Sexta-feira de crônicas: Um sonho dele

Ele sonhou com a casa dela, uma casa onde jamais pusera os pés.  

Jamais conheceu nenhuma casa onde ela depois morara, nem sabia onde seria, mas sonhou com essa, que não era bem uma casa, e sim um apartamento, um apartamento pequeno; um apartamento acanhado, a janela dando para uma rua estreita, tão acanhada que o prédio em frente quase se deixava tocar. Tampouco era uma rua por onde passara alguma vez, era estranho. Tudo meio escuro, obscurecido, enevoado, como em geral são os sonhos dele. O prédio, a rua, o apartamento, toda a atmosfera. Menos o clima do próprio sonho.

O clima do sonho não era sombrio. Era suave, como se um pouco à espera, como se fosse, talvez, um rescaldo de expectativas não cumpridas, naturalmente não cumpridas, sem nenhum travo de remorsos, arrependimentos, nada disso. Era apenas como se fosse a lembrança de sentimentos passados de sua vida, uma vida no geral boa, plena de escolhas que faria outra vez sem pestanejar.

 O sonho era assim – quer dizer, parecia um baú de pequeninos tesouros, sim, isso: um baú de pequenas joias da lembrança obscurecidas pela pátina do tempo, momentos do passado que compunham o painel de sua vida. As muitas recordações de uma vida guardadas no baú tranquilo de seus sonhos enevoados, exatamente o lugar que lhes correspondia. Pequeninos tesouros que brilharam em algum momento e depois perderam o brilho, mas continuavam lá; obscurecidos, é certo, mas não completamente esquecidos, como em geral são as lembranças boas guardadas em seus devidos lugares.

Muito de vez em quando ele ainda a via, a dona daquela casa desconhecida, mas já nem se podia sequer dizer que eram amigos, e nem que tivesse desejos de vê-la mais ou de ter sua amizade. Pensou, no entanto, com humor, que conhecendo bem a figura como conhecera, se por acaso a encontrasse e lhe contasse que sonhara com uma casa dela que jamais conhecera, podia imaginar a reação. Certamente acharia que ele ainda pensava nela, e provavelmente se gabaria disso, presunçosa como sempre fora. Claro, poderia ter mudado, mas há séculos isso deixara de ser de seu interesse, não lhe dizia mais respeito.  

E naquela manhã, depois desse sonho raro, com o tipo de atmosfera de que são feitos os sonhos, ele não acordara nem pior nem melhor, nem mais feliz nem menos. Acordara como sempre, e até lhe passou pela cabeça contar para sua mulher o que havia sonhado. Mas, não, melhor não. Ela poderia entender mal. Ciúmes do passado, uma das grandes besteiras da vida; melhor deixar quieto. Sonhos são névoas que vêm e vão, passam, já passaram.

E de fato, quando se sentou para tomar o café-da-manhã, o sonho já sumira por completo em sua própria e misteriosa nebulosidade.

(Texto publicado em O Popular, em 23/9/2001)

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Sexta de Crônicas: Data ao reverso

Escrevo neste 7 de setembro convocado como uma espécie de dia D ao reverso, demonstração de força para algo jamais visto, um golpe publicamente ensaiado. São surpreendentes as manhas deste desgoverno: já não prepara o golpe tentativo no escuro dos bastidores, mas o propala aos quatro ventos.

Foram dias de tensão que envolveram todo o país, por um ato leviano de um desgoverno transtornado. Até onde seguirá? Incitar o uso de armas, mobilizar policiais militares e milícias, provocar o STF, a Constituição e o ódio são crimes contra a Democracia.  

Foi como se Bolsonaro pretendesse tumultuar ainda mais nossa vida, sem atinar (ou, talvez, atinando) que 2/3 dos eleitores estão contra ele, número que só aumenta.

Outro fato também me preocupava. Desde agosto, seis mil indígenas, de 176 povos, de todas as regiões do país, estavam presentes em Brasília, reunidos no acampamento “Luta pela Vida”, mobilização histórica do movimento indígena. Estavam ali para acompanhar o julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF), que definirá o futuro das demarcações de Terras Indígenas. Enquanto esperavam, iluminaram a Esplanada com sua arte, cantos, rezos e danças.

Como a votação foi adiada, muitos indígenas tiveram que voltar para suas terras, mas a mobilização continuou com cerca de 1.200 lideranças indígenas. Que ficarão em Brasília até que se defina essa questão de vida e morte: o Marco Temporal é mais uma tentativa de tirar terras dos indígenas, como se não bastasse o quanto já lhes foi tirado desde 1500. Seu propósito é colocar a promulgação da Constituição de 1988 como marco para considerar como terra indígena apenas o local onde eles estavam nessa data. Sem considerar que, naquele momento, muitos já estavam expulsos de suas terras. Seria como se nos expulsassem de casa e depois nos dissessem que não poderíamos retornar a ela porque a casa não era mais nossa. 

Este 7 de setembro também coincidiu com a data há muito agendada para a 2ª. Marcha Nacional das Mulheres Indígenas, em Brasília. Quatro mil mulheres de 150 povos, de todas as regiões e biomas do país chegaram para a festividade que acontece durantes três dias. Chegaram também para se unir aos que estão dando continuidade às mobilizações dos povos originários em luta por seus direitos.

Como será este ano a Marcha das Mulheres, sempre acompanhada de danças, músicas e belas imagens, realizada no amplíssimo espaço público da Esplanada dos Ministérios, se por lá ainda estiverem grupos bolsonaristas?

Com certeza, outro ponto de tensão.

Tanta tensão me fez lembrar outra, quando o desfile de 7 de setembro era realizado pelos colégios da cidade. Nunca tinha participado, mas entre meus 11/12 anos, por fim, minha escola desfilaria. De uniforme nos trinques, sapatos e meias brilhando, cabelos penteados pela primeira vez no cabelereiro, lá fui eu, puro orgulho. Não vi o bueiro destampado à frente. Caí. Lágrimas escorrendo, saí com uniforme rasgado, penteado desfeito, pernas arranhadas. Acabou meu desfile.

Ocorre-me, então, uma visão: que tal se os que desfilaram nesse dia tivessem encontrado, a sua frente, um gigantesco bueiro destampado?

(Crônica publicada em O Popular em 9/9/2021)

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Sexta de crônicas: Uma praia na Bahia

                                                               Para Sergio e Nalu                        

Houve uma semana combinada e muito esperada, uma ruptura radical do meu cotidiano. Um encontro familiar em uma praia na Bahia.

Belo pedaço onde reina a natureza. Quilômetros de areia intercalados por pequenos montes de pedra. Quilômetros de palmeiras. Milhas e milhas de mar. Brisa constante que esconde o calor. Passarinhos de cabeças vermelhas como cardeais descendo para ciscar alguma coisa na grama, enquanto outros pássaros, menos afoitos, apenas passam sobre nossas barracas em seu voo corriqueiro. As ondas se dobram e desdobram como se nos chamassem, mas não, o mar é bravio. Fosse ainda jovem, eu iria. Agora me tornei apenas uma observadora quando os mares são bravios. E faço uma constatação sem querer, uma constatação sobre a idade, uma constatação que reluto em reconhecer mas pressinto que devo aceitar, a de que também na vida posso me tornar assim, uma observadora, quando vejo um mar bravio a minha frente, temendo aceitar o convite das ondas insistentes. Mas dou um passo e deixo que elas banhem pelo menos minhas pernas. Despudoradas, elas erodem a areia por baixo dos meus pés, rompem meu equilíbrio, quase caio, mas recupero. A natureza me envolve e muda o rumo dos meus pensamentos. 

Estamos todos vacinados, todos deixando, ainda que por curtíssimo prazo, o país esquecido lá fora. Somos um grupo pequeno, mais restrito. Irmãos, sobrinhos e parceiros de vida. Família é coisa bonita. O chão de onde partimos. Felizes aqueles que têm o privilégio de contar com sua família para as horas de alegria. Nossas conversas têm gosto da infância, de vida vivida, que só recuperamos nessas horas. O gosto de nossa terra, nossas músicas, nossa comida (teve até pequis e biscoitos de queijo trazidos de Goiás).

Da cidade, vi pouco. O famoso “Gabriela, cravo e canela” de Jorge Amado virou um de seus protagonistas. Nem falo do bar Vesúvio e outros lugares que, como no livro, ainda estão lá, mas das barracas de praia que incorporam sorridentes Gabrielas e seu Nacib. Me pergunto se o povo da cidade lê o livro, se é adotado nas escolas. Ou se tornou apenas mais uma fantasia para turista ver. E o turista? Será que algum vai à procura dos personagens e lugares do romance? Seria bonito, se fosse.          

De lá eu trouxe chocolates e um gin formidável, feito de zimbro, cacau, coentro e pacová. Quem gosta de gin pensará que estou exagerando ao compará-lo ao Tankeray, mas comparo. Podem anotar: Gin Dengo.

Na volta, o aeroporto minúsculo transborda de gente. O motorista do táxi avisa que ele é de propriedade privada, o dono nada faz, e no verão, com a multidão de turistas que a cidade atrai, torna-se mais assustador do que é agora, fora de temporada.

Respiramos fundo e seguimos em frente. A vida real nos espera; ao que tudo indica, sem sair do lugar.

(Crônica publicada em O POPULAR, em 26/8/21)

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Sexta de Crônicas: ESCAPES

Como anda difícil escrever crônicas neste país onde tentamos viver uma vida normal enquanto o chão dá solavancos! Penso, então, que uma das poucas maneiras de escapar do cotidiano de indignação e impotência como tem sido o nosso é voltar para algum momento do passado, um passado bem distante do qual nada mais exista a não ser lembranças quando acionadas. Um passado, portanto, bem resguardado na memória, bem protegido desse presente à beira de abismos.

Que passado seria esse? A que tempo desse passado recorrer?

À infância, quem sabe. O tempo mais distante, mais protegido, mais envolto em uma bruma possível de dissipar. Um tempo que pode estar bem resguardado, é verdade, mas quando, com o olho de quem quer ver, olho as cenas infantis que me chegam em cascatas, vejo nelas também conflitos, angústias, contradições. Tive uma infância feliz e fantasiosa, não tenho dúvida disso, rodeada de irmãos, primas, primos e, pode-se dizer, com quase duas mães: uma, a verdadeira e outra, a madrinha que esbanjava em mim seu carinho, e me chamava de Rosa. Mas se é para ser sincera comigo mesmo, tenho que repassar também os momentos de medo, incertezas, inseguranças, sentimentos perturbadores, descobertas incompreendidas dessa idade. Quero falar disso, hoje? Não, não quero.

Vamos, então, para a adolescência, mas aí o passado piora. Fui uma adolescente ávida, inquieta, corpo e cabeça experimentando contradições e gerando conflitos intermináveis e descobertas. Adolescente rebelde. Quero falar sobre isso? Com sinceridade? Também não. Mas guardo muitas coisas boas dessa idade.

Chegamos à juventude, e aqui posso dizer que, de alguma forma, ela foi como deveria ser a juventude de qualquer pessoa. Descobertas e encantamentos me acompanharam. Tive batalhas duras para adquirir a liberdade que precisava respirar, e tive a UnB, o movimento estudantil, o primeiro trabalho digno desse nome (jornalista do JB), tudo quase um paraíso, fora o que não era. E o que não era paraíso? A ditadura que, por princípio, era algo contra o qual lutar, por mínimas que fossem nossas lutas, até que ela afundou suas garras no gramado do campus, levou de roldão vários estudantes, e fechou-nos as portas. Mas quero mesmo falar dessa ditadura e seu AI-5? Agora, não. Não vale sair de uma para cair em outra.

Então falo da vida de adulta? O tempo que costuma ser o de maior duração em uma vida? Deixa para lá. Crônica não é biografia. Só vou dizer, que no meio dos trabalhos, das batalhas, das responsabilidades, experiências, contradições da vida adulta, nada melhor do que a chegada dos meus dois filhos. Quando me colocaram nos braços o primeiro, nascido no Peru, olhei seu rosto perfeito de nenê, contei seus dez dedinhos e disse, “Não precisava ser tão lindo assim”. E quando a segunda, a carioca da família, veio para meu colo com uma determinação visível e rara, contei seus dez dedinhos e disse, “Como é forte, esse tesouro! Só vai me dar alegrias.”

E assim é.

Coisas lindas, coisas boas em qualquer idade são para nunca se deixar para trás.

(Crônica publicada em O Popular em 12/8/21)

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Sexta de Crônicas: Portas que fecham

Raro e vibrante dia de inverno em São Paulo. Céu prazerosamente azul, sol suave, ar beirando o gelo. Passo de carro pela avenida e me alegro. As empenas desenhadas por diferentes artistas enfeitam os prédios, como brincos irradiando emoções. Momentos como esse me fazem entender porque amo essa cidade.

Comecei assim a crônica que pretendia continuar hoje com intenção de falar dos desenhos nas empenas e nos muros, mas a realidade desarranjou minhas intenções.

A crise provocada pelo recado insensato – “ou aprovam o voto impresso ou não haverá eleições”- enviado pelo General Braga Netto, Ministro da Defesa, ao presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, através de um interlocutor, me remeteu a long time ago, quando ainda cursando jornalismo na UnB, eu trabalhava na Sucursal do Jornal do Brasil em Brasília, cujo diretor, o então famoso Castelinho (José Castelo Branco), me colocou para “cobrir” os Ministérios Militares. O ano era 1968, nos meses que antecederam o famigerado AI-5 que endureceu drasticamente a ditadura civil-militar, iniciada em 1964.

Naqueles meses, passávamos um tempo de nossas tardes no Ministério do Exército – eu, pelo Jornal do Brasil e Felipe Lindoso, também jornalista na época, pelo O Estado de São Paulo. Os dois ainda estudantes da UnB de manhã e participantes do movimento estudantil, nos víamos de repente no lugar onde menos gostaríamos de estar, a sala da assessoria de imprensa do Ministério, com seu porta-voz, Coronel Bermudez, hoje falecido, e seu auxiliar, capitão. A grande questão da época era se a Câmara dos Deputados permitiria a cassação de Márcio Moreira Alves, o deputado que, com seus flamejantes discursos contra a ditadura, se tonara a encarnação do ódio dos militares contra as liberdades da sociedade civil.  

Chegando de volta à redação do JB, eu escrevia minha matéria sobre o que tinha sido dito – o Coronel falava bastante, naqueles fatídicos meses, como quem quisesse mesmo que soubéssemos o que eles pensavam. Castelinho lia o que eu havia escrito, e enviava para publicação na manhã seguinte. Às vezes me chamava para confirmar se o porta-voz dos militares havia realmente dito aquilo. E me sugeria que fizesse também um perfil daquele perfeito coronel da chamada “linha dura”.

Já Felipe, ao chegar à redação do Estadão, era chamado a sala de seu então diretor, Evandro Carlos de Andrade, para que contasse o que ouvira. O que depois, Evandro incorporava em seus editoriais.

Duas maneiras distintas do trabalho de nossos chefes, mas de um jeito ou de outro, nos dois jornais, era possível acompanhar o clima de intolerância e autoritarismo que se alastrava entre os militares, que nem fogo em mato seco.

Em 68, portanto, não houve recado enviado através de um interlocutor. Houve o trabalho da imprensa. Que, imediatamente após a promulgação do AI-5, passou a ser censurada, e as grandes portas do Ministério do Exército com seus guardinhas vigilantes, fechadas para os jornalistas.

O que hoje, tudo indica, frente à grande reação imediata da sociedade civil em defesa da democracia, não terá chão para acontecer outra vez.

(Crônica publicada em “O Popular”, em 29/07/2021)

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Sexta de crônicas: Tempos interessantes

TEMPOS INTERESSANTES

                                               Maria José Silveira

A conhecida história de maldição chinesa pesa sobre nós. Aquela em que um sábio pedia à divindade que lhe fosse dado a graça de não viver em tempos interessantes. Já nós certamente pedimos com pouca fé pois não paramos de viver dias alarmantemente interessantes.  

É possível, no entanto, que estejamos entrando em um momento em que os fatos estão dando uma volta a nosso favor. A CPI da Covid-19 está empilhando provas dos absurdos acontecidos no Ministério da Saúde; a PF começa a investigar Bolsonaro por prevaricação no caso Covaxin; a sociedade civil desperta de sua letargia e se põe em ação se manifestando contra as ameaças que a cúpula militar decidiu fazer ao Congresso; o Ministro Barroso de STE sai a campo para defender as urnas eletrônicas; e, last but not least, as manifestações contra Bolsonaro se ampliaram por todo o país e, pela última pesquisa do DataFolha, 54% dos brasileiros já apoiam o impeachment.

É como se o emburrecimento e a paralisia tivessem dado um basta a quem pretendia nos forçar a volta à Idade Média. A maioria esfrega os olhos e volta a constatar que a terra é redonda, a ciência vale muito mais do que a peste, o negacionismo é sinônimo de idiotia, e que é bom soltar nossas bruxas e expulsar os demônios das rachadinhas e milícias.

Domenico de Masi, sociólogo italiano conhecido entre nós, disse algo muito verdadeiro: “(…) Quando o país é comandado por pessoas tão tacanhas, a tendência é o rebaixamento geral do nível cognitivo da sua população. (…) Quando entramos nesse tipo de debate entre nós ou com as “autoridades” é como se voltássemos da pós-graduação às primeiras letras do curso elementar. Somos forçados a recapitular consensos estabelecidos há décadas, como se nada tivéssemos aprendido. É como forçar cientistas a provar de novo a esfericidade da Terra ou a demonstrar eficácia de vacinas. Ou defender, outra vez, a necessária separação entre Igreja e Estado, mais de 230 anos depois da Revolução Francesa. É muita regressão e ela nos atinge. De repente nos surpreendemos discutindo o óbvio, gastando tempo com temas batidos e desperdiçando energia arrombando portas abertas séculos atrás na história da humanidade.”  

Outra coisa interessante no sentido da divindade chinesa também tem acontecido: uma pesquisa feita pelo Insper, Ibmec e Universidade de Toronto constatou que “quanto mais apoiadores Bolsonaro teve em uma cidade, maior foi o risco de ser contaminado ou morrer pelo coronavírus no primeiro ano da pandemia. De acordo com o estudo, em cidades que votaram quase inteiramente para Bolsonaro, o número de casos foi 567% maior e o de mortes 647% vezes maior do que os registrados em cidades que tiveram poucos votos para o presidente.” Quem estiver interessado em ver melhor essa pesquisa, basta ir ao Google.

Sabe lá se estou sendo demasiado otimista, mas quero crer que não. O chão está tremendo e muitas coisas já deram o arranque para mudar este país. Há ainda um bom caminho pela frente, mas nada como ver o começo começando.

Crônica publicada em O Popular, em 15/7/2021

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SEXTA DE CRÔNICAS: RESPEITO, GRATIDÃO, APOIO

                Hoje eu havia pensado em escrever sobre nada a ver com nada, talvez até lançasse mão do passado, mas eis que fatos ineludíveis se colocaram a nossa frente. Talvez tenham mesmo a ver com o passado, como eu pretendia, já que se trata de uma incurável violência, uma violência que fez parte de nossa formação como nação, uma violência que nos envergonha e exige que saibamos que injustiças estamos sendo levados a cometer.

Eu falo da nossa diversidade como nação e da riqueza de nossas florestas e nosso meio ambiente. Falo do destino dos nossos povos originários que, desde 1500, vem sendo ferozmente expulsos e empurrados e empurrados e empurrados de suas terras para nos ceder lugar. Um genocídio que marcou nossa origem e agora pretende outra vez continuar em marcha neste momento de um século XXI que mais parece uma volta ao passado e suas excrecências.

                Reunidos em Brasília, desde o começo de junho, mais de 800 indígenas de 40 povos de todas as regiões do país vieram de suas aldeias para manifestarem sua revolta contra o projeto de lei que altera o direito a seus territórios, como determina a Constituição de 1988. O que se pretende, com essa nova lei, é limitar as terras indígenas ao “marco temporal”, isto é, que sejam consideradas áreas indígenas apenas as que, no momento da promulgação da Constituição de 88, eram habitadas em caráter permanente por indígenas. Ou seja: expulsos de suas casas pelos interesses dos brancos, é-lhes vedados agora reivindicar a casa de onde foram expulsos. Dos 672 Territórios Indígenas no Brasil, apenas 428 foram regularizados; os restantes estão em fases distintas do processo que é complexo e enfrenta muitas resistências e morosidade jurídica. Esses estariam sujeitos à nova lei que, se aprovadas, cairá sobre eles como um pesadelo de novas ameaças. 

                E há mais: brechas perigosas na nova lei permitiriam em suas terras atividades de mineração, ocupação com bases militares, expansão estratégica da malha viária, exploração de alternativas energéticas, e “resguardo” de áreas consideradas estratégicas. Ou seja: possibilitariam atividades de impacto social e ambiental em territórios indígenas. Além disso, flexibilizariam o possível contato de não-indígenas com povos isolados, provocando a disseminação de doenças nas comunidades.       

                É indigno estarmos ainda hoje discutindo e ameaçando os direitos dos povos que estavam aqui desde muito antes de 1500. Com essa dimensão extraordinária de terra que forma nosso país, como podemos deixar que a insensibilidade e abjeta ganância de alguns ainda hoje persigam nossos ancestrais; ainda hoje destruam nosso meio ambiente; ainda hoje não entendam que floresta é povo indígena; que floresta é vida para todos nós. Aos indígenas devemos respeito e gratidão por nos mostrar que a riqueza do mundo é a diversidade de povos que abriga; por protegerem nossas florestas e, com isso, contribuírem para garantir a vida de todos nós. 

                Eles, que há mais de 500 anos lutam por seus direitos, continuarão lutando. A nós, por mínimo que seja, resta apoiá-los com nossa consciência e nosso coração.

(Crônica publicada em O Popular, em 01/07/21)

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REINO DE MENTIRAS

                                              

Políticos mentem; é verdade. Alguns mentem mais do que outros. Mas ninguém jamais viu um deles mentir tanto quanto o despresidente que tem nos levado à trágica situação que estamos vivendo. Que foi eleito à base de Fake News, mamadeiras de piroca e kit gays. Tão afeito à mentira que, em nenhum momento que mente – que é todo o tempo em que se dirige a algum público – sua cara treme.

Não tremeu, por exemplo, em Anápolis, domingo passado, em uma igreja evangélica.

Lá afirmou, again e again, que na eleição que o elegeu em 2018 houve fraude. Quando disse isso pela primeira vez, em 2020, acrescentou que tinha provas e as mostraria. O que jamais fez, tais provas jamais existiram, mas não importa: o que importa é continuar repetindo a mentira.

Lá afirmou também, mais uma vez, em seu português de miliciano, que as medidas de isolamento social para conter a pandemia têm o objetivo de derrubá-lo. “Vamos fechar tudo, lockdown, toque de recolher, que a gente pela economia tira esse cara daí.” Não vê o país chorando seus mortos. Não reconhece o que faz. Lança a culpa nos governadores e prefeitos. Tece uma esdrúxula teoria da conspiração.

Inventou, recentemente, que há super notificação de casos de morte por covid, feita pelos Estados interessados em obter mais recursos federais. Médicos e hospitais, portanto, fazem parte dessa farsa que ele anda agora repetindo à exaustão, tentando torcer as estatísticas para ocultar o genocídio que ele está praticando com o povo brasileiro, não os outros.

Defendeu outra vez sua ideia fixa do “tratamento precoce” comprovadamente ineficaz. Continua a defendê-lo mesmo no momento em que a CPI da Covid investiga detalhadamente como ele deixou o povo brasileiro à deriva ao não aceitar as vacinas oferecidas a tempo de evitar grande parte das quase 500 mil mortes que continuam aumentando todo dia, toda hora, em todo o país.

As mentiras escorrem de sua boca perversamente sem máscara e infectam os fiéis já incapazes de se defenderem contra elas. Crê-se um novo Goebbels tupiniquim: “Uma mentira dita mil vezes torna-se verdade.” E vai criando uma versão paralela da realidade, preparando um terreno onde possa aparecer como “inocente” que não fechou nem um botequim, que não faz mais pelo país porque governadores e prefeitos “corruptos” não deixam. E repete e repete e repete. E a máquina estatal segue junto, também repetindo, repetindo, repetindo.

Temos que tirar o chapéu para alguns jornalistas que desvelam também, dia após dia, as mentiras antigas e as novas mentiras. Temos que apoiar a CPI da Covid que tem sido incansável na busca da versão verdadeira de tudo isso. Temos que saber que são muitos os que estão denunciando cada um desses absurdos, dia após dia.

O cansaço que invade é enorme. Mas enquanto a indignação for maior, há esperança. Enquanto houver certeza de que a luta e a resistência acenderão uma luz no final do túnel, há esperança. Enquanto pudermos nos contrapor a cada uma de suas mentiras, esse reino paralelo poderá vir ao chão.

Crônica publicada em O Popular em 17 de junho/2021

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O novo ar das ruas

                                              

Celebremos as manifestações do sábado, 29 de maio, que exigiram mais vacina, mais comida no prato. Gritando Fora Bolsonaro. Enchendo avenidas, ruas e praças em mais de 213 cidades. O povo outra vez nas ruas, todos de máscaras, reivindicando seus direitos. Uma beleza de se ver, depois de todos esses meses de silêncio.

Seguindo os protocolos contra o coronavírus, centenas de milhares de pessoas por todo o país mostraram que já não aguentam mais. Venceram o medo da pandemia e recuperaram as ruas. O medo do vírus foi menor do que a indignação contra o governo que já matou mais de 460 mil brasileiros.

Vocês certamente viram as fotos. Muitos com certeza participaram. Muitos que não puderam participar ficaram torcendo em casa, encorajados ao saber que saíamos da passividade e mostrávamos nossa cara.

Lembrei-me, então, das manifestações das quais participei. Desde as do movimento estudantil em Brasília durante a ditadura civil-militar (foram muitas e reprimidas com violência por cavalos, bombas lacrimogêneas e jatos de água de caminhões de bombeiros, fazendo-nos correr, com nossas pernas jovens, por entre os blocos da Asa Sul onde as passeatas ocorriam) até as manifestações das Diretas (estupendas!), das lutas do país por seus direitos, e dos Primeiros de Maio (lindas e pacíficas!).

Depois, vi outras da minha janela, quando morava perto da Avenida Paulista. Como as de professores, de outros vários profissionais, de estudantes, de LGBTQs, de FORA TEMER, e as que, com participação de indígenas vindos da região do Xingu, denunciavam os desastres que a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte causaria, e me chamavam com a voz forte e convidativa das ruas, “Vem! Vem pra rua, veeeem! Vem pela floresta, vem!” E eu não só ia como, a partir delas, tive meu interesse de escritora despertado pela catástrofe que denunciavam e escrevi meu romance mais recente, “Maria Altamira”, lançado em março de 2020, comecinho da pandemia. Não à toa a voz polissêmica das ruas inspira, motiva, estimula, dá-nos a certeza de que somos um coletivo de um mais um formando multidões. 

Vi também as de junho de 2016, quando a direita começou a se apossar das ruas com seus trios elétricos estridentes e palavras de ordem repulsivas. Como era assustadora a cara dessa direita truculenta que perdia a vergonha e se mostrava. E que deu no que deu, instaurando a necropolítica no poder que até a vacina contra o vírus nos negou. Esse, o destino terrível que nos coube: enfrentar o coronavirus desgovernados por um genocida que recusou todas as vacinas que lhe foram oferecidas a tempo de salvar milhares de vidas.

Finalmente, agora as ruas ocupadas estão de volta com suas vozes e bandeiras exigindo o que nos tem sido negado. Serão grandes os embates pela frente, não duvidemos disso, mas as luzes no final do túnel começaram a se acender.

Regozijemo-nos, pois, nem que seja apenas por esse primeiro momento de reação. Sintamos os ventos que anunciam mudanças. Respiremos, com saudáveis expectativas, esse ar benfazejo que nos chegou das ruas.

(Crônica publicada em “O Popular”, em 3/6/2021)

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A vez das universidades públicas

                  Tem uma frase que Bolsonaro disse e não mentiu. Foi quando afirmou que, se eleito, iria destruir tudo o que tinha sido feito antes. E não bastasse o quase meio milhão de mortos no país, grande parte dos quais não morreu pelo vírus mas pelo negacionismo e irresponsabilidade na compra das vacinas; não bastassem a situação de desmatamento e as boiadas passando pelo meio-ambiente; não bastasse a criminosa situação dos indígenas; não bastassem a miséria, o desemprego, os Jacarezinhos, os feminicídios grassando pelo país; não bastassem as Fake News e a corrupção; não bastasse o cotidiano ameaçador que vivemos; agora são as universidades que estão sendo mais uma vez sufocadas pela falta de verbas, ameaçadas em sua continuidade, sua qualidade, sua própria existência.      

                O Orçamento sancionado pelo desgoverno prevê a redução de R$ 1 bilhão para as 69 universidades federais. Não contente, bloqueou 13, 8% das verbas, deixando para as instituições metade do que tinham cinco anos atrás. Reitores lançaram um S.O.S: se a verba não for desbloqueada, o risco de paralisação é real.

                Imaginemos a desolação de um país com suas universidades federais e estaduais paradas. Nossos filhos sem ter a possibilidade que tivemos de cursar uma universidade pública, em geral as melhores do país. Nosso país sem a formação de inúmeros novos cientistas e com redução drástica de suas pesquisas em várias áreas, inclusive sobre o enfrentamento da covid-19.  Os hospitais universitários fechados. Professores e pesquisadores sem receber salários. Estudantes pobres sem receber bolsas. Imaginaram?

                É até ser difícil entender essa virulência contra um patrimônio como esse, já que o próprio Guedes e com certeza outros ministros se beneficiaram de universidades públicas (embora nem a melhor universidade prometa erradicar ervas daninhas preexistentes na cabeça de seus alunos.) Mas boa parte de nossos melhores médicos, cientistas, pesquisadores, professores, boa parte dos melhores profissionais de qualquer área passaram por elas. Qual o motivo para destruí-las, elas que são uma tradição deste país? Ódio por sua cada vez maior abertura para todas as classes sociais? A intenção sem pudor de trocá-las por universidades privadas?  

Em um país tão desigual, a educação superior gratuita significa a possibilidade de dar a todos a oportunidade que merecem como cidadãos. Fortalecê-las seria o nosso caminho possível. Enfraquecê-las para que em seu lugar floresçam as universidades particulares é golpe imperdoável à democracia.

                Com certeza, boa parte de nós, que passamos por uma universidade pública, dela trazemos não só o que ali aprendemos, nossa iniciação na vida adulta, mas também inesquecíveis lembranças de nossa juventude. Nelas aprendemos não só com os professores, mas com o próprio ambiente universitário e com nossos colegas, todos imersos na efervescência cultural que caracteriza o espaço onde o conhecimento é transmitido a quem dele precisa.

Deixar uma universidade pública à míngua é um crime contra a formação de uma nação, um crime de lesa-pátria.

                Mas sendo o mundo como é, redondo e em perpétuo movimento giratório, é bem provável que, mais dia, menos dia, essa sanha de destruição se volte contra os destruidores.

(Crônica publicada em “O Popular”, em 20/5/2021)

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