Onde, a solidariedade

Não tendo como passear pelas ruas – clássica fonte dos cronistas –, passeio pelos jornais.

Outro dia, li uma entrevista com Renato Meirelles, fundador do Instituto Locomotiva e do Data Favela, falando de algumas conclusões da análise de mais de 27 pesquisas feitas por eles desde o começo da nossa pandemia.

Um dos fatos não previstos, diz ele, foi “o incrível senso de comunidade que uniu a população mais vulnerável no enfrentamento da doença (…) Proporcionalmente, a favela doou mais do que as classes A e B. (…) É nas periferias que encontramos um senso arraigado de comunidade, uma lógica de reciprocidade: se um vizinho tem comida, ninguém passa fome.”

Por paradoxal que pareça a alguns, a solidariedade entre os pobres não é novidade – e aqui sou eu falando. Em muitos momentos, é quase lei dividir o pouco que têm com quem está mais desfavorecido. Bom exemplo disso é o trabalho espetacular que o MST vem desenvolvendo. Seus assentamentos de agricultura familiar distribuíram mais de 3.400 toneladas de alimentos (que a cada dia aumenta) para quem precisa nas cidades.

Outro exemplo é o que acontece na comunidade de Paraisópolis, a maior de São Paulo, onde a associação de moradores e voluntários desenvolveram estratégias extraordinárias para suprir a falta de políticas públicas para a comunidade.

Há também entre os jovens urbanos (não nos esqueçamos deles) de parte da classe média que tem cabeça, muitas ações voluntárias de combate à fome, por exemplo, na produção diária de marmitas. Nos vários grupos, há os que compram os ingredientes, os que cozinham, os que distribuem as marmitas. Grupos assim, com certeza, se organizaram também em Goiânia e outras cidades em ações que combatem a fome e a desigualdade durante a pandemia.

E volto ao entrevistado: aconteceu também “um movimento grande e abrangente de grandes empresários, com objetivo de minorar o sofrimento da população menos favorecida. (…) Uma mobilização inédita e nobre em função de uma tragédia sanitária e social. E, digo sem medo de errar: ou acontecia isso ou teríamos convulsão social, saques, depredações.”

É algo que nos dá alento. Neste país que, outra vez, voltou ao mapa da fome, e cuja taxa de desemprego subiu para mais de 13 milhões de desempregados. E já que os governos são incapazes de elaborar políticas públicas para atendê-los, todos esses voluntários reunidos fazem diferença e mostram que nem tudo está perdido.

Felizmente, esses atos de solidariedade aconteceram e continuam acontecendo. Poderiam ser muito mais.

Solidariedade é algo que depende basicamente de sua visão de mundo, da consciência que se tem de ser um entre outros, e de que estamos, todos, neste mesmo barco a ponto do naufrágio. Alguns a exercem quase naturalmente. Outros, passam a vida sem enxergá-la. São os que vivem sem abrir a janela para o lado de fora, conscientes apenas de si mesmos, sem saber nem de longe o que significa empatia. Pena!

No frigir dos ovos, solidariedade não leva ninguém para o céu. Mas salva vidas, e dá mais sentido para a vida que você vive aqui embaixo.

Crônica publicada em O Popular em 8 de outubro/ no ano da pandemia

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Ducentésimo dia da pandemia

Duzentos dias de isolamento social, mais de 143 mil mortos no país,875 mortes e 33.413 novos casos em 24hs. E estamos assim. Cada um faz o que lhe dá na teia. Decide se faz isolamento ou não, se usa máscara ou não, se vai até ali ou não. Já não há sequer a fingida tentativa de querer fazer alguma coisa. Com vacina ou sem vacina, com protocolos de atendimento eficazes ou não, a pandemia um dia some. Não é mais tão sério assim.

E já não há no horizonte nenhuma reação forte a isso. Nem fiapos de reação. Nada a nossa frente.

Cada um decide suas coisas sozinho e, se decidir bem, sobrevive.

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Um pensador: Ailton Krenak

Se o confinamento social trouxe algo de interesse foram as “lives” que, quando boas, nos iluminam o dia. Como a de Ailton Krenak, líder indígena, que acaba de lançar seu terceiro livro – “A vida não é útil”- com suas reflexões como alguém que, sendo “o outro”- o indígena – vê um outro lado das coisas, tem outra lógica, outra perspectiva da vida.

Escutar esse grande pensador de nosso tempo é um privilégio para qualquer cabeça. Virando as coisas do avesso, ele nos faz pensar e questionar verdades ocidentais tidas como em mármore. Deveríamos abrir a mente e escutar, mesmo que não estejamos, digamos, preparados.

Sobre a igualdade, por exemplo. “Por que o indígena deveria buscar a igualdade com os brancos, se somos desiguais”, diz Krenak. “Não queremos a igualdade que almeja a integração do indígena para ser igual ao branco. Se a igualdade não pressupõe nossa desigualdade na vida, a nossa diferença, não é para nós.”

“Se eu deixar de ser indígena, o que vou ser? Branco precarizado. No pântano da igualdade de todos não há espaço para a diversidade”.

Perturbou você? Ótimo. Pense nisso. Descubra o que tem de verdade.

“Vida de uma nota só. É isso que os “integracionistas de índios” querem. Uma “nota só” é bom no samba do João Gilberto, não na vida. Queremos um mundo com notas e cores.”

(Essas palavras não foram exatamente as deles. São minhas tentando ser fiel às dele.)

Outro exemplo: branco que lamenta a Krenak não ter ancestralidade, como os indígenas. “Evidente que você tem seus ancestrais”, ele responde, e cantarola a música do Chico: “O meu pai era paulista/Meu avô, pernambucano/O meu bisavô, mineiro/Meu tataravô, baiano…”

Interessante e quase irônico – a partir daqui são comentários meus – é que esse cavoucar em nossos antepassados achará uma mãe indígena. Temos sangue indígena, negro e branco correndo juntos em nossas veias. 

No meu romance, “A mãe da mãe de sua mãe e suas filhas”, Ed. Globo, 2019, é disso que falo. A mãe brasileira é mãe indígena.

O que deveria nos orgulhar. Mas não cultivamos nossa ancestralidade. Chegamos, no máximo, ao bisavô, e olhe lá! Não faz parte do nosso cotidiano recordá-los. Muitíssimo menos, os ancestrais coletivos, homens e vultos dos quais mal sabemos o nome e os feitos. 

Mesmo sabendo que o legado da nossa cultura é legado dos nossos ancestrais, a imensa herança ancestral que nos forma, não costumamos nos lembrar disso, como os indígenas e negros. Seria interessante entender por quê.

Pois leiam os livros do Aílton Krenak, onde a riqueza dos seus pensamentos transborda. Como se fosse rio de outra lógica correnteza acima. Nos mostrando com clareza que os indígenas querem viver a vida que é a sua. Se a nossa vida, para nós, é melhor, a deles, para eles, também é a melhor. Viver na floresta, entre rios e animais, sem consumo induzido e vida precarizada, é privilégio. Desde que os deixemos em paz. Desde que vivamos, nós, a nossa vida, e deixemos que os indígenas vivam a deles.

Coluna publicada em “O Popular”, em 10/9/2020

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Crônica da semana passada que esqueci de postar

Livros & pandemia

 No começo de março, lancei meu romance “Maria Altamira” em São Paulo. Uma semana depois, começava o isolamento social na cidade.

Vários eventos de lançamentos programados, e todos tiveram que ser adiados para o final da pandemia. Dois, três meses, pensávamos.

Estamos no sexto mês, no entanto, e nada indica que estamos sequer perto do final.

Às preocupações com tudo e todos, no meu caso juntou-se outra, menor mas significativa: sem eventos e livrarias, como fazer o leitor saber que “Maria Altamira” existe?

A vida respondeu.

As vendas via internet cresceram exponencialmente, e criou-se um modo de comunicação diferente, as chamadas “lives”, com debates e conversas “on line”, como maneira de mostrar que o livro estava à espera de seus leitores.  

No começo, desacreditei bastante.

Sou do tempo da divulgação pela imprensa, dos lançamentos como momento de rever amigos e conhecer novos leitores, das vitrines das livrarias, e das estantes das bibliotecas como lugar natural para mostrar novos livros.

Surpreendentemente, tem sido bom. Com uma excelente editora, a Instante, do competente e criativo Silvio Testa, “Maria Altamira” encontrou o entusiasmo dos blogueiros – que eu não conhecia antes; de grupos de leitura – que eu conhecia, mas não imaginava a força; e de convites para “lives” com ótima repercussão.

“Maria Altamira” fala de duas mulheres: a mãe e a filha. A mãe, dos Andes peruanos, começa uma jornada sem rumo, depois da catástrofe natural que fez o mais alto pico da região desmoronar e soterrar sua cidade e sua família. Sua jornada a leva para o Pará, onde nasce Maria Altamira, filha de pai indígena, e criada ao lado da construção da Usina de Belo Monte, catástrofe ambiental e humana, provocada pelo homem. (O livro está no site da Instante e na Amazon. )

Mas se os livros estavam tendo que se irar para enfrentar a pandemia, estão agora ameaçados por outro tipo de catástrofe criada, dessa vez, por obra e graça do ministro fiador desse desgoverno. Que ameaça os livros com novo imposto, exorbitante, usando argumento espantoso: “Só a elite compra livros”. O que vem corroborar três coisas: de livro o ministro não entende; tampouco das classes mais pobres; às quais, mais uma vez ele dedica insanável desprezo.

Mas veja só, Senhor Ministro: o pobre lê. Desde que tenham acesso ao livro, os pobres leem com a voracidade provocada pela carestia a que são relegados. Faça uma pequena pesquisa, e saberá. O senhor se lembra do Plano Cruzado, de 1986? Não foi um bom plano, mas pelo menos serviu para desmistificar essa estupidez de que “pobre não gosta de ler.” Tínhamos uma editora na época e pudemos comprovar como o “congelamento dos preços” fez as vendas dos livros subirem, com notável contribuição dos mais pobres. E se o senhor, ocupado como é, mandasse um assessor verificar pesquisas atuais sobre a venda de livros, poderia confirmar como é forte, hoje, a participação das classes mais pobres na aquisição de livros. Mas seu plano, Ministro, aliado ao corte na Educação que vocês já fizeram e querem fazer mais, além de deixar o preço do livro menos acessível, apenas comprova o que afirmava Darcy Ribeiro:

“A crise da Educação no Brasil não é uma crise; é um projeto”

Crônica publicada em “O Popular”, 27/10/20

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Centésimo quadragésimo primeiro dia

Minha amiga descobriu uma cabeleireira cujo pequeno salão no barracão de sua casa só atende uma pessoa ou um casal por vez. Com máscaras, cliente e ela. Exageradamente descabelados como estávamos, Felipe e eu fomos. Cortamos. Tingir, não tingi. Tintura é processo demorado e minhas pratas continuarão a seu bel prazer. Não gosto, mas não gostar de algo tem sido a substância desses dias.

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Centésimo trigésimo dia

Quinto mês de isolamento da minoria contra o afrouxamento predominante. Sabíamos que seria um descalabro enfrentar uma pandemia sob esse desgoverno; não calculávamos quanto.

Novos casos detectados em 24 horas: 65.339. Total de casos positivos até agora: 2.231.871. Total de mortos no país: 82.890.

Não quero ser boletim do Covid-19, só que não dá para ignorar tudo isso, sorry.

Mas vamos lá, tentarei.

Vejamos o que tenho hoje para curtir o dia: conversa em vídeo com filhos, netos, genro e nora; alguma escrita, se possível; terminar um bom livro, se der; happy hour no final do dia com irmãos e cunhadas; algum filme bom na TV, se tiver.

Tudo isso? Sim, por hoje é.

E eis que então e vem a voz perfeita da Fabiana Cozza: “Na hora marcada, a dona Alvorada veio se banhar. Abracei o mar. E nada pedi. Só agradeci.”

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Centésimo vigésimo quinto dia

Ah, História! Reaja! Troque esse seu caminho. Pegue algum atalho, tome outro rumo, persiga outro horizonte. Saia desse retrocesso titânico em que nos meteu! Aja como se fosse você que nos levasse, e não nós que a levássemos conosco.

Não dá mesmo?

Jura?

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Centésimo vigésimo quarto dia

Depois de dias nublados e frios, hoje o sol.

Seja bem-vindo.

Ainda que você não consiga mudar muita coisa.

É desesperador como uma época tão ruim como essa se transforma em dias tão iguais aos anteriores, com seus protagonistas: desgoverno, pandemia, confinamento, afrouxamento. Péssimos atores, péssimas palavras, péssimas consequências. Palavras também péssimas nomeiam essas consequências: mortandade, genocídio, aberrações, perversidades.

E essas: naturalização, esgoto e lixo da História.

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Centésimo vigésimo segundo dia

Informações e contra informações: fator que adquiriu nova força junto com desgoverno e pandemia. Podemos esperar imunidade de rebanho antes da vacina, ou só depois? E esse relaxamento do confinamento oficial, deixando cada um a mercê de si mesmo? E as pessoas que põem as ruas no “velho normal”, embora as mortes não parem de aumentar?

Hoje, 74.133 de mortos e quase dois milhões de infectados, sub notificados.

Felipe e eu continuamos sem sair mas algo parece nos empurrar. Exemplo: ida a médicos e dentistas. Necessárias, não imprescindíveis. Estávamos evitando, agora retomamos. Com cautelas, mas retomamos. Amigos fazem o mesmo. É ruim ou não? Para uns, sim. Para outros, não. Informações e contra informações.

E eu aqui, doida para ser rebanho imune.      

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Centésimo décimo nono dia

Lindo domingo de sol.

Não resisti.

Muni-me de todo meu aparato pandêmico e lá fui dar uma volta no quarteirão. Os poucos que vi portavam suas máscaras. O “novo” normal, quem imaginaria!

Fernando Reinach, biólogo super sério, disse em sua coluna que “se” isso e aquilo se confirmarem, São Paulo pode estar se aproximando da “imunidade do rebanho”.

Não significa o fim do coronavírus mas torna menor seu poder de achar novas vítimas. OXALÁ! Me animei.

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