Sexta de crônicas: Senhoras e senhores, tremei!

Essa é a única reação possível ao deparar com a ameaça implícita na manchete dos jornais da semana: “Governo prepara pacote de obras para Amazônia”.

Nossa Senhora d´Abadia! (Mesmo para uma ateia, em momentos como esse, só mesmo as invocações da infância.)

No tal pacote, o de sempre, previsível e esperado: uma ponte sobre o Rio Amazonas, a construção de uma hidrelétrica, e a extensão da BR-163 até o Suriname. As empreiteiras agradecem.

Então por que tanto espanto, se é a mesma velha, antiga e esperada noção de progresso que se implanta depredando riquezas e obscurecendo o futuro de nossos filhos?

Uma coisa é saber que vai acontecer. Outra é ver começar a acontecer.

Além disso, esse projeto para uma área de preservação que deveria ser tratada a pão-de-ló e guaraná, marca, ao contrário, a posição dos militares contra o que eles chamam de “pressões globalistas”. E coincide – como se coincidência existisse nesses casos – com o movimento, espionagem incluída, contra o Sínodo da Amazônia, organizado pela Igreja Católica, e previsto para examinar, entre outros temas, a situação dos povos indígenas e os investimentos na região.

Por trás, também, uma estratégia para barrar a proposta de um imenso corredor ecológico transnacional – o Corredor Andes-Amazônia-Atlântico – que ligaria a cordilheira dos Andes, passando pela floresta amazônica até o Oceano Atlântico, para preservar “o contínuo da maior floresta do mundo no mais importante ecossistema do mundo e combater o maior problema do mundo, as mudanças climáticas.”

Que mudanças climáticas? – perguntaram eles. – Que ecossistema?

Eles não acreditam.

Muito menos na necessidade de um “corredor ecológico” que uniria os fragmentos que sobraram das nossas florestas e as unidades de conservação isoladas por interferência humana para permitir o livre deslocamento de animais, a dispersão de sementes e o aumento da cobertura vegetal na face de nossa terra azul (será que ainda é?).

A criação de tal corredor é uma ideia visionária, controversa e totalmente impensável neste momento, concordo. Vamos esquecê-la por enquanto.

Sim, vamos.

Mas daí voltar às velhas ideias de um progresso que destrói a maior riqueza que ainda temos, nossa insubstituível floresta amazônica? Destrói sua imprescindível biodiversidade? Extingue suas etnias indígenas em luta infindável pelo direito de existir?

Não saberemos nunca – se tal projeto for mesmo realizado – o quanto perderemos. Pois se eles não acreditam, a maioria de nós, sim: os efeitos de uma Amazônia careca, sangrando e ferida de morte, muito mais ferida do que já está hoje, extintos sua copa e relva verdes, seus ramos, cipós e gravetos secos, suas folhas, frutos e plantas, inclusive as ainda desconhecidas, seus animais (todos eles), sua população (toda ela), seus rios, e seus mistérios, será um mundo onde as pessoas morrerão de sede, esturricadas ou enregeladas por um clima, aí sim, com toda sua força de vingador pelo que fizeram com ele.

(Crônica publicada no jornal “O Popular” em 14/02/2019)

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“Cada cara representa uma mentira”

Esse verso de uma canção do Luiz Melodia me vem à cabeça sempre que observo com atenção as fotos dos homens e mulheres de nosso atual governo. Mas sei que alguém poderia me responder – talvez até você – com outro ditado antigo, “Quem vê cara não vê coração”.
De fato (eu ia dizer “verdade”, mas me detive a tempo porque atualmente tem gente que prefere tudo menos a verdade), então, de fato, sim, reconheço que a aparência engana e sempre nos enganou. Mas se você olhar bem para uma foto de qualquer um desses novos famosos do Planalto verá a representação clara não apenas de mentiras, mas de mentiras deslavadas. Deve ser carma.
Quer um exemplo para confirmar o que digo? Pegue qualquer uma dessas caras, qualquer uma, só para um exercício, topa? Recorte e cole em uma folha branca. Então, procure as frases que essa pessoa já disse e também as recorte e cole na mesma folha, um pouco acima da cara que você recortou e colou. Depois pegue alguma manchete sobre o que essa pessoa de fato fez neste quase um mês de governo. Recorte-a e cole um pouco abaixo da cara.
Pronto. Agora é só olhar bem para a folha e analisar o que está escrito acima e o que está escrito abaixo.
Combinou?
Com certeza, não.
Na verdade (caramba, a palavrinha me escapou, mas que seja!), na verdade tenho até um pouco de pena porque sua folha deve estar bem bagunçada. A parte das manchetes do que essa pessoa fez certamente estará cheia de incongruências, afirmações e desmentidos. É a vida – você vai me dizer -, o que se vai fazer? As pessoas têm direito a suas afirmações e recuos, não têm não?
As pessoas, sim, claro que têm. Quando somos nós, pessoas físicas, que afirmamos alguma coisa e logo depois desafirmamos, o máximo que pode acontecer é ganharmos fama de incoerentes ou perder, sei lá!, uma amizade. Mas quando alguém que representa um governo afirma alguma coisa que depois ele mesmo/ela mesma (ou alguém no escalão mais alto ou mais baixo) desafirma, instala-se uma confusão. O que vale?, o que não vale, quem manda?, quem não manda, esse tipo de coisa, e daí?, você diz, ninguém vai morrer por isso.
Não? Ninguém vai morrer por isso?
Faça outro exercício. Pegue as notícias dos assassinatos deste mês. Das invasões das terras dos nossos parentes indígenas. Das ameaças e perseguições aos ativistas. Das mulheres que foram surradas e das que morreram. Das não aberturas de inquéritos que deveriam ser abertos e dos abafamentos de outros que não deveriam ser abafados. Das ligações com grupos de extermínio, as milícias. Da retiradas dos direitos trabalhistas. Do que estão fazendo para matar a educação dos brasileiros desde a alfabetização. E matar a saúde. Matar a Embraer, orgulho nosso. Matar nossa Amazônia. Nosso pré-sal.
Recorte tudo e cole em outra folha branca.
Deu para chegar a alguma conclusão?
Então, pronto. Acabou a brincadeira. É tudo triste demais.


(Crônica publicada em “O Popular”, em 31/01/2019)

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Minha querida Antropologia

A Antropologia entrou na minha vida no exílio no Peru. Felipe e eu entramos para o curso de Antropologia na Universidad Mayor de San Marcos, muito conturbada naquele momento. Boa parte desse curso não foi de grande valor. Mas tivemos, por exemplo, Alfredo Torero como professor de Linguística, um mestre de grande sabedoria e experiência. Era magrinho, tinha a estranha doença de dormir muito pouco, e uma doçura que só um peruano sabe ter. Esperávamos suas aulas com uma expectativa de meninos frente a uma fantástica porta que se abria. Mesmo assim, não foi ele nosso principal professor e sim Rodrigo Montoya, pouco mais velho do que nós, recém chegado de um mestrado em Paris, e com um conhecimento antropológico e experiência de pesquisa que só fomos encontrar depois no Museu Nacional da UFRJ.

Com Montoya, tivemos alguns cursos fundamentais e fizemos uma pesquisa de campo em uma comunidade dos Andes que se tornou uma “lição de mundo” que nos acompanha até hoje. Continuo falando “nós” porque sei que para Felipe foi a mesma coisa. Rodrigo se tornou um grande amigo cuja convivência preservamos com todo emprenho, admiração e afeto.

Quando voltamos do Peru, tínhamos – tanto eu quanto o Felipe – o projeto muito claro de continuar na antropologia. Fizemos vários cursos no Museu Nacional onde tivemos a sorte incrível de ter como professores pessoas excepcionais como Moacyr Palmeira e Lygia Sigaud que também se tornaram amigos muito queridos. Posso dizer, sem medo de errar, que tudo o que sei de antropologia, aprendi com Rodrigo, Moacyr, Lygia e nossos colegas do Museu. Gostava imensamente do método antropológico das “histórias de vida” e trabalho de campo; sentia-me feliz tentando unir os pontos para compreender com mais profundidade “o outro”. Tudo parecia, portanto, me encaminhar para essa área que até hoje considero como a mais apaixonante que conheci na academia.

No entanto, logo as coisas mudaram. Felipe continuou o curso de mestrado no Museu Nacional mas eu fui para a USP, para o mestrado de Ciências Políticas, com Juarez Brandão Lopes, um grande professor que foi apenas meu orientador, não tive aulas com ele.

E aconteceu que na célebre e respeitada USP passei por experiências decepcionantes. Conto quais foram, embora não vá dizer os santos.

Primeira decepção: um intelectual de renome que, como outros intelectuais de esquerda, quando as greves explodiram no ABC, passou a frequentar assiduamente o sindicato dos metalúrgicos. Na época, várias coisas aconteceram nessa ligação intelectuais-operários, muitas certamente boas, outras certamente ruins. Muitos deles, vaidosos até a medula, passaram a se considerar imprescindíveis. Entre esses, meu professor. Que, em prol desses ideais maiores, deixou de lado sua pequena turma de alunos de pós-graduação. Dava presença para todo mundo, mas não comparecia às aulas. Mas nenhum de nós questionou muito aquele comportamento. Ficávamos chateados mas seria egoísmo nosso, pensávamos, exigir que ele viesse cumprir suas obrigações de professor quando ele estava, sei lá!, em outra missão tão mais importante naquele momento. Perdoávamos sua enorme irresponsabilidade para conosco. Como “chave de ouro” do final do ano, pediu um trabalho qualquer, não leu nenhum, mas nos regalou a todos com um “A”. Isso me deixou chateadíssima. Eu tinha feito um trabalho – sempre gostei de pesquisar, procurar tirar algo original do que lia, e escrever ( por algo sou escritora) – e minha frustração por não obter sequer um comentário foi grande.

Segunda decepção não com o curso, mas com o professor: com esse, lemos o terceiro volume de “O Capital” de Marx. A turma era excelente, os seminários apresentados foram excelentes, tivemos boas discussões com o professor que mais observava do que palpitava, mas tudo bem. Não me queixarei desse curso, absolutamente. O problema aconteceu no final. Ele avisou que daria “A” para todos porque todos tínhamos apresentado os seminários. Ótimo, justíssimo. Acontece que, no meu projeto de tese, eu estava trabalhando com ideologia e justamente no terceiro tomo de “O Capital” é onde Marx mais fala da questão. Me empenhei em fazer um texto procurando sistematizar justamente esse aspecto do livro. Entreguei-o ao professor, esperando que ele o lesse e me dissesse algo a respeito, o que se espera de um professor. E esperando fiquei. Só muito depois, fui saber que, como eu entreguei um trabalho, ele manteve o meu “A”, mas deu “B” para o restante dos alunos. Uma atitude sem justificativa que me tornou cúmplice de sua injustiça com a turma.

Terceira decepção, com esse mesmo professor: eu ainda não sabia do acontecido no caso das notas e o convidei para minha banca. Meu orientador me avisou que não achava conveniente; colegas me alertaram que ele e meu orientador não se davam bem; eu teimei. Queria ver se pelo menos durante o exame da banca da minha tese, “Ideologia e campesinato”, ele teria comentários interessantes a tecer. Como eu era ingênua e voluntariosa! Ele havia acabado de voltar de uma viagem à Suíça e teceu um longo comentário sobre como as vacas suecas escutavam música clássica e produziam mais leite. Depois levantou uma questão tão sem sentido sobre minha tese que meu orientador não resistiu a fazer uma piada cujo teor dizia respeito a seu deslumbramento com as vaquinhas suecas que lhe tirara o tempo de ler minha tese. Resultado final: eram três os participantes da banca. Dois me deram “A” e recomendação para publicação, ele me deu um “B”.
Daí que a famosa USP foi um balde de água fria na minha cabeça. Errei na minha escolha de professores, e não me interessei em procurar outros. Voltei a fazer meus principais cursos no Museu Nacional.

Eis, então, que a Marco Zero entrou na história. Fundamos a editora em 1980. Felipe, Márcio Souza e eu.

A princípio, minha ideia era continuar a editora enquanto fazia o doutorado.

Não deu.

Abandonei minha querida Antropologia, adeus!

Felizmente, não foi um adeus para sempre.
Quando comecei a escrever percebi o quanto seus métodos eram importante para meus projetos como escritora. Foi como antropóloga que aprendi a pesquisar e aprendi também o imenso valor das “histórias de vida” e da necessidade de ir a campo para “ouvir o outro” – elementos que, particularmente, informam toda a minha literatura.

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Aniversário de São Paulo: um romance sobre a cidade

Em 2012, publiquei “Pauliceia de mil dentes”, um “romance multidão”, como disse Silvanna Oliveira em sua tese sobre o livro.
Hoje, quando a cidade comemora seus 465 anos, coloco abaixo a “orelha” do romance, escrita pelo querido Italo Moriconi.

Foto Zé Gabriel

ROMANCE RIZOMÁTICO

Italo Moriconi

Paulicéia de mil dentes é um texto que se junta à vigorosa tradição da narrativa paulistana. Ah, São Paulo, terra de esperanças desmedidas, desmedida da megalópole sul-americana espraiada a perder de vista… Nela, as histórias de vida se desenrolam como fios entrecruzados, reproduzindo o próprio emaranhado das ruas e bairros a perder de vista. Ao narrar o enredado de diversas vidas no enredo das ruas e prédios, Maria José Silveira percorre a geografia da grande cidade, do centro à periferia.

Geografia social, geografia afetiva. Suas paisagens-sentimentos, enquadradas pelas arestas do urbano, configuram traçados de ambições, de frustrações, sobretudo a história triste de um destino cortado pelo meio. Entre a morte gratuita da namorada do motoboy e o drama central do romance, ele também afinal uma tragédia também gratuita, observamos a presença da loucura e da violência. Loucura do trânsito, loucura do indivíduo egoísta, loucura e fantasia urdindo o cotidiano.

Maria José constrói uma visão caleidoscópica da cidade. São Paulo caleidoscópica, estroboscópica, rizomática, nervosamente arlequinal. Colcha de retalhos de sonhos nunca completados, mas também de realizações e vitórias.

Retrato de uma São Paulo extremamente contemporânea, com toda a sua diversidade: da figura errante e ubíqua do motoboy ao fanatismo religioso às sexualidades alternativas. Somos trezentos, somos trezentos e cinqüenta mil…

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Sexta de crônicas: Passado e futuro

Para Laura

Como era bonito um varal com roupas coloridas balançando ao vento no meio do quintal! Esvoaçando coloridas e alegres, ao sabor do cheiro reconfortante de roupas limpas. Hoje, coitadas!, nos varais das áreas de serviço de apartamentos e casas, sem espaço para balançar, as roupas ficam paradinhas, saudosas do tempo em que foram felizes. Nada tem de bom pender de varais modernos que praticamente as amontoam e escondem; menos ainda serem espremidas pela quentura artificial das secadoras. Muitas até se encolhem depois de passar por esse ordálio.
Outra coisa que mudou na vida delas foi o ritual de passar da bacia de alumínio para o varal. Erguidas por mãos femininas limpas como elas, para logo serem sacudidas ao vento, era um momento feliz. Mas acabou-se o que era doce. Hoje, amassadas, elas são tiradas do fundo das máquinas de lavar e ali mesmo sacudidas, sem poesia nenhuma, como quem sacode quase com raiva um troço qualquer para logo se livrar dele. Dá pena.
As coitadas perderam até o banho de sol no quarador.
Pior: perderam o que era o começo de tudo, o alegre mergulhar na água espumante do tanque, ensaboadas e esfregadas por mãos humanas que nesse momento, talvez por cansaço ou desprazer, não agissem com a cortesia devida – lavar roupa no tanque nunca foi nem será tarefa fácil – mas, exatamente por isso, imaginem o contágio da felicidade daquelas mesmas mãos no último tramo da tarefa que era o de tirá-las da bacia prateada, sacudi-las ao sol e prendê-las ao vento no varal.
Nossas roupas perderam essa alegria.
Mas não perderam justo a pior parte da vida antiga delas: a passagem de um ferro quente. Ainda que as roupas contemporâneas sejam poupadas de conhecer o antigo ferro de passar com sua barriga de brasas ardentes, a verdade é que nenhuma delas gosta de nenhum tipo de ferro, por mais modernoso que seja. Aquele chiadinho petulante queimando o resto de umidade que porventura elas guardam deve ser insuportável. Não à toa muitas saem endurecidas, rígidas mesmo, desse inferninho que até hoje são obrigadas a atravessar.
Alvíssaras, no entanto! Tudo indica que também essa parte está mudando. Não sei se já chegou à casa de vocês, mas as roupas dos jovens conscientes de hoje estão em franca rebelião. É um desperdício de energia, dizem, é contra natural, é anti-ecológico: “Já está passando da hora da humanidade se libertar do maldito ferro de passar.”
Daqui do meu canto, acho que a rebelião tem base. Toalhas de banho, por exemplo, duram mais se não forem passadas, e conheço muita gente que tem como questão de princípio não passar lençóis. Até a própria indústria têxtil – raposa à espreita – vem apoiando o movimento e fabricando tecidos que não precisam disso.
A tendência do futuro, portanto, será poupá-las. O que, pesando prós e contras, seria uma coisa boa. Por isso mesmo, difícil de acontecer por enquanto. Do jeito que as coisas retrocedem neste país, o mais provável é que a gente volte para o ferro de brasa.

(Crônica publicada em “O Popular” em 17/1/2018)

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Sexta de crônicas: Um espantoso caso de bioengenharia

Lá ia eu começar este texto dizendo que gosto de um bom cupinzeiro, mas me detive a tempo. Não seria verdade. Não é que eu goste. É que me interessam. Podem chamar de deformação cultural mas aqueles morrinhos preenchendo a vastidão do cerrado sempre me intrigaram um pouco. Desde criança, achava legal quando os via, pela janela do carro, na paisagem das estradas. E mesmo sabendo que não eram apreciados, considerava uma maldade quando, em algum descampado, via um desses montinhos esborrachado pelo pé ou mão de sabe-se lá de quem. Pensava que era ali que eles moravam. Ainda não sabia que os murundus são formados pela terra que os cupins escavam para construir os túneis subterrâneos onde, de fato, moram.
Com o tempo, e por outras paisagens, fui deixando de ver cupinzeiros. E se houve um momento em que eu até sabia se eles eram sinal de terra boa ou ruim, hoje fico na dúvida. Um conhecimento que, a mim, urbana até o tutano dos ossos, nunca fez falta.
Ainda assim, e com meu zero conhecimento sobre o assunto, o fascínio de criança persistiu na idade adulta. Até hoje, quando em alguma estrada vejo um cupinzeiro da janela do carro, minha alegria só é menor do que quando vejo uma bela boiada branca, com seus mugidos e resfolegos.
E eis que agora fico sabendo que eles – os danados dos cupins – são os construtores da maior e mais antigo sistema de túneis interligados, uma verdadeira “megalópole cupinzeira”, que se estendem por cerca de 230 mil quilômetros quadrados entre a Bahia e parte de Minas Gerais! Maior que a Inglaterra! Os pesquisadores que o descobriram chegaram à conclusão de que esses mais de 200 milhões de montes cônicos foram escavados por uma mesma espécie de cupim, entre 690 e 3820 anos atrás.
Visto de cima (fui ver no Google) é impressionante. São murundus bem maiores do que jamais pensei possível. Mas não vi neles a graça dos pequenos que, de tão bem feitos, dão a impressão de ter certa coesão interna. Esses, em comparação, são gigantes. Têm o mesmo formato cônico, mas cerca de 2,5 metros de altura por 9 de largura na base. E são mais esparramados, dando a impressão de desleixo, como se a receita do bolo tivesse desandado. Imagina! É claro que não desandou, pois aí estão eles espantando o mundo. Pelos cálculos dos pesquisadores, são mais de dez quilômetros cúbicos de terra escavada, o equivalente a quatro mil das Grandes Pirâmides de Gizé, no Egito.
Portanto, se ouso criticar a estética aparente dos montes produzidos, em nada diminuo a grandiosidade do que fizeram.
Imagino-os aos quatrilhões ou mais, indo de lá para cá em seus milhares de quilômetros de túneis, admirando orgulhosos seus subterrâneos. Ainda bem que só saem dali para buscar as folhas com que se alimentam. Caso contrário, o que seria de nós?
E mais não digo por que neste 2019 qualquer absurdo pode ser possível aqui no Brasil.

Crônica publicada em “O Popular” em 03/01/2019

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Inauguro neste janeiro uma atividade de “leitura crítica” de livros de ficção: romance, contos, literatura para jovens e crianças.

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