Sexta de crônicas: No Goiás ou em Goiás?

A primeira vez que escutei falar o famigerado “no Goiás” foi em conversa com minha nora, venezuelana que recém havia mudado para Pirenópolis. Ela falava de maneira irônica, mas afetiva. Estranhei aquele jeito de falar e lhe disse que estava errado, ninguém falava assim. Mas ela e minha neta continuaram falando “no Goiás”, da mesma maneira irônica e afetiva. Tudo bem. Sem problemas aí.

Mas o que nelas, para mim, foi novidade e quase uma graça, passei a ouvir falado por muita gente em diversas situações, mesmo goianos de raiz. Eu não sabia ao certo se falavam de brincadeira debochada, ou se falavam a sério. E o modismo foi se espalhando. Chegou até a fazer parte de uma conversa de família, onde chegamos à conclusão que estava errado, sim, mas não sabíamos exatamente por quê.

Se falamos no Rio de Janeiro, no Maranhão, no Espirito Santo, por que não falamos no Goiás?

Fui ao Google e achei a resposta com o Prof. Carlos André, no programa de rádio da CNN, “Na Ponta da Língua”. Ele é quem explica que na língua portuguesa, por razões lá dela, os topônimos não admitem o artigo definido. Mas, como é também uma questão da sócio linguística, pode acontecer que pessoas de um determinado lugar usem, durante séculos, o artigo como algo afetivo, caso em que, então, ele passa a ser admitido. É o que acontece com o Ceará, a Rondônia, o Amazonas, por exemplo. Mas não “o Portugal”. E não “o Goiás’’.

Goiás, como São Paulo, Brasília, Rondônia, e outros mais, são topônimos que obedecem à regra geral e não aceitam artigo. Nossa língua, “última flor do Lácio, inculta e bela” é a dona de seus caprichos. Nela, há esses nomes que não aceitam artigo, e estão muito bem assim. Não aceitam artigos a não ser quando determinados, isto é, seguidos por uma qualificação, tipo “no amado Goiás”. Está certo quando falamos “no Goiás de antigamente” ou “no Goiás das moças bonitas” ou “no Goiás do agronegócio”, e por aí vai. Mas está errado quando alguns falam “Vou pro Goiás”, sou “do Goiás”. E quando dizem “O Goiás ajudou a eleger Bolsonaro”, ainda que correta no que afirma, ai! de nós!

Essa nossa língua portuguesa é danada de difícil e dada a caprichos assim, com suas regras cheias de exceções. Felizmente, é bonita demais também, o que conforta um pouco as dificuldades. Dizer “em Goiás” soa infinitamente mais adequado a nossos ouvidos, não concordam? Um dia chegará que em Goiás só elegeremos quem merece: não seria maravilhoso?

E, sim, esta crônica é bem curtinha pois é só uma resposta que encontrei e resolvi repassar para vocês porque acredito que possa interessar. Então, já me despeço.

Sim? Você disse alguma coisa?

Obrigado.

Ora, não há de quê.

(Crônica publicada em “O Popular”, 14/01/21)

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Mais sobre Paulicéia de Mil Dentes

Muitas pessoas me pediram para colocar uma sinopse do romance.

Aqui vai:

(Uma das fotos que ilustram o livro, do meu fotógrafo favorito, Zé Gabriel Lindoso)

“Pauliceia de Mil Dentes” é um romance sobre a São Paulo de hoje. 

A ficção atual tem retratado mais o lado marginal e caótico dessa que é a sexta maior cidade do mundo, mas este – que é o sexto romance de Maria José Silveira – não se limita a isso. Seus personagens trabalham, amam, se alegram e entrelaçam suas complexas histórias no gigantesco painel que compõe a megalópole amada por uns, odiada por outros, com seus mundos diferentes que se interconectam em diversos momentos: no trabalho, nas ruas, no lazer, na cultura, no amor.

O romance se estrutura em torno de uma invasão a um famoso escritório de advocacia por um jovem de família tradicional paulista, que faz duas reféns: a ex-namorada que o rejeitou, e a faxineira da firma.

A partir desse fulcro – do que acontece antes, durante e depois – os principais personagens que se interconectam são:

Um estilista muito bem-sucedido, com uma concepção inovadora da moda e sua indústria.

Sua esposa, que trabalha na firma de advocacia invadida. Ela é advogada de uma cantora transexual que, feita sua mudança de sexo, deseja mudar sua carteira de identidade.

O motorista de uma van escolar, irmão da cantora transexual, é namorado da dona de um salão da Mooca cuja filha – que é a jovem refém no escritório de advocacia – namora o motoboy do mesmo escritório, rebelde e apaixonado. 

A mãe do motoboy é guardadora de carros e vendedora de uma banca de lanches na região da Paulista. Moram na periferia e são vizinhos da faxineira do escritório de advocacia, que tem duas irmãs – uma vendedora de perfumes, a outra desempregada.

Uma dessas irmãs funda a Igreja da Permissão Divina, com um pastor que já foi ladrão e preso.

O pai do jovem invasor é industrial, sua mãe socialite, e sua tia uma arquiteta frustrada que se esforça por achar um caminho. O jovem é também amigo de um diretor de teatro, filho do amante de sua avó viúva e multimilionária.

O romance é construído com vários tipos de linguagem e vozes.  A jovem refém, no entanto – de certa forma a protagonista do livro – é a única que não tem voz.  Sua personalidade é criada através dos olhares dos outros envolvidos em sua história.

Os capítulos são intercalados por cenas com personagens secundários que se conectam aos principais e mostram diferentes tipos de vida e dramas que se encontram e se afastam nas pulsões e movimentos da megalópole.

Um romance tenso, denso, mostrando a diversidade e a vitalidade que sustentam a São Paulo de hoje.

Com ele, a autora que ganhou o Prêmio APCA Revelação em 2002, com seu primeiro romance, completou 10 anos de carreira.

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DAS VICISSITUDES DE UM LIVRO

Este meu romance, PAULICÉIA DE MIL DENTES, foi publicado pelo grande Jiro Takahashi, então editor da Prumo, um braço da Editora Rocco em São Paulo.

É um romance em que a cidade de São Paulo é a grande personagem. Por isso mesmo, é também um “romance de multidão” – como o definiu a doutoranda Silvanna Oliveira, com vários protagonistas e personagens secundários que transmitem o burburinho incessante da megalópole

Com uma linda edição, uma bela orelha do Ítalo Moriconi – que o chamou de “romance rizomático” – recebeu excelentes críticas nos jornais, foi semifinalista do Prêmio Portugal-Telecom (hoje OCEANOS), etc. etc. e, no entanto, foi parco de vendas. O que teria acontecido?

Minha explicação é que pouco depois de ter sido lançado, a Rocco fechou seu braço em São Paulo, e transferiu o acervo da Prumo para a Rocco. E o meu PAULICEIA DE MIL DENTES ficou órfão de pai; é isso que acontece quando o livro perde seu editor e cai na bacia das almas de uma grande editora. Hoje ele ainda está lá, esquecido no estoque da Rocco. Alguém topa tirá-lo de lá e levá-lo para sua casa?

Abaixo, vai um pequeno trecho:

“vai ser hoje cadela vai ser agora eu sei onde você está, sei perfeitamente, não fui eu que lhe arrumei esse emprego, não foi meu pai? era pra isso que você me queria maldita? tô vendo sua cara aproveitadora tô vendo seu cu tô enfiando meu dedo no seu cu meu canivete cadela tô vendo seu grito sua goela de mucosas sua língua roxa gritando, grita grita eu quero ver, quero ver como você é por dentro e vou te abrir como se abre uma coisa maldita uma coisa maligna um tumor na minha cabeça um cancro, uma bosta qualquer, coisa ruim, vou saber direitinho como te abrir e ver seu sangue saindo e me ensopando,  tô chegando cachorra, e vou te abrir como abro uma fruta, uma fruta branca sua pele branca amor sua pele de algodão macio, espuma do mar de Maresias, disso você gostava, não é? da espuma na sua pele, sua pele submersa na água verdeazul cabelo molhado, gosto de algas, e você me dizendo que estava tão feliz que o mar era sua casa, que um dia ia gostar de morar numa cidade que tivesse mar, era impossível pensar em São Paulo com praia não dava pra pensar em praiaspoluídas nas Marginais e praiaspoluídas na Pompéia e praiaspoluída na VilaPrudente não dava, e você ria só de imaginar e eu ria com você e seus dentinhos brancos mordendo o carmesim dessa bocadegueixa e você repetindo nãodá nãodá SãoPaulo é um mar de morros topograficamente falando, entende? você gosta de falar assim, topograficamente um mar de morros, tudo tãobonito naquele dia, sim, dá pra ver que essa cidade é um mar de morros ladeiras descendo vales subindo espigões, é isso que estou fazendo agora sem você, subindo e descendo esse mar de morros topograficamente doidamente planejadamente te matando milvezes enquanto subo e desço as ondas de asfalto e cimento atrás de você, vaca estúpida, como pode ter deixado de gostar do que gostava, como podedizerque não gostamais não quer mais, nãodápraaceitar, entende? você dizer NÃO Arturito, não!, como pode cachorra fingida? e agora você vai ver a espuma negra, bolha suja de sangue ensopando seu cabelo de alga imunda, seu corpo se decompondo, virando escamas, e vamos morar nós dois no mar, espumas brancas batendo e rebatendo na areia da praia onde agora você vai ficar, lá no fundo bem fundo onde vou te enterrar, amor, vou te enterrar no mar”

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Interpretação de sonhos

Esta noite sonhei que estava tomando a vacina. Meu braço doeu. Acordei. Estava dormindo de um jeito errado sobre o braço que doía.

Sinal de que a vacina se aproxima?

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O QUE DE BOM ESTE ANNUS HORRIBILIS NOS DEIXOU

Mais além do imenso luto pelas mais de 197.OOO mortes e 7,5 milhões de contaminados pelo vírus da Covid-19, e pelo desgoverno que nos fez retroceder para um passado mais desigual, odioso e temido, podemos tentar desbastar toda a miserável erva daninha deste ano para ver algumas coisas acontecendo dentro do caos.

Entre elas:

– A luta do movimento negro conseguiu um grande avanço. O racismo estrutural do país tem sido denunciado e combatido como nunca antes, com a certeza de que essa luta só vai parar quando o que ela denuncia acabar definitivamente.

– A luta dos indígenas se ampliou para fora dos limites anteriores. Começou-se a entender que é uma luta de todos nós, brasileiros. Que é fundamental pôr um fim nas injustiças e no desrespeito a que os relegamos por mais de 500 anos. Nomes como o de Aílton Krenak e Davi Kopenawa adquiriram um grande alcance e respeito como os sábios que são. Aílton Krenak ter ganho o Prêmio Juca Pato do ano, e David Kopenewa ter sido eleito para a Academia de Ciências provam esse avanço. Também a arte indígena recebeu uma primeira exposição na Pinacoteca de São Paulo e o nome do grande artista Jaider Esbell Macuxi deslumbrou muitos de nós. Sem falar dos muitos escritores indígenas, como Daniel Munduruku, Marcia Kambeba e Eliane Potiguara. É também uma luta que só vai encontrar a paz quando os povos originários forem reconhecidos com todos os seus direitos, sua cultura e seus saberes. 

– A luta contra a invisibilidade das mulheres foi outra que, apesar de tudo, deu um salto. O machismo e a misoginia encontraram um adversário de peso: a força unida das mulheres. Começou-se a ver com mais clareza as mulheres das ciências, das artes, das letras. Essa é também uma luta que só vai parar quando os feminicídios acabarem e as mulheres forem tratadas como iguais em todo e qualquer campo da vida humana. 

– Com tudo isso, uma consciência fundamental se ampliou: a consciência de que a humanidade não manda na natureza. Somos apenas uma espécie ao lado de todas as outras e essa certeza está na ordem do dia. Se não fizermos algo radical a esse respeito, o pretenso mundo “nosso” se esfarelará a nossa frente.

– As redes sociais adquiriram papel surpreendentes com suas “lives”, abrindo conhecimento, música e saberes para além de suas intenções iniciais. Minha aposta é que elas permanecerão nos anos vindouros, com seu potencial extraordinário de unir vozes de vários cantos e levá-las a muitos outros. Benditas “lives” que nos proporcionaram tanto no isolamento social a que nos obrigou a pandemia. Sem elas, teríamos sofrido mais.

Por esses movimentos é que deixo aqui meu voto de confiança no ano que começa. Ademais da chegada da vacina, alegremo-nos com as possibilidades que se colocam na luta contra o despontar do amaldiçoado fascismo. Somos muitos, estamos do lado de um mundo justo, mais dia menos dia, teremos um futuro melhor.

(Crônica publicada em O Popular, hoje, 31 de dezembro de 2020)

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Conto de Natal

Volto a postar um conto que tenho postado aqui faz alguns anos, porque é o máximo que posso dizer sobre esse momento inescapável na vida de todos. Ele foi escrito para um Suplemento Especial de Natal, do Jornal O Popular. Quando? Acho que em 2011.

Meu “Pinheiro Branco”

Felicidade, minha filha: vou lhe contar uma história. Uma história sua, menina, de quando você nasceu e recebeu esse nome tão diferente de seus irmãos.

O primeiro que nasceu ia receber o nome de Augusto, mas era 25 de dezembro e sua mãe declarou, daquele jeito que tem pra falar comigo, revirando qualquer palavra pra torná-la um carinho: “Se nosso nenê escolheu esse dia pra nascer, por algo será, meu Estrupício. Vamos lhe dar o nome de Natal.” Com os segundos, Natália e Natércio, foi a mesma coisa. Nascidos no dia 25 de dezembro, dois exatos anos depois. “Quer dia mais bonito pros nossos gêmeos nascer, meu Ypsílon!?” Não sei como sua mãe contava suas datas mas não errava: de dois em dois anos, na noite de 24 de dezembro, lá íamos nós pra maternidade e o bebê nascia na manhã seguinte, de parto natural. Dessa vez, até que achei bonito quando ela disse: “Natalino e Natália, nosso parzinho de filhotes, meu Enxame de Abelhas!”

Dois anos depois, Noel; outros dois, Noélia. Quando eu lhe dizia que nem parecia a mesma mulher que vivia com seus “meu Nucumpativo”, “meu Diabinho a Quatro”, “meu Martelo dos Deuses”, meu qualquer coisa que lhe ocorresse pra me chamar. Na hora de dar nome aos filhos, sua imaginação parecia colapsar. Ela sorria, “O que posso fazer, meu Armário Embutido?” E embora jurasse que não era de propósito, dava esse jeito de parir sempre no mesmo dia. Anos a fio.

Quando veio o Natalício, pensei em rebelião. Mas ela quase morreu daquela vez, e de olhinhos febris, pediu, “É minha última vontade, meu Colapso Nervoso.” E ficou Natalício. Dois anos depois, Natércio. A essa altura, eu já estava como que enfeitiçado, pedindo ao médico que me explicasse como é que ela estabelecia a data do nascimento dos filhos só pra lhes dar esses nomes, e ele ria. “Coincidência pura”, dizia. Pois sim.

No sétimo, achei que ela não conseguiria. Mas conseguiu, e lá fui eu acabrunhado registrar Natividade. A essa altura, eu já havia esmorecido e daria qualquer nome que ela quisesse. Bastava que me chamasse de “meu Terreno Baldio’, “meu Lusco-fusco”, “meu Milharal”, que eu fazia o que ela pedisse.

Então, veio a oitava gravidez, a sua. Outra vez ela passou mal e o médico avisou, “Vamos ter que ligar essas trompas.” Deu uma piscadela pra mim, “O senhor não terá mais esses natalícios em casa.” E foi então que, vendo sua carreira de natais na maternidade se encerrar ali, ela me disse, “Está bem, meu Sapatinho na Janela, dessa vez escolha você o nome.”

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Um Natal do tamanho possível

Felipe e eu sempre fomos passar a Festa de Natal com meus pais ou com os pais dele. Isso, depois que tivemos filhos. Antes, quando nos casamos, nem sei como era: época da luta contra a ditadura, acho que tomávamos um vinho, alguma coisinha assim, com algum companheiro que porventura estivesse em nosso apê/aparelho. Nenhum Natal dessa época ficou na lembrança. No exílio, os Natais eram com os amigos e eram bons. Fazíamos o que podíamos e nos divertíamos bastante. Lembro-me bem deles.

Mas só quando criança, e depois com meus filhos crianças, é que era minha festa preferida, quando era assim, reunião com os pais, irmãos e a filharada de todos. Nos divertíamos bastante.

Depois, com nossos netos, Felipe vestia de Papai Noel, e era muito divertido também. Mas neste ano de pandemia, longe dos netos e dos irmãos, seremos só nós dois. Vamos tomar um vinhozinho e comer sanduíches de pastrami de uma déli aqui perto de casa. Para o almoço de amanhã, um bacalhauzinho. E tá de ótimo tamanho.

Para todos os que passarem por aqui, um Natal também de um ótimo tamanho para cada um e cada qual, como for possível.

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Meu conterrâneo, o grande Bernardo Élis

Nesses últimos meses (espero!) de quarentena, ando mergulhada na obra do goiano Bernardo Élis. Claro que eu li livros dele na adolescência, mas não tinha me ficado a noção verdadeira de sua grandeza. Agora ficou. É um maravilhamento re-descobrir seus contos, seus romances, sua linguagem, seu ritmo.

Como, em poucas linhas, ele descreve uma paisagem, francamente! Lindeza pura! E suas histórias sobre o nosso cerrado, ação, linguajar, vida cotidiana do goiano de raiz, coisa de deslumbrar!

Não acredito em minha cegueira por não tê-lo colocado desde sempre em meu panteão particular. Mas antes tarde do que nunca. Agora, sim, ele está lá.

Como está aí embaixo, todo elegante, com seu fardão da Academia Brasileira de Letras.

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QUEM EXPLICA O INEXPLICÁVEL?

 As imagens de satélite do Google Earth descobriram que as vacas, quando comem ou descansam, sempre se voltam para o sul e norte. Podem reparar. É um padrão que se mantém, e nenhum cientista se debruçou sobre isso para explicar o motivo. Ainda bem: tem coisas muito mais importantes que merecem o debruçar da ciência. Deixem em paz nossas vaquinhas! Que elas continuem virando suas cabecinhas para o lado que quiserem, se com isso estão felizes.

Outra: além dos homens, uma formiga argentina é a única espécie que colonizou três continentes: América do Sul, Ásia, Europa. Elas têm a mesma característica genética e são hospitaleiras com seus parentes, mas agressivas com as outras espécies. Têm uma estrutura social intricadíssima que os cientistas ainda não entenderam completamente. Talvez os argentinos as entendam.

Outra: as plantas naturalmente contêm alcaloides, entre eles a morfina, muito eficaz no tratamento da dor. Mas a ciência ainda não sabe por que a morfina está, digamos, na papoula. Acreditava-se que ela afastaria os predadores, o que não se comprovou. Mas pode até ser. A dor não é A Predadora Número 1 ?

E essa: quase todos os seres vivos do planeta Terra se reproduzem sem sexo. Por que, então, a espécie humana – como algumas outras poucas espécies – se deu ao trabalho de inventar diferenças complementares entre machos e fêmeas, e precisam do sexo para se reproduzir? Por esperteza? Pode ser. Mas a ciência ainda não deu sua palavra final sobre o motivo pelo qual despenderam tanto esforço na evolução para desenvolver um mecanismo que não tem vantagem visível sobre a reprodução assexuada. Podemos agradecer a nossos ancestrais que se esforçaram tanto para nos deixar esse legado, mas continuamos sem saber. Aliás, será que alguém quer mesmo saber?

Agora, a pior de todas.

No dia 8 de dezembro, uma velhinha de 90 anos recebeu a primeira a vacina contra o Covid-19 no Reino Unido. Ela, que viu a Segunda Guerra, sorria, toda vestidinha de azul, enquanto todos em volta aplaudiam, felizes, celebrando o dia da vitória nessa outra guerra.

Nesse mesmo dia, no entanto, 8 de dezembro de 2020, o Brasil, com 178.000 mortos, e o vírus avançando em nova onda, o que vimos aqui foi a inauguração imensuravelmente ridícula de uma vitrine de roupas usadas na posse do despresidente e sua mulher.

Somos um dos países mais atrasados nessa guerra contra o Covid-19 quando, a rigor, nada nos impediria de estar, ao contrário, entre os primeiros.  O que explica isso?

Essa é fácil, até eu sei: o negacionismo e a pura incompetência da necropolítica desse desgoverno que parece dizer, Que morram todos, bando de maricas!

Portanto, quem encontrar essa “gripezinha” pela frente do dia 8 de dezembro em diante, pode culpar quem bem merece a culpa.

Permitam-me aqui, mais uma vez, a exclamação cotidiana: Que Brasil virou este nosso!

(Crônica publicada em “O Popular”, 17/12/2020)

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VIDAS PRETAS IMPORTAM

( Escrevi esta crônica para minha coluna quinzenal em “O Popular” mas. por um engano, ela não foi publicada. Ia deixá-la para ser publicada na próxima semana, mas crônica, esse gênero muito ligado ao dia dia a dia, pode acabar soterrada pela avalanche de indignações que nos avassalam a cada momento. Publico-a, então, aqui.)

Mais um crime infame aconteceu no Rio de Janeiro, poucos dias atrás. A morte de Emily e Rebecca, duas crianças negras que brincavam na porta de casa.

Outro crime infame foi o ocorrido porta do Carrefour de Porto Alegre, dias atrás. O assassinato de João Alberto Silveira de Freitas, massacrado por dois seguranças durante cinco minutos, enquanto sua mulher gritava que o soltassem e era impedida de ser aproximar. Ele tinha 40 anos, era pintor e pedreiro. Não fosse negro, não teria morrido. Não fosse negro, estaria hoje com sua mulher e quatro filhos, talvez começando a pensar nas festas do final deste nefasto ano de 2020. Não fosse negro, não seria mais um a figurar na estatística dos 75% de negros ou pardos entre os assassinatos de todos os dias neste país.

Não posso deixar de afirmar aqui minha indignação contra seguranças e policiais que são treinados para matar como se fossem psicopatas profissionais a solto na cidade. Contra a rede dos hipermercados CARREFOUR que já tem um conhecido histórico de violência racial e de classe – e tudo ficar por isso mesmo. Contra as balas perdidas ou intencionais que matam nossas crianças, como se elas fossem cães indo para a escola, ou na porta, ou dentro de suas próprias casas. Contra os policiais que, no carro de polícia arrastaram Claudia Ferreira por mais de 300 metros, no Rio. Contra tudo e todos que indicam o elevador de serviço para as pessoas pretas.

Não posso deixar de me indignar contra os que insistem em negar o racismo estrutural que, desde a escravidão, ficou entranhado na sociedade e seus baluartes. Entranhado e herdado pelo pensamento negacionista que, diante de tantos fatos provados, comprovados, vivenciados, não se envergonham em afirmar que a terra é plana, a ciência é desprezível, não somos um país racista. Com suas massas de cimento em lugar dos miolos, negam com ênfase, vendas nos olhos e voz clara que o racismo de carne e osso não existe, pois não somos miscigenados?

Sim, miscinegados somos, mas não e jamais igualitários. 

Por tudo isso, não há como deixar de acrescentar minha voz indignada às vozes dos que gritam: Vidas Pretas Importam.

Quisera eu poder fazer aqui a lista impossível de ser feita, com todos os negros pobres assassinados recentemente neste país. Queria saber seus nomes e suas histórias. Queria, na minha impotência e revolta, saber se eram pais, mães, filhos, irmãos, parentes.

 João Alberto morreu por asfixia. Não respirava e pedia ar, como George Floyd, cujo assassinato provocou nos Estados Unidos um tsunami de manifestações encabeçadas pelo movimento negro. Que acabou contribuindo para a derrota do nefasto Trump.

Aqui, até agora quando escrevo, houve também manifestações do movimento negro nas grandes metrópoles. A Av. Paulista amanheceu ostentando as letras garrafais da frase VIDAS PRETAS IMPORTAM.

E se também aqui provocassem um tsunami parecido?

Capaz de arrastar o despresidente e sua turma de ministros e autoridades que negam o racismo e que, por tudo que fizeram desde o começo, abriram as porteiras do ódio e do escárnio, trazendo à tona o pior que existe entre nós, brasileiros. 

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