Vigésimo-primeiro dia


Deu nos jornais:

A Terra está tremendo menos, descobriram os sismólogos.

Com o isolamento obrigatório em grande parte do planeta, é possível detectar menos ruídos sísmicos – vibrações provocadas pela circulação pelas ruas e estradas. Essas vibrações da crosta terrestre diminuíram e ela se move menos.

Não é bonito isso?

Sem contar que a poluição também diminuiu muitíssimo – algo que pode ser percebido por nós, nas grandes cidades, e comprovado pelas fotos tiradas dos satélites que nos rondam.

Ainda que possa ser contraditório – já que o coronavírus ataca sobretudo a respiração dos humanos – a Terra está respirando melhor.

Isso também pode ser considerado bonito.

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Vigésimo dia

Assim que acordei – longe de ser muito cedo, ando acordando bem mais tarde do que antes. Assim que acordei senti o silêncio. Abri a janela.

Rua vazia, calçada vazias. Nenhum barulho de carro, nenhum grito de brincadeira de crianças, nenhum cachorro latindo.

Ontem: 299 mortos no Brasil; 7.910 casos confirmados.

Mortos que soltam seus ais! na solidão e são enterrados sem velórios.

Terá, por fim, minha rua compreendido que nosso único lugar possível é dentro de casa?

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Décimo-sétimo dia

Saímos de carro.

Vontade de ver como estava a cidade unida à necessidade de tomar a vacina anual da gripe. Triste combinação de curiosidade e precisão.

Vimos a cidade com as lojas fechadas e muitos bolsonaristas andando pelas ruas, conversando em grupinhos, gente sem máscara, como se nada. Como se morte nenhuma estivesse esperando por eles. Por isso digo que são bolsonaristas. A maioria. O chefe diz que pode, então pode.

Da janela do carro, olho-os e tenho pena. Não raiva. A raiva está grudada no chefe.

Pequena notícia de utilidade pública:
fomos vacinamos no carro, de maneira organizada, rápida, eficiente. Naquele posto de saúde, UBS, da Faculdade de Medicina Pública, na Dr. Arnaldo, entre a Cardeal Arcoverde e a Teodoro. Pelo menos algo está funcionando. Parabéns aos que estão cuidando disso.

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Décimo-quinto dia

Segunda-feira.
Farei um favor a mim mesma. Retomarei um romance que havia começado a escrever um bom tempo atrás.
Pelo menos, nessas poucas horas da manhã que restam (já são 11:31, vejo no pé do computador) viajarei até a hora do almoço.
Até a volta!

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Décimo-segundo dia

Hoje as notícias de carreatas bolsonaristas pelo país, pedindo o fim do confinamento – inclusive na esquina da minha rua -, me abalaram.
A ignorância suicida e assassina, que empesteia nossas cidades como um segundo vírus, é sinal do aprofundamento de uma loucura à solta que povoa de sombras nosso presente e – o mais terrível – nosso futuro.

Em momentos assim, como escrever? Sobre o que escrever?

Melhor ir por a roupa na máquina para lavar e fazer a faxina no banheiro. Cansar o corpo, tirar a mente do caos e focá-la na ordem e limpeza da casa.

Pelo menos isso ainda se pode fazer.

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Do abrigo de nossas casas

A essas alturas – e pelo que estamos vendo – boa parte dos que votaram no Bolsonaro está, se não já convictamente arrependida, a caminho de se arrepender.

Não os fanáticos, os milicianos, os que consideram o poder como algo a ser exercido em proveito próprio, mas os que se auto enganaram querendo ver nele um “mal menor”.

Meu cérebro tem que dar cambalhotas para entender como um cara que, tão logo pôs as patas no panorama político só fez trapalhada e estupidez; que jamais demonstrou ter a menor ideia do que estava lá para fazer; que sempre deixou claro seu gosto pela tortura, sua misoginia e seus preconceitos; que foi sempre o palhaço carregado de bazófia e displicência nesse circo de incompetência e ignorância que botou o país de cabeça para baixo; como um cara assim poderia se avultar para alguém como um “mal menor”.

Impossível entender como a maioria dos eleitores goianos foi capaz de votar justamente nesse “mal maior”.

O coranavírus, claro, não chegou aqui por culpa do voto de vocês, mas o estado em que ele encontrou o país, sim. A incompetência com que está sendo recebido, sim. As bravatas com que tem sido tratado, sim. A malignidade assumida de alguém que zomba da ciência e dá as mãos, abraça, cospe, solta suas gotículas salivares em um amontoado de fanáticos, descumprindo as orientações do seu próprio ministro da saúde e dando um exemplo arrasador para o país, sim. Já fizeram as contas de quantos mortos sairão desse ato de soberba?

Quero crer, agora, que os melhores entre vocês estarão se remoendo de remorsos como mal nascidas flores que não vingam em nenhum caramanchão. E que, como todos nós, pelo menos isso ainda espero, já estarão restritos a suas casas, saindo às ruas apenas para o essencial. Sem ver amigos nem parentes, nem mesmo
os filhos, muito menos os netos. Sem caminhar pelos bairros e parques.

Estar em casa significa estar em casa mesmo. Todos da família. Todas as famílias. Todos da cidade.

Neste momento, essa é a parte que nos cabe. No mínimo. Dos mínimos.

Da minha janela, vejo São Paulo com suas ruas esvaziadas – quase me escapa a palavra “tranquilas”, mas não. Não há tranquilidade no vácuo deixado por carros e pessoas. A cidade está tensa, a expectativa é pavorosa, o pior pode chegar. Lamentavelmente, estamos apenas no começo. Impossível prever o fim e o que virá depois.

No entanto, ao longe, uma boa nova se agita: remédios estão sendo testados; vacinas estão sendo pesquisadas com urgência. A ciência, sempre a ciência, pode ser que logo nos dê uma trégua. Pode ser que chegue a tempo. Que evite o pior.

Até lá, sejamos pacientes e solidários. Cuidemos de nós mesmos e dos que estão próximos. Não é fácil ficar em casa com a sensação de perigo lá fora, mas daremos conta. E seguros em nossos abrigos, deixemos o vírus passar e se estertorar no vazio das ruas das cidades.

(Crônica publicada hoj em “O Popular”, 25/03/2020, mas escrita na terça, antes do discurso histórico do genocida, e antes que nas ruas vazias de São Paulo os bolsominions fanáticos saíssem dos seus esgotos.)

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Décimo dia

Estive lavando as frutas que Felipe comprou. Frutas com casca que podem ser lavadas e esfregadas com água e sabão, seguindo as orientações.

Frutas costumam ser bonitas. Momento ideal para reparar em suas cores. Goiabas esverdeadas. Peras em tons distintos de verde, mostrando às vezes manchas douradas ou mesmo avermelhadas. Mamões começando a mostrar seus amarelos, os dois menores prestes a adquirir o amarelo-mostarda da madurez. Mangas – a fruta que mais gosto – mostrando, cada uma, sua combinação diferenciadas de verde escuro e claro, amarelo claro escurecendo para chegar aos vermelhos que vão do rosado ao carmim: lindas! Limões sem maiores graças, apesar dos tons de verde esmaecido. Laranjas alaranjadas, fiéis a sua cor, no que fazem muito bem, acho. E os kiwis?

Olho pra cara deles. Lavo ou não essas feiurinhas peludas?

Claro! por que discriminá-los? Água e sabão neles.

À tarde fatiarei a manga rajada de vermelhos, a mais bonita.

Penso que mereço.

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