Sexta de Crônicas: Meninas decretadas e outras mais

O que é isso de meninas “decretadas”? Quem são elas? Decretadas a quê?

À morte, meu leitor, minha leitora, à morte.

Meninas adolescentes que, por um motivo ou outro, todos absolutamente desprezíveis, são “decretadas” à morte nas redes sociais. Meninas pobres, nem é preciso dizer. Meninas que se recusam a namorar um rapaz, pintam o cabelo da cor da gangue de outro território, meninas que se recusam “a fazer um corre”, ou brigam com alguém de alguma facção, e de repente veem seu nome e foto nas redes, marcadas, “decretadas”, e logo são suas fotos mortas que aparecem nas mesmas redes sociais, mortas, torturadas, vilipendiadas, subtraídas de vida e dignidade.

Que novo horror é esse?

É o que uma reportagem da Folha de São Paulo mostrou na semana passada, e que está acontecendo agora no Ceará, como poderia estar acontecendo em qualquer outro canto do país onde o feminicídio cresce de modo assustador. “Um menino não morreria na mesma situação”, diz o professor Luiz Fábio Paiva, professor do Laboratório de Estudos da Violência na Universidade Federal do Ceará. “Há um controle moral dessa menina.” Há uma completa falta da empatia por essa menina. Há um tratamento horrível da sociedade para com essas meninas. Há um fechar de olhos para elas. Meninas que morrem a todo momento. Meninas que morrem de bala perdida, sentadas no sofá de sua casa como aconteceu semana passada no Rio. Meninas que morrem indo para a escola. Meninas que sofrem abusos de toda sorte. Quem der uma espiada nos dados estatísticos verá que entre as principais vítimas de violência sexual, 56,4% são crianças, especialmente meninas. E 65% dos agressores são homens conhecidos na ou da família.
Como pode ser isso?, de onde vem essa sanha?

Onde está aquele povo amigável que um dia talvez tenha existido, ou de fato nunca existiu? Onde está aquele país onde eu fui menina, onde minha filha foi menina, onde minhas amigas foram meninas, onde as amigas da minha filha foram meninas? Brincávamos nas ruas, namorávamos quem quiséssemos, pintávamos nossos cabelos da cor que nos agradasse. O mundo parecia estar do nosso lado e nosso maior temor era um castigo dos pais. Claro – meninas de uma classe privilegiada que sempre fechou os olhos ao virar os lados -, jamais corremos tantos perigos. Mas agora vejam o resultado de tanto fechamento de olhos: a desigualdade brutal, com todas as suas injustiças e perigos, vem crescendo exponencialmente e montando seu cerco. Que menina hoje, adolescente, pode confiar no mundo como confiávamos? Que família hoje – seja de que classe social for – pode dizer que não tem nada a ver com a violência crescente do país?

A empatia, essa virtude tão carente dos brasileiros nos tempos atuais, começa com nossos irmãos, nossos vizinhos, e passa para a rua, para a cidade, o país, o mundo – ou não é.

Você que me lê sabe disso tanto quanto eu. As meninas “decretadas” são nossas filhas. Os sinos dobram por todos nós.

Crônica publicada em “O Popular”, em 16/01/2020

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E EIS QUE ELE CHEGOU!

O segundo dia, o primeiro útil, deste novíssimo ano chamado 2020.

Bonito isso: ter apenas dois dias. Bom. Bacana mesmo. Algo a se festejar. Mas o que poderemos desejar a este ano novinho em folha? Que tal chamar três fadinhas para fazerem suas previsões?

Elas chegariam juntas e, a mais sonsinha, toda alegre, iria logo elogiando o recém-nascido e batendo palmas: Que fofinho este nenê! Cabelinho, olhinho, orelhinha, nariz, boquinha, bracinho, cotovelinho, mãozinha, perninha, joelhinho, pezinho, tudo certinho! Parabéns, coraçãozinho da titia!

A segunda fada, meio cega, olharia sério e piscaria duas vezes: É ele mesmo? Aquele mesmo fenômeno repetitivo que nos é imposto a cada 365/366 dias? Que saco! Nem nisso eles variam!

Já a fada terraplanista, com veemência, declararia: Enfim chegou quem vai provar, como dois mais dois são três e não cinco como queria aquele suposto artista baiano, que a terra é plana e o aquecimento global uma conspiração de trouxas, pirralhas e esquerdistas.

Teremos dias de sol? perguntaria um dos presentes.

Muitos, a primeira fadinha responderia feliz. Dias bem lindinhos para esse nenê da titia!

Teremos chuva? perguntaria outro.

Igualmente muita, a fada meio cega ajeitaria os óculos sem saber direito se a pergunta lhe fora dirigida. Inclusive, talvez mais dias de chuva em algumas partes, e menos em outras. Assim, em umas, haverá desertificação. Em outras, inundações. Mas uma coisa não compensará a outra porque entre umas e outras, incêndios acontecerão, agrotóxicos se espalharão, abelhas desaparecerão, florestas sucumbirão, bichos extinguir-se-ão, serumanos morrerão e…

E finalmente ficará provado que a terra é plana!, interromperia sem querer perder tempo a terceira, enxugando a babinha a escorrer da boca. Sem nenhum aquecimento global!

Teremos comida na mesa de todos e cada um?, perguntaria alguém lá do fundão.

Sim, sim, responderia outra vez a primeira, toda sorrisos. Papinha bem gostosa para o nenê comer e ficar saudável e forte que nem a titia.

Teremos água para todos?, perguntaria outro.

A fada cegueta, ainda em dúvida se a pergunta seria para ela ou não, por via das dúvidas ajeitaria os óculos e acharia melhor responder de uma vez: Isso vai depender do que for feito antes quanto à queimada das florestas, a consequente escassez das chuvas, os cuidados dispensados ou não ao saneamento básico e à despoluição dos rios, à gratuidade ou não das águas potáveis e….

E a terra plana ficará mais plana e o aquecimento global deixará para sempre de existir, interromperia a terceira, não contendo sua animosidade e falta de educação.

Teremos luz?

Luz do sol e luz da lua, responderia ainda mais alegre a fadinha meiga. Olha pra titia, minha lindurinha: bilú bilú tetéia!!

Teremos cultura livre, sem censura, e educação universal para todos?

A fadinha cegueta limparia vagarosamente os óculos, tentando pensar o que seria conveniente responder. As perguntas difíceis caem sempre para ela. Mas antes que abra a boca, a voz da terceira a interromperia, impositiva:

Evidentemente. Com 10 de terraplanismo e 0 de aquecimento!

(Crônica publicada em O Popular em 2 de janeiro de 2020)

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Sexta de crônicas: Hoje a escrita me tomou pela mão e me trouxe aqui

Não que eu já saiba o que pretendo escrever, que já tenha tudo praticamente escrito na cabeça como vários escritores afirmam ter. Ao me sentar frente ao computador, tenho uma ou outra ideia, uma ou outra vontade de escrever sobre esse ou aquele assunto, mas quase sempre é mesmo a escrita que me leva pela mão até o final do texto.

Hoje, particularmente, depois de ler o jornal, fiquei com a mesma sensação corriqueira agora lamentavelmente cotidiana, de querer entender como viemos parar nesse momento surreal do qual fazem parte as notícias que leio, e não conseguir.

Há meses deveria ter começado a trabalhar no meu próximo romance, e tampouco consigo. A concentração e dedicação que a escrita de um romance exige, a cada manhã depois que leio o jornal, vai pro brejo.

Por que, então, não deixo de ler jornal, pelo menos por um tempo?

É que desde muito cedo, meus irmãos e eu aprendemos a ler jornal todos os dias, um legado do nosso pai. A necessidade de saber, pelo menos no epifenômeno da aparência, um pouco do que acontece ao nosso redor. Por mais que os jornais hoje estejam com tremendas dificuldades para darem minimamente conta disso, são eles que trazem, ainda que precário, um instantâneo do mundo para nossa casa. Atualmente, também as redes sociais, o que só agrava o vício.

Melhor dizendo, hábito. Que nunca me prejudicou antes. A leitura seletiva que eu fazia quase sempre me acrescentava algo, nem que fosse apenas uma vaguíssima ideia do que me esperava lá fora.

Agora, não.

Agora as notícias o que trazem é angústia, desesperança. Indignação. E desses sentimentos, os mais difíceis são a desesperança. A impotência.
Suponho que isso tenha algo a ver com a idade. A juventude tem consigo outro ânimo e a beleza de saber que o futuro é dela. Sua indignação a prepara para reivindicá-lo. A maturidade, por sua vez, também é bonita. Já conheceu revezes mas ainda conserva, até mais aprimorada, sua capacidade de ver e fazer transformações.

Mas aos da minha geração, os mais velhos, hoje nos cabe perguntar: ainda teremos a chance de nos banhar outra vez nas praias do Nordeste sem temer a contaminação que pode durar décadas? Ainda teremos a tranquilidade de comer peixes, camarões, mariscos sem verificar a procedência? Ainda veremos as famílias de pescadores nordestinos conseguirem garantir a mudança de seu modo de vida até que o veneno dos vazamentos do petróleo seja debelado? Ainda veremos a recuperação da riqueza da flora e da fauna marítima da costa nordestina? Da Amazônia? Do cerrado? Veremos algum salto positivo na educação? Na saúde? O país voltar a se dar as mãos?
Ou, pensando para além das nossas fronteiras, veremos os indígenas bolivianos hastearem outra vez sua bandeira colorida no mastro dos poderes? Veremos o Chile voltar a cantar nas praças? Veremos a América Latina se livrar de uma vez de seu papel de quintal rico do poder do Norte?

Crônica publicada em O Popular, 5/dezembro/2019

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Sexta de crônicas: A sentença de cada cabeça

A morena passa, um enorme decote nas costas onde a tatuagem de cor preta sobressai como um anúncio em neon: “SÓ DEUS PODE ME JULGAR”.

Atrás, junta gente.

Só pode ser prostituta, pensa a mulher carola, perfume rançoso de ressentimento. Não perde por esperar, safada! Deus vai te julgar mesmo e te mandar para o fogo do inferno. Mulher que em vez de ser decente prefere se ostentar assim merece. Sem-vergonhice pura. Deus castiga, tu vai ver.

Que diferente!, pensa a mocinha mais atrás com sua a mochila. O que será que ela fez? Por que se expõe assim, pobrezinha?

O office-boy ri debochado: Que qué isso? Surubou muito, muié, foi? Quando eu contar, num vão acreditar. É cada uma!

O senhor de terno surrado meio que vê a mulher caminhando a sua frente, inadvertidamente lê a frase mas não mexe um músculo do rosto. Se mexeu foi para espantar qualquer pensamento a respeito como se espanta mosca. Está atrasado, e dessa vez não tem desculpa. Merda de vida! Apressa o passo e ultrapassa a morena, zero de interesse.

Atrás dela, o grupo cresce. Três rapazes farejam distração e se aproximam, assanhados. Não se conheciam mas riem como parceiros que se reconhecem desde que há pouco saíram do esgoto. Um grita: Vai pra zona, vagabunda! Sem se virar, ela apressa o passo, enquanto outro, rindo alto, quer passar à sua frente mas, percebendo que os dois parceiros tiveram que atravessar a rua, murcha a valentia.

A morena ultrapassa a velhinha de bengala. Ao notar certa agitação nos que vêm atrás, a velhinha para e olha para onde eles olham. Que coragem! Será uma expiação? Dizem que tatuagem é muita dor. Judiação!

Castigo auto imposto ou declaração de princípios?, pensa a jovem mais atrás. Jornalista, conjectura: valeria a pena puxar conversa com a mulher, daria uma reportagem? Fanática, possivelmente evangélica, que houve por bem obedecer alguma ordem do pastor. Que pecado cometeu? Por homem? Abandono de filho? Pequenos furtos e roubos? Claro que não vai me dizer nada. Deixa ela, que já tenho minha pauta.

Outro senhor finge que não vê. Entende perfeitamente o recado nas costas da mulher e não vai se meter. Ele não é Deus, é?

Duas mocinhas sorriem entre si quase com deferência. Se estivessem sozinhas, não teriam sorrido. Já têm idade para saber de algumas dores do mundo.

A mãe aperta a mão da filha pequena. Ainda bem que Shirley não sabe ler, boa bisca não deve ser essa daí. Com certeza pecou. Muito.

Já outro cara, quase um menino, celular na mão, tira uma foto. Talvez coloque no blog, para os likes. Dá uma corridinha para pegar a mulher de frente, mas tropeça e provoca risos de quem reparou em sua manobra. Envergonhado, desiste.

E eis que o que era doce acabou-se. As costas tatuadas desaparecem descendo a escada do buraco do metrô. Só a mãe com a filha também descem, embora a mãe preferisse pegar outra entrada. Os demais seguem seus caminhos.


(Crônica publicada em O Popular, em 21/11/2019)

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Pequena entrevista para Zero Hora – “A mãe da mãe…” – Feira de Livros de POA

Entrevista feita por Carlos André Moreira.

O lançamento original de A mãe da mãe de sua mãe e suas filhas já tem quase duas décadas. Como vê a trajetória do livro ao longo desse tempo, que inclui prêmios e a recente boa repercussão de uma edição em inglês?
Esse é um romance que só tem me dado alegrias. Desde seu lançamento, em 2002, quando recebi o Prêmio Revelação da APCA. Ele recebeu resenhas excelentes e várias
reimpressões, seus direitos para serialização foram comprados pela TV Globo (o que, por razões alheias, não chegou a ser concretizado), e foi adotado, lido e discutido em várias escolas e faculdades. Recentemente, as publicações em outros países também foram muito bem recebidas. Quando tudo isso acontece, creio, é porque o romance teve a sorte de contar uma história que as pessoas queriam ver contada. Nem sempre acontece.

Seu livro narra uma história contínua de sobrevivência e resistência que se repete a cada nova geração de mulheres. Seu relançamento agora se dá em um momento político e social bem diverso da primeira edição. Como vê a situação das mulheres nesses dois momentos?
Nesses séculos certamente muita coisa mudou. As mulheres conquistaram direitos muito difíceis de serem retirados, como estudar, ter uma profissão, votar, por exemplo. Mas é uma luta que ainda tem muito chão para andar. Na questão dos salários, das profissões e até no caso da literatura, para dar um pequeno exemplo. Três anos atrás, as escritoras Maria Valéria Rezende e Susana Ventura, com um pequeno grupo, começaram a organizar o Mulherio das Letras cuja proposta, entre outras, era justamente enfrentar o problema da invisibilidade das mulheres escritoras. O que ninguém poderia suspeitar é que mais de cinco mil mulheres apareceriam para se unir ao movimento. Mais de cinco mulheres escritoras no Brasil, imagine! Por outro lado, agora, neste momento específico que estamos vivendo, em muitos outros aspectos não posso dizer que a situação esteja melhor. Inclusive pela violência que aumentou, e é assustadora. As mulheres são agredidas, estupradas, assassinadas, de um modo que não podemos suportar. Pelas estatísticas recentes, uma mulher é assassinada a cada duas horas em nosso país. Até quando isso?

– Além de acréscimos e supressões, a nova edição do livro inclui um capítulo acrescentando uma 21ª personagem nascida por volta da época em que o livro foi lançado e acompanhando sua vida até a última eleição presidencial. Dada a própria estrutura de seu livro, pretende repetir periodicamente essa experiência de retomar a obra e “atualizá-la” com um personagem que ofereça um novo olhar aos anos anteriores?
Quem dera eu pudesse viver para escrever pelo menos sobre a geração seguinte. A dos meus netos menores. Eu adoraria. Mas só se pudesse escrever sobre um tempo bem melhor que o atual.

Fala-se que o romance histórico de fôlego épico passa por um período de baixa no Brasil, mas este século 21 viu o lançamento de livros como o seu ou Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves, que não fogem desse desafio de encarar um longo intervalo temporal, ainda que mudem o foco para sujeitos e personagens normalmente deixados à margem. Escrever a história é também disputá-la?
Ótima maneira de colocar o que é escrever a história, essa sua. E é exatamente assim também nos livros de ficção. Escrever é uma eterna disputa de visões pois a História é feita de conflitos, transformações. Além disso, é a partir do presente que se escreve o passado. Da maneira como o contemporâneo, sempre contraditório, entende como é que viemos parar aqui e o que está acontecendo conosco agora. Esse também é um dos motivos pelo qual não há uma História única, uma “verdade” escrita com tinta indelével. E o olhar dos escritores é formado pela contemporaneidade na qual estão inseridos. Cada um escreve a partir de sua visão, formada pelas contradições que vive e viveu. E é esse o nosso mundo: em constantes disputas e transformações.

Novembro, 2019

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Sexta de crônicas: OBSERVAR BEBÊS

Foto compartilhada do Facebook do João Lopes

Ter um bebê por perto, filhos ou netos, ver seus primeiros movimentos, primeiras palavras, nada mais enternecedor. Eu já havia quase me esquecido de tudo isso, até que outro bebê nasceu na família, e agora engatinha pela sala.

Então, observo.

Aos nove meses, Gael abandonou seus sons iniciais e começou a articular consoantes com vogais, formando sons que se assemelham a mamãe, papai, nenê. Com seus dedos pequeninos, está tão exímio nos movimentos de pinçar que, tomado de interesse pelos fiapos do tapete, pretende arrancá-los um a um. Depois, vai se agarrar em qualquer borda fixa que possa lhe servir de apoio – um sofá, uma parede, a mão de alguém -, e se levanta. Desde que conseguiu se firmar nas pernas, é isso que lhe interessa. Parece entender que engatinhar é apenas curta etapa para chegar à nova fase de caminhar ereto. É o que deseja: se apoiar nos pés, levantar o tronco e seguir no rastro milenar de seus antepassados. Por isso, treina incansável o equilíbrio, ainda que inúmeras vezes encolha os dedinhos de um ou dos dois pés e se esborrache no chão, sem ligar muito já que fralda também cumpre um papel de amortecedor. Ri. E levanta outra vez. E lá vai. Engatinhando, levantando, se equilibrando, batendo o bumbum no chão. E soltando sua gargalhada cascateante.

Como ri esse bebê!

Ainda suga o peito da mãe, ainda é totalmente dependente do mundo dos adultos, mas já tem vontades próprias e tenta suas primeiríssimas autonomias. Pegar os brinquedos, jogar fora, voltar a pegar, voltar a jogar fora, e rir.

Como é feliz esse bebê!

Penso em uma foto de Piaget que vi há pouco tempo na Internet (reproduzida abaixo). O grande estudioso do comportamento infantil está no estúdio, sentado em sua poltrona, tão cercado de livros e anotações que parece literalmente soterrado. Na escrivaninha abarrotada, vemos o que pode ser uma garrafa térmica, e talvez um cinzeiro. Creio que jamais se viu um estúdio tão atolado de papéis e anotações. O que acho até natural para quem trabalhou a vida inteira observando milhares de crianças, anotando detalhadamente o ritmo de cada uma, e sem computador. O que na foto parece desarrumação é o acúmulo do trabalho feito para chegar a sua percepção fundadora do processo do desenvolvimento cognitivo das crianças.

Piaget foi incansável em seu trabalho. Provavelmente, também um sujeito realizado: nada mais gratificante do que ver a imensa felicidade de uma criança por um quase nada. Um objeto que desaparece e aparece, o “Cadê vovô?… Achou!”, e todas aquelas brincadeiras absolutamente bobas que só admitimos co-protagonizar para ouvir seus risos em cascata.

Então, volto ao Gael e constato essa sua pura e contagiante alegria. Se alguém me observasse a seu lado, veria que me deixo contagiar por ele, e como se nada mais existisse, mergulho em seus risos de descobertas.

É certo que esquecemos como é ser bebê, mas quem sabe desse tempo primeiro nos reste a marca de uma felicidade possível, que talvez, com sorte, permaneça em nós para sempre.


(Crônica publicada em O Popular em 24/10/2019)

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O DIA DO FOGO

Imagino a euforia criminosa deles.

O bando de fazendeiros, madeireiros, empresários e outras personalidades da região fazendo reuniões pseudo-sigilosas e criando grupos de whatsapp com mais de 70 integrantes para combinar o dia. Capacidade de organização eles têm. Fizeram até vaquinha para a compra de combustível – óleo diesel e gasolina – e pagar os motoqueiros contratados para espalharem a mistura inflamável pelas estradas de terra nas bordas da floresta.

Era pra ser memorável. Pra mostrar trabalho. Mostrar apoio ao líder federal.

E foi.

Conseguiram chamar não só a atenção do líder como a de vários Chefes de Estado de outros países! Que sucesso, hein!? Falaram da gente até na Europa! Isso é que é saber trabalhar!

O fogaréu quando queima pra valer, e se espalha, parece coisa de cinema-catástrofe, coisa de efeito especial. Aquelas cores todas, fumaceiro subindo que nem nuvem negra anunciando tempestade, o barulho das chamas crepitando, galhos caindo, bichos correndo enlouquecidos pra escapar do inferno, pássaros consumindo fumaça e se envenenando. Fala sério: é um fim de mundo bonito pra se vê de longe. Pena que ninguém filmou. Ninguém pensou nisso. Também é difícil filmar uma coisa dessa. Só se fosse um cineasta daqueles bão.

A queima coordenada de uma vasta região da floresta amazônica se alastrou como nunca visto antes, nem mesmo pelos satélites.

Beleza, hein!?

Entraram para a História. Novo Progresso, Altamira, o entorno da BR-163, no Pará, tiveram um aumento de focos de incêndio difícil de calcular. A destruição provocada na floresta, entre os animais, e por todo o meio ambiente levará dezenas de anos para ser recuperada, se é que um dia será.
Imagino as comemorações. Parece que teve até Boi de Rolete. Afinal, para que serve tanta mata a não ser para impedir o progresso deles? E se o mundo que gosta tanto de floresta vier reclamar, a gente diz que foi o tempo seco, foram os indígenas, cambada de selvagens, todo ano é assim. E nosso Homem na TV vai dizer que o povo estrangeiro, é melhor irem cuidar dos bosquezinhos das terras deles que da nossa floresta cuidamos nós, hein? E também vai dizer que não teve nada de mais, que tão fazendo tempestade em copo d´água, ah, não!, copo d´água não!, melhor dizer que tão fazendo queimada em palito de fósforo! Quá, quá, quá! E passa a cachaça pro povo, e uísque pra “diretoria”, que é preciso brindar ao trabalho bem feito!

Mas e se continuarem as investigações, hein? Já pensou nisso direito? E se deixamo algum rabo pra trás?

Qué isso?? Deixamo rabo nenhum. E tamo fechado com gente de poder. Municipal, estadual e federal. Ninguém toca na gente. Nessa nossa terra plana, quem vence é nóis, os mais fortes, os armados. Os mais espertos. O resto é resto.

PS: Até hoje, quase três meses depois do Dia do Fogo, ainda há focos de incêndio na Amazônia, enquanto as investigações se arrastam a passos de lesma. Dava até para fazer uma aposta. Quem acredita que esse grupo de organizadores será punido por seu crime odioso contra o meio ambiente e a humanidade? Eu, não.

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