Sexta de Crônicas: Isso aconteceu na semana passada, não em 1500

A menina de 12 anos tinha cabelos, olhos pretos, e a graça natural do despontar da adolescência. Uma adolescente como qualquer outra que certamente olha o mundo com a confiança de quem tem todo o futuro pela frente, porque esse é o natural da vida nessa idade: o curto passado atrás, o presente sendo vivido, e um largo futuro à espera de sua chegada. 

Só que ela não chegou. Era uma adolescente Yanomami.

            Foi sequestrada, estuprada e assassinada no presente desumano que a pegou.

            Junto com ela, uma criança de quatro anos foi também sequestrada e atirada no rio Uraricoera. E uma outra mulher, que também jogada no rio, conseguiu nadar e sobreviver.

            Os garimpeiros atacaram quando os homens tinham saído para caçar e a maioria das mulheres estava na roça. Chegaram de surpresa, e levaram as três para o acampamento de um garimpo ilegal de ouro. Lá, violentaram e mataram a adolescente.  

            Esse ataque foi apenas um dos muitos perpetrados por garimpeiros ilegais que têm invadido sem tréguas o Território Yanomami e provocado toda uma série de massacres, atentados e abusos. Transformaram em inferno a vida dos indígenas nessa região que é deles e que, por lei, deveria estar protegida contra esses crimes inqualificáveis.

A gravidade desse caso forçou a ministra Carmen Lucia, do Supremo Tribunal Federal, a afirmar durante uma sessão na mesma semana: “As mulheres indígenas são massacradas sem que a sociedade e o Estado tomem as providências eficientes para que se chegue à era dos direitos humanos para todos, não como privilégio de parte da sociedade. Não é mais pensável qualquer espécie de parcimônia, tolerância, atraso ou omissão à prática de crimes tão cruéis e gravíssimos”.

É doloroso e assustador saber que esses ataques vêm acontecendo, e de forma, crescente desde 2021, como resultado da maneira como esse desgoverno tem tratado a questão indígena e o garimpo ilegal. A estimativa é de mais de 20.000 garimpeiros ilegais escavando ouro no território de 360 comunidades e cerca de 30.000 yanomami.

Querem que retrocedamos aos anos de colonização do país, quando os indígenas que nasceram e viviam aqui foram expulsos de suas terras e afugentados para regiões cada vez mais distantes. Querem impor a lei do “marco temporal”, defendida sobretudo por ruralistas, mineradores e garimpeiros, que dispõe: os indígenas só teriam direito à terra que estivesse sob sua posse no dia 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição Federal. Lei perversa que, na prática, faria boa parte das etnias indígenas, antes expulsas, perdessem os direitos originários a seus territórios.    

Se nós, da cidade, parássemos para pensar que tivemos mais de 500 anos para entender o mal que causamos aos que estavam neste país muito antes de nós, chacinando-os, afugentando-os, desprezando-os, esquecendo que eles foram os primeiros donos desta terra, e as mulheres indígenas nossas primeiras mães, será que não ficaríamos indignados e não teríamos vergonha de nossa indiferença ao ver esses descalabros sendo cometidos até hoje?

Eu fico e tenho.

(Publicado em O Popular em 5 de maio de 2022)

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Sexta de crônicas: PREPARANDO UM NOVO ROMANCE

Quero contar a vocês: o romance que comecei a escrever na pandemia e ainda estou escrevendo é sobre Goiás. Mais especificamente, sobre o cerrado. Mais especificamente ainda, sobre as águas do cerrado.

Tudo começou com os alertas de uma das maiores autoridades sobre o tema, o cientista e pesquisador, Altair Salles: nosso cerrado está morrendo, ele disse. Chegou mesmo a afirmar, taxativo porque muito bem fundamentado em pesquisas, nosso cerrado já morreu. E com ele, as nossas águas. Nossas abundantes, límpidas, milenares águas.

É de uma tristeza tão terrível essa constatação, tão condenatória de nossos passos como goianos, nós que nos apossamos deste que é o mais antigo bioma do planeta, com suas árvores retorcidas cujas raízes se aprofundam dentro da terra e alimentam os lençóis freáticos que alimentam os aquíferos que, por sua vez, alimentarão boa parte das águas do país. Sim, as águas do país. Somos parte importante dos responsáveis por elas.  E o que fazemos? Eis questão.

O protagonista do meu romance é Zé Minino que, mal começando a adolescência, se junta à Coluna Prestes quando ela passa por Goiás, e a acompanha até onde é possível. Na Coluna, ele encontra Maria Branca, mocinha fugida de uma fazenda. Por circunstâncias que não vem ao caso contar aqui, os dois passam um tempo na Fazenda Mossoró, onde impera Santa Dica e sua Coorte de Anjos. Só depois, eles voltam para a pequena terra que era dos pais de Zé Minino.

Meu protagonista tem o dom de farejar água. E não digam que isso é impossível. Para Zé Minino, vocês verão, não é.

Enquanto os filhos nascem, Zé vai rasgar as estradas da Marcha para o Oeste, abrindo terras devolutas de Goiás para migrantes de várias procedências. Também participa da revolta dos posseiros de Trombas e Formoso. E um pouco depois, vai trabalhar na construção da Nova Capital.

Sempre que volta a sua terra, constata como as boiadas crescem, pisoteando nascentes.

Os filhos vão tomando cada um seu rumo e vem a ditadura civil- militar. Logo, é a vez da chegada da soja, com seus variados problemas, e o agro adquire a força que tem hoje.

Zé Minino e Maria Branca envelhecem junto às nascentes que secam, os rios que se enchem de imundície e dejetos tóxicos, as preocupações que aumentam.

O romance ainda não está pronto, mas já tenho em mãos o que chamo, imitando o cinema, de “copião”. É um bom momento da escrita de um livro porque sabemos que a parte fundamental do que desejamos está ali, não vai mais fugir. O romance está com sua estrutura feita, forma e linguagem definidos, personagens já com sua vida e características enquanto o tempo se desdobra em acontecimentos e emoções, e as cenas se entrelaçam uma à outras. É hora de ler, reler e treler o que foi escrito, burilar a linguagem, fazer cortes ou acrescentar o que estiver faltando. É o momento que mais amo do meu trabalho por que a partir daí, ele só pode melhorar.

Se tudo der certo, será publicado em 2023

(Publicado no Jornal O Popular, em 24/03/2022)

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SAUDADE DAS RUAS

                                                             

Seis horas, e o calor está intacto. Se tem um momento em que São Paulo fica ardida e seca é quando resolve – ou melhor, resolvem por ela – esticar ao máximo as ondas de calor. Mas, desculpa, não vou falar disso. Nem vou falar da guerra absurda, nem da Ucrânia, muito menos de Putín, de Biden, da OTAN, nem do cancelamento insano de artistas e atletas russos pelos EUA e países da Europa, como a Itália cancelando seminários sobre Dostóievski e a Metropolitan Ópera House de Nova York cancelando a soprano Anna Netrebko, menos ainda das motociatas do “vocês sabem quem” ilegalmente já em plena campanha, nem do seu comparsa Arthur do Vale (o abjeto Mamãe Falei) que foi à fronteira da Ucrânia para se gabar da ucranianas, “verdadeira deusas, fáceis porque são pobres”. Não vou falar sobre nada disso porque é só abrir o jornal para ver que a terra parece em transe, como bem definiu Glauber Rocha, tempos atrás.  

                Hoje, mais uma vez, não estou em condições de entrar nessa realidade de insanidades que nos envolve com seus grudentos dedos midiáticos.  

                Sabem o que anda me faltando? As ruas. Tudo indica que a Ômicron está diminuindo, mas ainda é preciso cautela. E de minha parte, continuo evitando caminhar pelas ruas, justo onde melhor se vê as fatias do mundo para daí escrever as linhas mais afeitas a uma crônica. A morte de uma velha árvore, por exemplo, derrubada pelo temporal recente. Quase duzentas árvores mediram forças com as chuvas fortes que têm assolado São Paulo nesses últimos dias. Uma curta mas dolorosa guerra travada na natureza. Ventos irados contra antigas e belas árvores que por anos vinham embelezando ruas desta cidade construída a partir de sossegados vales e chácaras que ainda mantêm, em lugares privilegiados, lembranças encantadoras daquele tempo. Por incrível que possa parecer a alguns, São Paulo é uma cidade com belas árvores em seus bairros mais agradáveis, onde não é raro encontrar bananeiras, jabuticabeiras, amoreiras nos quintais (nesta cidade-vertical, ainda existem esses pequenos respiradouros que lhe dão uma graça inesperada no meio do concreto e do cimento).

                Nas ruas, no entanto, o que mais vemos são as pessoas e a riqueza de sua diversidade. É isso o que mais gosto. É disso o que sinto mais falta nessa pandemia. Caminhar junto com pessoas de todo tipo, origem, classe, gênero, inclinação sexual, vestimenta, manias, loucurinhas; é o mundo que passa todo dia por uma avenida como a Paulista. Um retrato da cidade em seu cotidiano, com seus participantes vindos dos centros, das periferias, de outras cidades, estados e países, moradores, refugiados, turistas, executivos, trabalhadores, ricos, pobres, sem-teto – cada vez mais sem-teto –, no movimento incessante da megalópole, o redemoinho. No meu romance, “Paulicéia de mil dentes”, foi isso que procurei mostrar: um romance que me deu muito contentamento em escrever, ainda que seu núcleo não seja o de uma história alegre.

                Por tudo isso é que torço para logo voltar a caminhar pelas ruas do meu bairro.

Para depois contar para vocês.

(Crônica publicada em O Popular, em 10/03/2022)

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Sexta de crônicas: Teve festa e eu não fui

Para Lucia

                Minha irmã fez 80 anos. A ameaça da Ômicron em aeroportos e aviões não me deixou ir para lhe dar meu abraço de irmã feliz em comemorar sua vida. Senti muito. A data é tão significativa, e adoro reuniões de família. 

                Escrevi “a data é tão significativa” e fiquei aqui pensando sobre isso. Todo aniversário comemorado é significativo, mas à medida que envelhecemos, as datas redondas, por algum motivo inexplicável, tornam-se especiais. São celebrações de uma vida, com os altos e baixos que toda vida tem, e um grande momento de alegria por ser exatamente isso, celebrações, e poder ser também, e ao mesmo tempo, uma porta se abrindo para uma boa caminhada até os cem, cento e poucos anos, idade que hoje se tornou uma conquista possível de nossa irrefreável humanidade. Desde que se mantenha a lucidez, sine qua tudo isso seria vão.

                É curioso mas creio que só agora, tempo em que também envelheço, é que entendo completamente a ideia dos parabéns oferecidos, com palmas, a cada aniversário que fazemos. Não é fácil superar os obstáculos que o mundo vai colocando a nossa frente. É preciso força. Coragem. Sorte. Talvez não tenha mesmo outro momento tão merecedor de parabéns.

                No aniversário de oitenta anos de minha mãe, recordo seu sorriso de corpo inteiro – como, aliás, era como ela sorria – ao nos agradecer pela festa e pelas oitenta cestas básicas para os pobres de sua paróquia, o presente dos filhos, a seu pedido. O sorriso da minha irmã, vi quando me enviarem as fotos da festa que seus filhos organizaram em sua homenagem. Houve música (minha irmã é poeta e compositora, seus livros publicados e disco gravado são lindos); houve dança (minha irmã é quase um pé-de-valsa); houve a sua volta os seus cinco filhos, nove netos, genros e noras (foi uma mãe de enorme dedicação); houve a seu lado também os irmãos (menos, pesarosamente, eu); e houve primos e amigos. Todos vacinados e bem. Quer alegria maior?

                Penso também nos meus amigos que fizeram oitenta anos. Todos durante a pandemia. Mesmo assim, conseguiram escapulir para comemorar com a família. É tão natural isso. Tão necessário, esse encontro com os seus nesse momento.

No aniversário da minha mãe, não me ocorreu pensar se um dia chegaria, eu também, a completar oitenta anos. Era algo ainda distante; não estava na ordem dos meus pensamentos; era um futuro que não me cabia vislumbrar naquele momento. Já hoje, nos aniversários da minha irmã e dos meus amigos, penso, ainda que fugazmente: chegarei?

Espero que sim. Mas há um se aí. E este “se”, esta indeterminação do futuro, é outra coisa que o envelhecimento nos obriga a ver mais de perto. Não sempre. Não a toda hora. Mas em momentos como este. E só penso nisso, na verdade, porque não fui à festa. Se tivesse ido, estaria pensando apenas na beleza e alegria de se comemorar os oitenta anos bem vividos de uma irmã.    

(Crônica publicada em O Popular, em 24/02/2022)

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Sexta de crônicas: É Sábado

Olho pela janela e nada quero ver. Já morei em uma rua que o simples ato de abrir a janela me apresentava um cartão postal da cidade. Hoje, não. O cenário da minha janela mudou. Mesmo nesse novo cenário, no entanto, o mesmo céu de São Paulo está lá, os mesmo prédios dessa minha nova rua estão lá, a mesma imensa falsa seringueira está lá com seus galhos estupendos que chegam quase até a janela do meu quarto. Meus olhos também são os mesmos, mas hoje não querem ver nada disso. Hoje apenas veem minha rua em sua corriqueira insignificância. Até a amada falsa seringueira, hoje a vejo mais falsa do que de fato seringueira. E até acho bom que as janelas do apartamento em frente, onde mora Sebastião, meu amiguinho de três anos, que sempre acena ao me ver na minha janela e me manda um beijo com a palma aberta de sua pequena mão, hoje também estejam fechadas.

O que é isso?  Padecimentos da pandemia? Ou mera exaustão pelas notícias que nos envolvem em indignação cotidiana?

Exaustão, é minha resposta.

Sei que na Av. Paulista, neste momento, há uma manifestação de repulsa pelo linchamento abjeto de Moïse, o jovem congolês, um daqueles muitos jovens que atendem, na praia, aos clientes de uma determinada barraca. Um desses muitos jovens que fazem o mesmo trabalho em muitas praias deste país do sol. Um dos muitos congoleses que aqui chegaram, desde séculos atrás, para serem escravos, e continuam chegando agora para fugir da miséria e guerra do Congo, uma guerra que nunca termina, uma miséria que nunca termina, um país vítima de seus preciosos minerais que enriquecem apenas os larápios de sempre, e que hoje fogem para cá, acreditando que o nosso país agora os acolherá de braços abertos, nosso país de sol, nosso país de música, nosso país que dança, nosso país de muitas formas parecido com o deles.

Um país que nos últimos tempos, e muitas vezes, parece não existir mais. 

Moïse foi apenas um desses jovens assassinados com tacos de beisebol e chutes. Só neste mês, como se este mês tivesse sido designado para nos revelar, mais uma vez, a barbaridade em que estão nos enfiando, três outros jovens negros foram assassinados naquela mesma praia parasidíaca da Tijuca, hoje dominada pela milícia do Rio de Janeiro. Contradição infame: um lugar de paraíso para alguns, dominado por milicianos e transformado em inferno para outros.

A manifestação da Av. Paulista agora é por todas essas mortes. Não só a do jovem Moïse, mas a de todos os negros que morrem sem saber por que estão morrendo, e cedo demais.

Como foi que deixamos tudo isso acontecer?

Como foi que deixamos as milícias chegarem ao Planalto Central, o próprio coração do país?

São essas perguntas que me tomam nesta manhã de um sábado do ano de 2022. Algo está muito errado conosco. Algo que não podemos jamais aceitar com indiferença. Algo que deve estar em nossa mente ao apertar o botão da urna daqui a oito meses.

(Crônica publicada em O Popular, em 10/02/2022)

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Belezas fáceis

               Ontem de manhã, ao abrir a cortina da sala do meu apê, me deparei com um azul cristalino e forte que, por si só, já me alegraria. No alto do prédio mais alto e mais ao lado, no entanto – os prédios da minha rua têm no máximo 10 andares – no topo desse prédio, estavam parados, de costas para mim, dois operários de blusões vermelhos e calças escuras, olhando para alguma coisa do outro lado ou, quem sabe, apenas parados, olhando o céu. A composição fruto do acaso de uma manhã de trabalho era perfeita. O contraste das cores, vermelho forte contra o azul vívido do céu e duas ou três nuvens acima, ostentava sua calma beleza.

                Um quadro de Edward Hopper, pensei, com o realismo de suas composições e a crueza das cores da selva urbana. Devia ter fotografado, mas não o fiz. Me arrependo.

                No primeiro dia deste ano, na praia em que eu estava, um pôr do sol formidável e completamente rosado nos envolveu. Dessa vez, tenho fotos que compartilho logo abaixo.

                Essas belezas que o acaso nos faz desfrutar, por mais efêmeras que sejam, são magníficas. De certo modo, são belezas fáceis que nos custa apenas o olhar.

Quer dizer, nesse sentido parecem fáceis como as que nos são dadas gratuita e incessantemente pela natureza, mas as belezas que o acaso nos proporciona são mais raras e nem sempre percebidas.

É preciso que você esteja lá e que seus olhos se dirijam àquele único momento.

Só a magia do acaso é capaz dessa proeza. 

                Pois hoje de manhã, com expectativas, abri as cortinas e os trabalhadores estavam outra vez trabalhando no mesmo lugar.  Mas – ou o azul do céu estava menos radiante, ou os blusões dos operários mais desgastados, ou a posição de um estava mais pra lá ou mais pra cá – o fato é que a beleza da composição havia se perdido. Hopper não os pintaria assim.

                Também o céu róseo do por do sol do primeiro dia do ano. Já passei essa data naquela mesma praia e vi muitas vezes o sol se pondo com algum rosa naquele mesmo céu, no entanto jamais tão completamente assim. E ainda que eu ame ver um por do sol no mar, às vezes posso perdê-lo por estar distraída com outra coisa. Acontece. Se tivesse acontecido naquele dia, o encantamento estaria lá, meus olhos não.  Não haveria por do sol completamente róseo para mim.

                Reverencio o acaso tal como falo dele aqui. Não o procuro pois de nada adiantaria, já que ele depende de uma orquestração de elementos muito díspares que em nada dependem de nosso querer ou nosso controle. É da sua natureza ser raro, quase excepcional. Daí, talvez, sua beleza e magia.

                E mais não digo por que nem na filosofia, na matemática, na física e na química, há consenso sobre o que definiria o acaso. Deixemos a discussão de lado e fiquemos atentos ao que ele nos proporciona de encantos e belezas.

Nossa participação é que é fácil: apenas olhar e acolhê-lo.        

 

(Crônica publicada em O Popular, em 27.01.2022 – sem a foto)       

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Minha noite com Thiago de Mello

                              

Foi em um hospital. Em Lima. Thiago chegara ao Peru vindo, talvez não diretamente do Chile, mas com certeza depois do golpe pinochetista. Não sei ao certo quantos meses depois ele teve um enfarte grave e foi encaminhado ao hospital. Com um grupo de exilados amigos do poeta, como Felipe – também amazonense –, fui junto.

O pior já havia passado, mas ele precisaria ficar em repouso no hospital. Quem poderia passar a noite ao seu lado para tranquilizá-lo, evitando que se agitasse, levantasse da cama, caminhasse? Garantindo que ele dormisse e descansasse?

Coube a mim, com muita honra, ser sua acompanhante.    

Apesar das recomendações, Thiago estava acordadíssimo. Disse que não conseguiria dormir, mas que eu dormisse, que ele prometia não se levantar, e me chamar, caso precisasse.

Tampouco estou com sono – respondi -, e não vou deixar você acordado sozinho. De qualquer maneira, vou apagar a luz.

O quarto ficou na penumbra, iluminado apenas pela luz que vinha das frestas da porta e das persianas abaixadas da janela. Víamos perfeitamente um ao outro.    

Sentei-me a seu lado e começamos a conversar. Ele começou a recordar sua vida, sua Manaus, a meninice, a ida para o Rio de Janeiro, os momentos de juventude e de estudante de medicina, a militância.  Falou com amor do Chile que entrara em uma das fases mais tristes de sua história. Falou de suas poesias. Recitou trechos. E me fez confidências de sua vida pessoal que até hoje guardo como um túmulo.

Quis também saber de mim, e lhe contei de Goiás, de onde tinha vindo, de minha família, minha militância e do curso de madureza que havíamos aberto em um bairro proletário em São Paulo, onde eu dava aulas de português. Contei dos alunos operários, e de um velho, preto de cabelos grisalhos, que escrevia lindos textos poéticos. Creio que contei também da minha ideia de um dia mais à frente começar a escrever. Contei, com certeza, do curso de antropologia que estava fazendo.   

Mas era ele, sobretudo, quem falava e a quem eu queria escutar. Minha sensação, naquela penumbra, era de estar em uma espécie de irrealidade. Aquela conversa de noite inteira, com o grande poeta, só poderia ser parte de algum sonho.

Quando a luz do dia entrou pelas frestas, nos demos conta da chegada da manhã e brinquei que o médico me daria uma bronca ao perceber que ele não dormira. Ele riu, disse que estava se sentindo muito bem, e que o médico logo lhe daria alta.

Hoje penso naquela noite como um momento extraordinário de minha vida. Talvez eu devesse ter escrito o que ele disse para guardar claramente suas palavras e compartilhar esse tesouro que, suponho, está inscrito no meu hardcore entre as coisas boas que me aconteceram. Mas nada escrevi na época e hoje recordo muitíssimo menos do que gostaria. Mas não importa. Essa noite com o poeta foi um presente que a vida me deu.  

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O QUE VEREMOS

                         

Quem me conhece sabe que sou uma pessoa super-hiper-otimista. E, sempre, no final de um ano, penso que o outro será com certeza melhor.

Neste ano, no entanto, meu conhecido otimismo se recolheu, o que não chega a me surpreender: ainda teremos que enfrentar dez longos meses para que cheguem as eleições e, depois, ainda dois infindáveis meses para que chegue a posse. Ou seja: praticamente 12 meses antes que efetivamente vejamos alguma nesga de luz no horizonte.

Não será um ano fácil, meus amigos. Não mesmo. Ano de eleição onde provavelmente veremos toda sorte de escândalos, artimanhas, mentiras, desinformações, Fake News, enganos, polarizações, descalabros, difamações, injúrias, ultrajes. Ano em que teremos muito a enfrentar para continuar seguindo.

Tenho até pena de nós.

O que teremos de ver, ouvir, sentir. Ano em que ficaremos muitas vezes indignados. Ano em que veremos sabe-se lá que novas empreitadas funestas nos assediarem. Ano em que nos sentiremos descrentes de alguns seres humanos, e nos perguntaremos outra e outra vez o que estamos nos perguntando desde janeiro de 2019: como foi possível o Brasil eleger como presidente alguém assim? Ano em que teremos de reunir forças para enxotar de uma vez por todas quem está fazendo de nosso grande país algo que mal podemos reconhecer. Ano em que só a esperança poderá nos guiar.

Não será um ano fácil.

Mesmo agora, quando 2021 já está acabando, vemos crianças se tornarem vítimas da sanha negacionista desse ser perverso que já nos fez tanto mal. Colocar todo tipo de empecilho para que a vacina de 5 a 11 anos não chegue com facilidade ao Brasil é crime imprescritível. É inominável. E nos dá a certeza de que não há limite para a maldade e truculência de quem dança funk em uma lancha, refestelado em suas “férias”, enquanto deixa o Brasil à mercê de sua necrofilia.

E ainda vemos funcionários da Receita Federal abandonarem seus cargos de chefia; os principais portos brasileiros começarem uma operação padrão na alfândega; vemos o IPHAN, órgão montado para zelar e defender nosso patrimônio cultural, ser desmontado como um brinquedo caprichoso para dar espaço a diretores sem nenhuma experiência no setor, nem caráter; vemos sua completa omissão na tragédia que as chuvas causaram à Bahia.

O que mais veremos até dia 31?

O que mais veremos até o último dia do próximo ano?

Quem tiver algum otimismo sobrando, por favor, me mande um pouco.

Ainda que, pensando melhor, se não há otimismo sobrando, pelo menos há esperança.

Assim, o que desejo para o próximo ano para todos nós é muita esperança e espírito de luta para mudar este país.

E, sim, com certeza, para cada um em particular, um ano feliz com seus amigos e sua família em sua “bolha”. É bom ter uma “bolha”. Muitas vezes, é muito necessário se isolar em uma “bolha” de afeto, planos e muito amor. Só assim nos recuperamos das perversidades a que temos sido expostos e fortalecemos nossa esperança e nossos sonhos.   

(Crônica publicada em O Popular, em 28/12/21)

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PARA NÃO DIZEREM QUE NÃO FALEI DE NATAIS

                                                                    

O Natal, essa expectativa coletivamente criada para se comemorar o final do ano com ruas iluminadas, árvores enfeitadas, presentes, burburinhos, alegrias, eu gosto disso.

Gostava muito quando pequena, tempo em que celebrávamos a data com todos os seus ícones. Minha mãe nos chamava para enfeitar a árvore em um canto da sala, nem sempre o tradicional pinheiro cujo perfume fazia parte do espírito daqueles dias, mas às vezes uma árvore nativa (houve ano em que a árvore escolhida foi uma pequena goiabeira transplantada para um vaso, homenagem, creio, a sua fruta preferida).

No tão esperado dia 24, aprontávamos com roupas novas, meu pai abria de par em par a grande porta da sala que dava para o alpendre e o jardim, e colocava o LP com músicas natalinas, entre elas a entranhada Botei Meu Sapatinho na Janela do Quintal. Dali, saíamos para um périplo de visitas, primeiro na casa de Tia Maria, onde o presépio era uma obra de arte, com um Menino Jesus encantador e disfarçadas latinhas de brotos de feijão (ou de arroz?) fazendo as vezes de capim ao lado dos animais e Reis Magos que de tudo participavam. Esse presépio inesquecível era a magnífica oferenda da casa. De lá, rumávamos para a casa de Tia Nicota onde um grande e verdadeiro pinheiro brilhava com bolas natalinas por onde serpenteavam luzinhas coloridas. Meus olhos só se desgrudavam daquela beleza para ver se entre os pacotes empilhados a seus pés haveria um com meu nome, o que jamais faltava porque era ali onde minha amada madrinha Tia Sina sempre deixava algo para me fazer muito feliz. Depois da ceia, voltávamos já sonolentos para nossas camas de onde madrugávamos para ver que presentes Papai Noel deixara junto a nossos sapatos debaixo da iluminada goiabeira na sala. 

Tempos de grande inocência onde podíamos pensar que morávamos em um país pacato e pacífico. Ou melhor, sequer pensar em país já que essa jamais foi uma noção da infância.

Adulta, os Natais adquiriram outro ritmo e significado. Mas a tradição da troca de presentes, insuflada pela cultura do consumo, de alguma maneira se manteve.

Quando tivemos nossos filhos, naturalmente passamos a ser Papais Noel. E durante vários anos comemoramos os Natais na casa dos meus pais, com a reunião dos irmãos e sobrinhos, alegre festa de família. Momento para voltar a Goiânia e também rever parentes queridos. Nos anos mais recentes, fizemos, Felipe e eu, alguns Natais em nossa casa, até que nossos filhos por sua vez seguiram cada um seu novo rumo pois assim é o correr da vida. Este ano, faremos uma ceia com nossa neta mais velha preparando uma comida típica do Natal na Venezuela, aprendida com sua avó materna, venezuelana.  

Mas neste final de tarde, passando pela Avenida Amaral Gurgel, atualmente um lugar onde famílias agora sem teto se ajeitam em barracas sob o viaduto, vi uma delas enfeitada com ornamentos natalinos; ao lado um caixote onde havia um presépio montado, acredito, com o mesmo apreço que tia Maria dedicava ao dela.

 Embaixo, à espera, um sapatinho. De criança.

(Crônica publicada em O Popular em 17/12/2021)

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Bem-te-vi na janela

                  

Nesta chuvosa e invernal primavera paulistana, hoje foi a primeira vez que escutei um bem-te-vi cantar “na falsa seringueira” que enfeita minha rua. É uma bela manhã de sol e vim feliz me sentar para escrever esta crônica.

Antes, como sempre, leio o jornal.  E o que leio?

“A Amazônia está perto de ponto irreversível e pode virar deserto.”

São análises de 200 cientistas concluindo que os desmatamentos, as queimadas e as mudanças climáticas colocam a Amazônia cada vez mais perto dessa irreversibilidade.

Ao ler isso, leio também que em outubro o desmatamento foi o maior para o mês nos últimos sete anos, fazendo com que o índice de desmate na Amazonia seja o maior em 15 anos.

E nem vou falar aqui do nosso cerrado, cuja devastação pode ser vista dia-a-dia por quem nele vive. Que o diga nosso grande cientista Altair Sales, que não cansa de clamar e mostrar a destruição dessa riqueza tão nossa, tão incompreendida.

A comunidade científica e a imensa maioria dos países reunidos na Cúpula do Clima (COP-26), na Escócia, semana passada, reafirmaram esses perigos ambientais e climáticos que nos ameaçam. Mas nosso país negacionista, o que faz? Fala coisas alheias à realidade e nosso representante oficial vem à tona afirmar que precisa entender melhor os dados recentes. Faria melhor se confessasse que no atual desgoverno ele não vai, tampouco quer, entender o que estão deixando que aconteça.

Eu também confesso: não sou capaz de entender como, além dos desgovernantes, desmatadores, empreendedores do agronegócio e grandes fazendeiros teimam em negar o óbvio ou acreditar (será mesmo?) que eles e os seus estarão preservados quando, nem digo o planeta, mas nós, supostos donos da maior parte da Amazônia, dos rios caudalosos e de uma natureza exuberante, tivermos que chorar nossos mortos de sede, calor e fome. Derramarão eles rubras lágrimas de sangue já que não terão mais verdadeiras lágrimas em seus corpos secos e famintos? Ou estarão, desde já, preparando luxuosas tocas onde se esconder?

Mas não haverá onde se esconder.

Deixa eles pra lá, alguns poderão dizer.

Com prazer eu deixaria, se o país inteiro, inclusive nós, alheios a tanta riqueza, não tivéssemos que arcar pelo que tanta fome de dinheiro e lucro estão nos trazendo. As fatalidades do Antropoceno não perdoarão ninguém.

E tem outra coisa que ainda põe mais em cheque o negacionismo dessa gente. Cientistas descobriram (benditos sejam eles) que se, ao longo de 8.000 anos, o aquecimento do planeta foi lento e ficou estável durante certo tempo, desde 200 anos atrás, no entanto, esse aquecimento vem ocorrendo em ritmo bem mais rápido, o que o torna muito, muito mais perigoso. Se nada fizermos AGORA já não haverá tempo necessário para os seres vivos (nós, incluídos) se adaptarem a esse novo clima de calor e seca.

Ai, bem-te-vi da minha janela, o que será de seus netos e bisnetos? O que será de sua espécie? O que será da minha?

Mas como nada posso fazer a não ser escrever o que tanto me inquieta, já-já sairei para dar uma volta entre o verde, enquanto ainda é possível.

Recomendo que vocês façam o mesmo.  

(Crônica publicada em O Popular, 18/11/2021)

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