Centésimo vigésimo segundo dia

Informações e contra informações: fator que adquiriu nova força junto com desgoverno e pandemia. Podemos esperar imunidade de rebanho antes da vacina, ou só depois? E esse relaxamento do confinamento oficial, deixando cada um a mercê de si mesmo? E as pessoas que põem as ruas no “velho normal”, embora as mortes não parem de aumentar?

Hoje, 74.133 de mortos e quase dois milhões de infectados, sub notificados.

Felipe e eu continuamos sem sair mas algo parece nos empurrar. Exemplo: ida a médicos e dentistas. Necessárias, não imprescindíveis. Estávamos evitando, agora retomamos. Com cautelas, mas retomamos. Amigos fazem o mesmo. É ruim ou não? Para uns, sim. Para outros, não. Informações e contra informações.

E eu aqui, doida para ser rebanho imune.      

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Centésimo décimo nono dia

Lindo domingo de sol.

Não resisti.

Muni-me de todo meu aparato pandêmico e lá fui dar uma volta no quarteirão. Os poucos que vi portavam suas máscaras. O “novo” normal, quem imaginaria!

Fernando Reinach, biólogo super sério, disse em sua coluna que “se” isso e aquilo se confirmarem, São Paulo pode estar se aproximando da “imunidade do rebanho”.

Não significa o fim do coronavírus mas torna menor seu poder de achar novas vítimas. OXALÁ! Me animei.

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Centésimo décimo sétimo dia

O dia de hoje é o dia de ontem e o de amanhã. O que muda são as notícias ruins. De vez em quando uma boa que, sim, elas existem.

Essa noite sonhei que o chão da minha cozinha estava se afundando. Meio lentamente. Dava tempo de afastar meus pés.

Olhei no Google: “Sonhar que limpa o chão indica que você precisa passar por uma fase de auto aperfeiçoamento. Significa também que seus maiores problemas serão solucionados, ou seja, sonhar limpando o chão é presságio de sorte.”

Será que significa a mesma coisa limpar o chão até ele afundar?

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Centésimo décimo quarto dia

Dias vão e vêm molemente, e eis que chega a novidade: Bolsonaro com Covid-19. Regozijo geral entre setenta por cento dos brasileiros.

Se não morrer, pelo menos servirá como exemplo contra suas próprias ingerências na saúde do país.

Vai nessa, Bozo! Dá-lhe Covid!

Mas sei lá.

Falta tanto para que possamos ficar de fato mais contentes.

Aí vejo a laive do Galo, o líder dos entregadores em São Paulo, exemplo vivo de lideranças que despontam com força, e sei que há muita gente como ele por todo lado, em toda cidade, e em todos campos profissionais, sobretudo os campos de terra. Não nos esqueçamos, jamais, de nossos campos de terra e seus trabalhadores. O que os agricultores do MST têm feito doando, para quem precisa, toneladas dos alimentos que cultivam nas terras antes improdutivas transformadas por eles em produtivas, isso, sim, me faz de fato mais contente. Saber que todos eles existem e estão enfrentando as porradas. Estão na luta.

Esses são os que me fazem de fato acreditar que um dia o pesadelo de hoje acaba.

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Centésimo décimo dia

Ontem, primeira noite de uma abertura irresponsável no Rio, os bares do Leblon ficaram lotados de jovens apertados e sem máscaras.

Vai aqui uma receitinha: pegue em doses mais ou menos iguais a indiferença, a ousadia e a onipotência do jovem, ponha um bom saco-cheio e pitadas da busca de adrenalina, misture tudo muito bem e cubra com uma grossa camada chantilly de ignorância.

Deixe repousar por 14 dias. E veja o que vai dar.

Sinto muita pena: a ousadia e a onipotência do jovem já deram em coisas tão bonitas!

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Centésimo nono dia

Em Roma como os romanos.

Acabei entrando nessa das “lives”. Relutei, porque minha praia não é essa, mas se é para divulgar meus livros, vamos lá.

Há muito aprendi que se deixarmos um livro sozinho no mundo, a primeira coisa que ele faz é se esconder.

Nessa pandemia arrastada, então, imagine!

Daí que.  

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COLETIVO INAIÁ

Centésimo quarto dia de confinamento e uma grande alegria bateu à minha porta. Chegou sem máscara nem aviso, pela web.

Um grupo de ex-alunas do Colégio Santo Inácio, um dos mais renomados do Rio de Janeiro, como alguém que mora ou morou lá sabe bem, criou um coletivo para denunciar situações de assédio sexual, homofobia, classicismo, preconceito, discriminação e bullying que continuam sendo praticados ali, apesar de antigas e novas denuncias.

Um “grupo multigeracional que visa promover um ambiente seguro, acolhedor e livre de qualquer forma de discriminação para estudantes da instituição e para a comunidade inaciana.”

E não é que deram a esse coletivo o nome de Inaiá, primeira personagem do romance “A mãe da mãe de sua mãe e suas filhas”, onde ressalto a garra, a valentia e a força das mulheres na transformação deste país!? E se o que escrevemos só se completa na leitura e imaginação dos leitores, não há gratificação maior quando o que escrevo é lembrado, estimula e faz parte de uma ação.

Reproduzo abaixo a carta que recebi e a resposta que lhes enviei.

Carta do Coletivo Inaiá

Querida Maria José,
É um grande prazer te enviar essa mensagem. Meu nome é Ingrid mas hoje escrevo-te não só por mim, mas por todas as mulheres por trás do Coletivo Inaiá. Imagino que o nome pareça familiar e posso confirmar que não é coincidência.
O Coletivo Inaiá é formado por diversas ex-alunas do Colégio Santo Inácio no Rio de Janeiro com as mais diferentes idades e formações profissionais. No início do mês de junho, diversos relatos de assédio sexual se tornaram públicos envolvendo professores e funcionários do Colégio. Quando essas denúncias vieram à tona, muitas de nós nos vimos forçadas a revisitar memórias passadas que havíamos esquecido ou que estávamos tentando esquecer. Entendemos que nós havíamos presenciado ou vivido diversas situações de assédio sexual, mas também de homofobia, classicismo e bullying, que nunca haviam sido propriamente abordadas pelo colégio. O que mais nos machucou foi ver que professores que já estavam no colégio e que já haviam sido denunciados por condutas impróprias continuaram na instituição mesmo após membros da direção e coordenação do colégio terem sido devidamente informados dos comportamentos em questão.
Sendo assim, o Coletivo Inaiá se formou com o objetivo de trazer para o dia a dia o debate sobre formas de opressão, instrumentalizando cada uma dessas jovens mulheres com o conhecimento necessário para mobilizar a quebra estrutural que pretendemos. Educar crianças e adolescentes sem debates profundos sobre assédio, machismo estrutural e racismo estrutural não condiz com o discurso “inaciano” que crescemos ouvindo. Pelo contrário, aliena e desencoraja. Ao silêncio do Colégio Santo Inácio, nós do Coletivo Inaiá respondemos com a incansável resiliência de dezenas de mulheres inacianas.
O Coletivo Inaiá está e estará presente ao lado de alunas e ex-alunas para garantir que mais nenhuma denúncia permaneça sem investigação, para que nenhuma aluna ou ex-aluna se sinta sozinha ou impotente diante de uma instituição de 115 anos, e para que nenhuma aluna deixe de encontrar sua voz e de se manifestar por não saber dar nome a um comportamento que a deixa desconfortável. No momento, já providenciamos apoio jurídico e psicológico, participamos de duas reuniões com a diretoria do colégio, entramos em contato com ex-alunas e alunas por meio de redes sociais e estamos no processo de elaborar um plano de ação que será enviado para o colégio. Queremos proteger as próximas gerações com atitudes que gostaríamos de ter conhecido enquanto estudantes.
Quando começamos a reunir o grupo que gerou o Coletivo Inaiá, reparamos que incluía ex-alunas que se formaram no Colégio Santo Inácio em diversos anos, desde 1984 até 2018. Por isso, na hora de nomear esse Coletivo, pensamos em escolher um nome que valorizasse seu caráter multigeracional, que o torna tão único e especial. Foi então que descobrimos que muitas de nós lembravam de ter lido o livro “A mãe da mãe de sua mãe e suas filhas”, escrito pela senhora, durante nosso período no colégio. O que nos marcou sobre esse livro? É uma história escrita por uma mulher brasileira narrando as experiências de diversas gerações femininas de uma família ao longo do tempo. Para muitas de nós, a senhora foi a única autora brasileira que lembramos de ter lido no colégio. Seu livro conta uma história verdadeiramente feminina que mostra nossa força, resiliência, coragem, independência, assertividade e liderança. Nomear nosso grupo, então, se tornou uma tarefa fácil. Inaiá. Escolhemos homenagear a primeira personagem feminina desse livro, que gerou todas as próximas gerações. A personagem que, de certa forma, gerou todas nós. E juntas, com diferentes formações e histórias, mas como filhas de Inaiá, nós iremos lutar para construir um ambiente escolar livre de opressões e um espaço em que aluna(o)s e ex-aluna(o)s podem compartilhar amor, interesses, paixões e empoderamento.
Visto que tantos dos ideais do nosso Coletivo foram moldados pela leitura do seu livro, gostaríamos de ressaltar a importância que o mesmo está tendo em criar um movimento verdadeiramente feminista, acolhedor e multigeracional em um dos colégios mais tradicionais do Rio de Janeiro. Gostaríamos de convidá-la para escrever ou filmar um pequeno depoimento (como você preferir!) com uma mensagem de apoio para as mulheres por trás do coletivo e para todas as pessoas que apoiam o nosso movimento. Acreditamos que uma mensagem vinda da senhora de suporte ao nosso Coletivo teria muito a contribuir para dar valor e força para as palavras de meninas e mulheres que muitas vezes foram deixadas de lado e esquecidas pelo Colégio Santo Inácio.
Estamos disponíveis para uma ligação caso queira conversar conosco e aprender mais sobre o coletivo. Nossas páginas do instagram e facebook podem ser acessadas nos seguintes links:
https://www.facebook.com/Coletivo-Inaiá-106323551126201/photos
https://www.instagram.com/coletivoinaia/
Mais uma vez, gostaríamos de te agradecer por ter escrito um livro que marcou tanto nossa experiência como jovens mulheres e esperamos poder contar com o seu apoio!
Muito obrigada!
Coletivo Inaiá

Minha resposta a elas:

São Paulo, 29 de junho de 2020
Bravas mulheres do Coletivo Inaiá:

Quando vocês deram a esse importante coletivo o nome da minha personagem Inaiá, deram também a mim o mais lindo retorno que uma autora pode ter de seu romance. Pois se que escrevemos só se completa na imaginação dos leitores, não há gratificação maior quando o que escrevo é lembrado e inspira, estimula e faz parte de uma ação.
Assim, emocionada e feliz, apoio com muita força a luta de vocês. E me solidarizo.
É fato conhecido entre nós, mulheres, que, em que pese todos os avanços da luta feminista, continuamos a presenciar ou viver situações de assédio sexual, homofobia, classicismo, preconceito, discriminação e bullying.
São situações que provocam sofrimentos inadmissíveis em pleno século 21.
Mais ainda quando essas agressões acontecem em um lugar de formação e educação, quando o respeito à nossa pessoa e nossa sexualidade é condição sine qua non para que possamos ter condições de aprender o que nos está sendo ensinado.
E mais ainda quando se trata de um colégio como o Santo Inácio, respeitado e reconhecido como excelente centro educacional. Tanto é assim que vocês, de várias gerações que estudaram ali, não se esqueceram da formação que receberam e se afirmam “inacistas”. É bonito isso, ainda que ao mesmo tempo aumente nossa perplexidade. Pois perplexa é como fiquei ao saber que a diretoria do Colégio Santo Inácio não acatou antigas e novas denúncias, nem reformulou o que deveria ser reformulado para que as condições que possam dar lugar a tais comportamentos não mais aflorassem entre seus muros.
Essa luta de vocês é extraordinária. Gerações que se unem em solidariedade àquelas que, neste momento, ainda podem estar sujeitas às mesmas situações repugnantes que vocês viveram ou presenciaram.
Queridas: reitero que é grande minha admiração por vocês e minha honra por, de alguma forma, estar participando dessa luta com a minha Inaiá, primeira personagem do romance “A mãe da mãe de sua mãe e suas filhas”, onde ressalto a garra, a valentia e a força das mulheres na transformação deste país.
Um abraço apertado e um grande beijo a todas, esperando que logo possam me dar boas notícias,

Maria José Silveira

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Centésimo terceiro dia

Como alertado e esperado, depois que o governo relaxou o confinamento em São Paulo, as mortes aumentaram 28%.

E ontem mesmo, nitidamente forçado, o sociopata fez uma “live” em homenagem às vitimas do Covid 19. Sanfoneiro, curto trechinho da “Ave Maria”, jovem de libras bailando com as mãos, Guedes fazendo sua mesma cara de saco cheio, e o outro sem disfarçar a pressa e a vontade de que toda aquela palhaçada acabasse logo. Sinto reconhecer que naquele momento concordei com ele: palhaçada. Das mais patéticas. Dava para sentir o cheiro podre da imensa desfaçatez.

Choveu na madrugada e minha rua amanheceu recolhida. Eu, mais recolhida ainda.

Mas há trabalho pela frente. Inclusive uma “live” para fazer.

Ah, essas “laives” que entraram em nosso cotidiano para nunca mais sair!

Nessas horas gostaria de ter voz de locutora de aeroporto. A minha anda parecendo a da gralha.

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Centésimo dia

E assim chegamos a 100 dias de confinamento: 51 407 mortos e 1.111.348 infectados, com a sub notificação de praxe.

E como chegamos? Mal. Com um terceiro ministro da saúde, militar, que nada entende de saúde, muito menos do coronavírus.

Quanto a mim, esta semana tenho o firme propósito de não me deixar guiar por tantos males. Faço o que me cabe fazer: escrevo, lavo e passo (cuidado, fakenews! Não se passa mais roupa nesta casa), me fidelizo à ginástica. Nem olho o movimento da rua para não me chatear. Tampouco me detenho no espelho para não ver passar o grisalho do tempo.

Espero chegar ao milésimo dia melhor.

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Nonágesimo oitavo dia

Hoje é domingo azulíssimo. Despertei para a voz do Caetano e da Iza cantando “É preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte.” Êta refrãozinho adequado para esses tempos, tanto quanto foi para o tempo quando foi criado, e do qual me lembro como se hoje, o céu de Brasília tão azul quanto esse que brilha lá fora.

E já que é assim, e nem mergulhar nesse azul eu posso, continuarei ouvindo esses dois. E mais outros. E outros.

Creio que pode ser um bom domingo.

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