perfeitos quando acordasse no frio da madrugadinha para ir à primeira missa da igreja a três quarteirões de distância.

Sou eu – essa mesma neta sua – que, nessa noite chuvosa, subo a cortina da minha janela nesta megalópole e, sem que nada me avisasse que pensaria nisso, me lembro dessas noites em seu quarto.

Noites que já coloquei em algum dos meus livros, porque escrever é também lembrar, vovó. Gosto ainda de chamá-la assim, mesmo hoje sendo também avó de quatro adoráveis netos, e sabendo que a senhora teve 50 que, com certeza, ainda a chamam assim. As relações fundamentais – e seus denominativos – não mudam com a idade nem a morte. E me admiro: como dar conta de tantos netos e saber de cada um deles, dos maiores aos menores?

Sou aquela neta que achava a melhor coisa do mundo que então conhecia passar temporadas em sua casa em Jaraguá. A casa de piso de tábuas corridas que, no longo corredor à noite, ecoavam fantasmagóricas; em cujos quartos, ao deitar, sondávamos as telhas e os barulhos do quarto ao lado onde dormiam os meninos; em cuja sala de três janelas nos dependurávamos para ver a cidade passar; em cuja despensa entrávamos furtivos só pela graça de entrar; e em cujo banheiro nos esperava – a nós, primas – a banheira branca de pezinhos onde tomávamos banho juntas, inventando bolhas de sabão e músicas que cantávamos como se estivéssemos em um palco de espumas.

Sou aquela mesma que – com Diva, Delia, Luíza, Laura e Sandra – subia nas mangueiras e jaqueiras do seu quintal frondoso, como se fosse um lugar único e nosso, ainda mais especial quando os primos, lá de baixo, tentavam ver nossas calcinhas. Da jaqueira passávamos para o muro que dava para a Rua de Trás – rua das casas de má fama – que deve ter outro nome mas até hoje chamo Rua de Trás. Verdade ou não, era nisso que nosso imaginário de criança acreditava, mesmo sem saber de fato o que essa “má fama” significava. Enquanto no muro da frente, o caramanchão de flamboyant vermelho queria apenas festejar a rua.

Essa sua casa foi destruída, minha avó, como tanto se destrói neste país. Hoje, dela só existe uma ou outra fotografia, e uma pirogravura que Fernando – pintor jaraguense que namorou uma de suas netas – teve a delicadeza de me dar. Por sorte. Pois é assim que guardo sua casa: nas lembranças e, como Drummond, em um quadro na parede.

(Crônica publicada em “O Popular”, em 11/9/2019)

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Noite de autógrafos da segunda edição ampliada d’A MÃE DA MÃE DE SUA MÃE E SUAS FILHAS em São Paulo

Só uma pequena foto para marcar a data 10 de setembro de 2019. Depois conto mais sobre o porquê desta segunda edição ampliada. Muitos amigos, muitos reencontros, uma boa festa.

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Sexta de crônica: Segunda, 3 da tarde, São Paulo

A gigantesca nuvem cinza-preta chegou como se nada fosse, e pairou sobre os prédios da cidade.
Menos de meia hora antes eu havia entrado em um prédio e quando de lá saí, me vi de chofre no meio da estranha escuridão errada.
No breu da nuvem o céu parecia doente.
No que primeiro pensei foi nas mães com filhos-bebês. Se estivessem longe deles, ao verem a noite chegar tão fora de hora com certeza se perguntariam, Onde estão meus filhos? Celulares às pressas tirados da bolsa e colocados nos ouvidos para indagar por eles. Saber se a nuvem preta pairava também lá onde estavam seus filhos.
Algo estava fora do lugar.
As ruas escurecidas, os faróis acesos dos carros, as pessoas se perguntando, Será chuva?
Não era.
Era fumaça.
Que vinda de incêndios a milhares de quilômetros encontrou uma massa polar e se tornou visível, provocando “a longa noite do meio ambiente”, como disse alguém. Em um país onde o fogo vem se alastrando à taxa de 84% de aumento se comparado ao ano passado. Onde fazendeiros e grileiros no sul do Pará comemoraram pouco antes o nunca jamais visto “Dia do Fogo”. Onde a estrutura de fiscalização do desmatamento está sendo caprichosamente desmontada. Onde muitos batem palma acreditando ver beleza no fogo queimando as matas. Onde em Rondônia, a capital, pela invasão da fumaça, transformou-se em um cenário de ficção científica.
É certo isso: começamos a viver em um cenário de ficção, só que não como ficção e sim realidade científica. O desmatamento da Amazônia está prestes a chegar ao ponto do “não retorno”, a ciência alerta. Todos os dias. Todos os dias nos chega um alerta. Não há desculpas para dizer que não sabemos ou não acreditamos.
Não somos crianças e, se essa nuvem assustou, não foi por ela. Foi por tudo que tal antecipação da noite de fato significa: desprezo e crime contra o meio ambiente; ignorância das consequências de tantos atos abomináveis; a perfeita boçalidade. Atrás dessa nuvem está a destruição que é o programa de governo. “Vamos desconstruir tudo”, ouvimos em certo momento, e de fato eles estão destruindo. Com método e voracidade.
Então pensei nos meus netos. Meus quatro netos. De diferentes idades e autonomia. Onde estão eles? Na universidade, uma; na escola, dois; o bebê no colo de sua mãe. Sei disso. Mas não foi só neles que pensei. Pensei também nos netos e filhos das mães brasileiras. Os que nasceram e os que irão nascer. Os que jovens, hoje, têm enorme dificuldade de conseguir emprego, e grande parte não consegue. Os que não poderão entrar em uma universidade pública, cada vez mais estrangulada. Pensei neles. Nas crianças e jovens das cidades, do interior, dos campos, das florestas, das beiradas dos rios, dos Territórios Indígenas. No futuro que está sendo tirado das mãos deles.
Essa estranha escuridão das 3 horas da tarde de uma segunda-feira em São Paulo logo emendaria com a noite, e passaria. Mas quanto às outras noites como essa? Se nada mudar no que está acontecendo agora, quando passarão?

Crônica publicada em “O Popular”, em 29 de agosto/2019

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Sexta de crônicas: Me lembrei de você, Jaraguá

Aconteceu que assisti ao extraordinário documentário “Estou me guardando para quando o carnaval chegar”, de Marcelo Gomes.

Na aparência é até simples o que o filme mostra: a transformação de Toritama, cidade do agreste de Pernambuco, na laboriosa “Capital do Jeans”. As imagens que passam sob nossos olhos, no entanto, são avassaladoras: jeans e mais jeans e mais jeans jorram na tela; pilhas e mais pilhas de peças se espalham pelo chão das fábricas de fundo de quintal onde máquinas obstinadas e seus ruídos exasperantes não param das 5/ 6 da manhã até 9/10 da noite.

É o aclamado empreendedorismo das classes populares – visto por muitos como uma saída – levando a uma exploração da força de trabalho poucas vezes vista. É brutal a auto exploração dos membros da família, embora não percebida, encoberta como está pela ilusão de que são donos de seu tempo e de seu trabalho. Nas entrevistas feitas com jovens, adultos, idosos, aparece satisfação e regozijo por, enfim, não estarem sujeitos a patrão nenhum, e não percebem que se tornaram seus mais impiedosos patrões.

Estão satisfeitos: não “batem ponto”, trabalham ouvindo músicas por cima do ruído da máquina, zoam um com o outro, enquanto nem as pilhas e pilhas e mais pilhas de jeans conseguem soterrar o monótono trabalho repetitivo da linha de produção: um bolso costurado na calça, dois bolsos, dez, cem, mil. A dez centavos cada, 100 reais. É preciso que o dia renda mais e a moça, filho brincando ao lado, quer produzir duas mil peças e ganhar 200 reais trabalhando até tarde da noite.

Até quando conseguirão aguentar esse ritmo escorchante de desgaste da força de trabalho?

A produção por peça não é vista como vilão e, sim, como saída. Podem ganhar mais do que um salário mínimo, é certo, mas não contam com nenhum direito trabalhista. Se adoecerem, a renda cai a zero. Se folgarem, idem. Creem ter tido uma escolha quando, na verdade, não tiveram nenhuma.

Até que chega o carnaval, quando uma estranha calmaria baixa sobre a cidade. As máquinas param, as fábricas fecham, as luzes noturnas não se acendem: o povo vai para a praia próxima curtir o mar e se mascarar para brincar na rua. Parece uma pausa mágica, e para não perdê-la, vendem o que têm – geladeira, TV, qualquer coisa. Passado o carnaval, com a volta da produção diária recuperarão o que venderam.

Quanto a nós, meros espectadores dessa perturbadora ilusão neoliberal, se conseguirmos abstrair a cegueira do empreendedorismo brutal que o filme mostra, e se algo pode nos ficar de positivo, é a vitalidade desse nosso povo, sua capacidade de trabalho e a tenacidade de conseguir brechas de orgulho e alegria na garra com que acreditam em saídas.

Então pensei em Jaraguá, terra onde nasci, e sua elogiada produção têxtil. Não sei como é o processo de trabalho ali, mas espero que suas fábricas caseiras não alimentem essa auto exploração desenfreada. Que não cheguem a tal extremo. Que escapem dessa cegueira e auto engano. Tomara.

Crônica publicada em “O Popular”(15/08/2019)

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Sexta de crônicas: Quero descer!

Esses dias vi algo que primeiro me espantou, segundo, me apavorou.

Primeiro foi um vídeo que circula na rede social mostrando Salvador Dalí ao “vivo”, falando e interagindo com os que foram ver sua exposição. É um Dalí de corpo inteiro, no auge de sua figura requintada, terno elegante e bigode estilosamente curvado para cima, como de praxe. Revivido, pontificando em seu Museu, e fazendo as pessoas se deterem, extasiadas, para ver o artista como se vivo fosse. Provocador como era, imagino que Dalí estará sacudindo seu esqueleto ao rir do que fizeram com ele.

É tecnologia moderníssima, criada a partir de softwares de inteligência artificial que captam movimentos e gestos de alguém tão fotografado e filmado como ele. O que sua figura diz são palavras de sua própria verve, retiradas de várias fontes e colocadas na voz de um autor que imita perfeitamente a sua, inclusive o sotaque em inglês, além de mimetizar também a postura e modo de falar como se fosse ele mesmo, revivido. Aliás, esta é uma das frases que Dalí diz: “Nunca acreditei que morreria”.

Sem dúvida, a técnica é extraordinária mas, no fundo, não achei tanta graça. Ressuscitar alguém assim, torná-lo tão fakemente real, para quê? Brincadeirinha cara e que logo perde o sabor, pensei.

O segundo momento, no entanto, veio me mostrar que as possibilidades desse tipo de recriação de uma pessoa passa longe de simples brincadeira. Foi quando li em uma reportagem como esses vídeos – conhecidos como “deep fake” – estão aterrorizando muita gente. Imaginem como é imenso o potencial para o mal de uma tecnologia que recria as expressões físicas – não só faciais –, maneirismos, voz, postura de uma pessoa.

Inúmeras experiências vêm sendo feitas. Vídeos de Barack Obama, Mark Zuckerberg, Donald Trump já foram montados com essa tecnologia, como se eles estivessem falando, em outro momento, o já haviam falado. Até aí, tudo bem. Mas quando – e não falo “se” porque aqui o caso é mesmo de “quando” – resolverem colocar na boca deles o que jamais disseram? Quando, nas próximas eleições, colocarem um candidato falando o que não disse? Quando não só escutarmos mas vermos com nossos próprios olhos um político – ou qualquer outra pessoa, mesmo alguém de nossa família, mesmo alguém conhecido e já falecido – dizendo ou fazendo o que nunca fez ou falou? Como não acreditar, se estaremos não só ouvindo como vendo?

E quando isso começar a acontecer não só pessoas famosas mas com qualquer um de nós, bastando para isso que aquele que dominar a técnica (a cada ano, mais terrivelmente autêntica e barata) tenha em mãos fotos e filmes e falas nossas?

Você acha impossível que isso aconteça? Talvez. Gostaria de crer nessa impossibilidade. Mas o que anda acontecendo neste país e alhures vem me obrigando a fazer contorcionismos mentais cotidianos para preservar o otimismo que sempre prezei em minha pessoa. Chego a pensar em me encerrar em minha “bolha pessoal” e viver “sem radio e sem notícias da gente civilizada”. Só que aí a coisa ficaria brava. Eu não seria mais esta pessoa que vos fala.

Crônica publicada em “O Popular” em 17/07/19

Caso queira ver os vídeos, aí estão eles:

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Sexta de crônicas: Riso Amarelo


Para minha amiga Herta

Não sou de conversar com motoristas de táxi. Só em dias de humor, e esse era um senhor simpático. Perguntei como iam as coisas, escutei a resposta: “Tá ruim, mas vai melhorar.”
– Por que o senhor acha que vai melhorar?
– Por causa do governo, não é?
– O senhor está gostando do que eles estão fazendo?
– Sim…
– Então o senhor é a favor de armar todo mundo que estiver a fim de ter uma arma?
– Não, isso não, só vai aumentar o número de mortos. Ontem mesmo, um amigo motorista foi assaltado. Logo ele que é um cara arretado, se tivesse armado, iam morrer os dois.
– E a favor de expulsar os indígenas de suas terras e deixar desmatar a Amazônia, o senhor é?
– Isso também não. Deixa eles lá, a terra é deles desde que o Brasil é Brasil. E a Amazônia, num é nossa? A gente que passa o dia rodando sabe o quanto poluição mata. As árvores é que ajudam a limpar. É um respiradouro da terra, por assim dizer. Acabar com as árvores acaba com a gente.
– E vender pros estrangeiros as partes da Petrobrás que dão mais lucro?
– Aí a moça me pegou. Não entendo disso, só sei que muita gente meteu a mão aí. Mas será que os americanos vão pagar bem? Penso que vamos ficar é lambendo os beiços.
– E como! O senhor tem reparado como aumentou a miséria pela rua?
– Ôpa, nem fale! É família inteira dormindo na rua, moça, dá muita pena. Minha mulher chega a chorar quando vê nenê dormindo em papelão. É o que falo para os meus filhos, vocês têm que estudar pra não morar debaixo dos viadutos.
– Mas o presidente agora quer privatizar as universidades públicas, justo as melhores que temos.
– Deus me livre! Ano passado, minha filha entrou na USP Leste, eu num ia dar conta de pagar a faculdade. Tenho três filhos. Se não for ensino público, tamo lascado. Pagar pra três, já viu.
– E o salário dos professores? Estão cortando até verba para o ensino fundamental que é obrigatório o governo oferecer a todas as crianças do país.
– Fala isso não. Dar boa escola pras crianças é obrigação. Sem isso, cadê futuro? E salário de professor é mesmo mixaria. Foi o caso do meu sobrinho que era professor dos bons, a meninada doida por ele, mas teve que passar pro Uber pra dar conta da família.
– E agora a bobagem de oferecer aos japoneses como bijuteria o nióbio, riqueza nossa, matéria prima preciosa para a indústria moderna?
– Desculpa, nem sei direito o que é esse nióbio.
-Não importa. Mas com tudo isso, o senhor acha mesmo que as coisas vão melhorar?
Rimos os dois. O dele, riso amarelo.
Paguei minha corrida, disse bom dia, e fomos cada um para o seu lado.

Crônica publicada em O Popular em 04/07/2019

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Nostalgías

“Desde mi triste soledad, veo caer la rosa muerta de mi juventud” canta a voz torturada de Diego El Cigala.
Belíssimo.

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