Quase

Na manhã de sol e céu azul no feriadão da Av. Paulista, 25 graus à sombra, por volta das 10 horas do horário de verão:

– A mendiga estilosa de turbante na cabeça e pose altiva senta-se sobre os sacos de lixo amontoados. Com toda propriedade, descansa sobre o que é seu.

– O jovem casal de lésbicas caiu da cama cedo e beija-se apaixonadamente no meio da calçada.

– A senhora de certa idade, cabelo arrumado, maquiada, tênis importados, calça de linho, blusa de seda, joias e blazer escuro caminha sôfrega à procura das raras sombras dessse lado da avenida. Chegará em casa com insolação.

– O senhorzinho de boné, calça, tênis, camisa de manga comprida abotoada, caminha como quem faz uma intolerável obrigação. Tenho vontade de avisar que se sua obrigação de tomar sol for por conta da avitaminose D, hoje aparentemente tão comum, seria bom arregaçar as mangas e as bainhas da calça: o sol só trabalha em contato direto com a pele.

– O inusitado casal de jovens: ele vestido de mulher; ela, de homem. Deve ser a moda Laerte Coutinho chegando às ruas.

– Outro mendigo, também profusamente vestido na manhã de sol (mas esse eu entendo que sua roupa é a mesma com a qual dormiu) passa alto, ereto, e tem um cabelo grisalho tão vistoso, volumoso e bem penteado que parece ter saído de uma sessão de escova. Bonitão. Sabe que é bonitão. É mendigo, mas é bonitão. Durmam-se com essa, burguesinhos.

– Mas quem faz mesmo sucesso é a mulher de maiô azul e sandálias japonesas que passa de bicicleta. Alguém disse pra ela que a Paulista é a praia de São Paulo e ela acreditou.

– Três mendigos à minha frente acompanham sua passagem na bicicleta, as mulheres riem, mas o companheiro explica: Sabe que aqui? Aqui tá no nível do mar, viu?

– Já no caminho de casa (Felipe, Zega e Gali: não leiam esta parte, meus amores) quase sou atropelada. No meio da calçada. Pelo mauricinho paramentadão em sua bike mais paramentada ainda. Tudo bem que eu estava no meu usual mode distraída, mas ele é que estava sobre rodas, eu não.

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Eu não, jacaré

Então eu disse pra ela, Gosto muito da senhora, lhe tenho todo o respeito mas, por favor, não me traga mais notícias assim. São viúvas da catástrofe, esse tipo de gente, excitadas e felizes por saber que alguém sofre mais do que elas, e ficam sempre ali na moita, ou melhor, na esquina, que em cidade não tem moita, melhor dizendo então, na janela de sua residência, não, janela de residência também não que hoje janela que dá pra rua nem existe mais, as carolinas já saíram das janelas faz tempo, melhor dizer então da janela televisiva que esse tipo de gente costuma ser viciada em tudo quanto é noticiário, e mais gostam do que pior for, e ficam ali esperando o ruim, o péssimo, o trágico acontecer. E é claro que acontece. Todo dia acontece. Quem for procurar o que mais vai encontrar é um infeliz. O desempregado que se matou, a casa que pegou fogo, o clima que ninguém entende, o temporal que caiu em tal lugar, a seca que começou em outro, não há a menor condição de não se achar notícia ruim nesse mundo que é assim desde que foi feito, melhor dizendo, desde que ele mesmo foi se fazendo, que isso há muito tempo já se sabe, e digo se fazendo porque o mundo não para de mudar a cada segundo, se tem uma coisa que acontece no mundo é mudança, o que é assim hoje, não será mais assim amanhã, e o que a gente tem como normal hoje, amanhã será diferente, nem a roupa mais é a mesma, tudo é diferente, você dorme hoje pensando em uma coisa, acorda amanhã pensando em outra, é bom que seja assim. E se uma pessoa continuar a vida inteira pensando a mesma coisa pode interná-la porque o mais certo é que esclerosou, como essa senhora minha vizinha, francamente, que toda hora chega muito animada com alguma notícia ruim, a vida dela é caçar notícias ruins nem que for só daqui do bairro, e ando farto disso. Evito esse tipo de gente porque já tenho minhas próprias infelicidades e sei das infelicidades dos outros, não preciso de ninguém me trazendo um inventário atualizado do dia, não mesmo, que essa compulsão por saber das mazelas do mundo, isso eu não tenho. Que me traga uma notícia boa, um comentário interessante, deixe as tragédias pra lá, o caos, as coisas incompreensíveis, há demasiadas coisas incompreensíveis na vida, sei disso faz tempo, não preciso que ninguém venha aumentar minha ignorância e perplexidade que elas aumentam mesmo sozinhas, e então falei pra ela, Olha, Dona Fulana, se for pra me contar desgraça, não venha mais. Vou fechar minha porta. Fique a senhora ruminando seu entusiasmo pelas intrigas do mundo, se não tem coisa melhor pra fazer. Mas não conte comigo, não senhora. Comigo não, que já termino já a sola desse último sapato, desço a porta da minha sapataria, e vou jogar dominó.

(Publicado em “O Popular”, 7 de novembro/2013)

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Sexta de contos

A língua do infeliz

Não posso passar nervoso, o médico falou. Mas como é que não vou passar nervoso com um marido desses?
Ele chega, senta no sofá, põe o pé na mesinha de centro, não sem antes tirar a meia de seda preta, primeiro a esquerda, depois a direita. Joga as meias de lado, pega o controle, põe naquele canal que só tem futebol e esportes.
Levanta, pega uma garrafa de cerveja da geladeira e um copo daqueles de geleia do armário, volta a sentar. Toma um gole, passa a língua em volta da boca fina, dá cinco minutinhos – eu conto no relógio – e levanta outra vez, vai até o armário, pega um saquinho de amendoim, volta e senta no sofá. Não põe um punhado na boca, como gente normal faz: põe de um em um ou de dois em dois – também já contei. Fica lá até que eu digo a janta tá mesa.
Ele se ergue feito um poste, senta na cabeceira, e se serve de arroz, feijão, bife, nessa ordem, e sem misturar. Põe um pouquinho de alface e uma fatia de tomate do lado, despeja um fio de azeite, pronto. Não põe sal na salada, nunca pôs, é costume dele desde sei lá quando – essa conta eu cansei de fazer. Começa a comer sem olhar pro meu lado.
Como foi seu dia?, pergunto.
O de sempre, ele responde. Isso, quando está bonzinho, quando não está, sacode os ombros.
A essa altura, meu olho já encheu de lágrimas, mas eu seguro.
Seu irmão telefonou, digo. Perguntou quando você vai lá.
Ele nem tchum.
Disse que tá tudo bem, que sua irmã já saiu do hospital.
Ele põe o garfo cheio na boca.
Então eu deixo o silêncio ir passando mas não aguento muito. O peso de silêncio assim é carga demais pra mim. Dona Tereza teve aqui, eu digo, e trouxe um pedaço de bolo, daqueles de fubá que ela faz pras freguesas. Perguntou se eu tô tomando os remédios, e eu disse que tô, quero melhorar, não quero ficar nesse desânimo, nessa tristeza.
Ele mastiga o bife de boca aberta.
Ela me perguntou se tô cumprindo as ordens do médico, continuo, engolindo o choro. Eu disse que sim, que não vejo a hora de voltar a sorrir um pouco, ter vontade de sair, de me arrumar, passar batom – lembra aquele batom vermelho forte, acho que se chamava vermelho carmesim, que você gostava? Quando a gente namorava, lembra? Você nem importava se manchasse a gola da camisa.
Então, sabe o que ele faz? Pega um palito do paliteiro, enfia naquela boca de lábios secos, arrasta a cadeira pra trás, e volta pra televisão. Sem falar uma palavra. E assim é todo dia, toda semana, já passou meses mudo, eu marquei. Daí quando eu pego o resto da comida e jogo no chão, espatifo os pratos e avanço pra cima dele com a faca na mão, disposta a arrancar a língua do infeliz pra ver se ela continua no lugar, dizem que eu é que estou ficando louca.
Você não acha que ele faz isso de propósito?

(Publicado em “O Popular” – 27 de outubro, 2013)

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Enquanto isso, no Lago Azul

“Ui, ui, ui Uiara! Venha aqui, maravilhosa! Aceite esse colar!”

O barulho dos gritos, cantorias e chamados à beira do Lago Azul é grande.

Lã está debruçado sobre as águas, com um lindo colar de sementes brancas na mão.

– Bela, bela, este colar eu fiz pra você. Toma, vem pegar.

Pedrinhas multicores são lançadas pelos outros moços; risos, gritos, bajulação.

Uiara aparece em um lugar, mergulha de novo, aparece em outro no extremo oposto. Está contente, e brinca com eles.

Lã é o mais veloz e persistente, correndo de um lado pra outro. Quando os amigos se cansam da brincadeira, ele continua:

– Chega mais perto, linda. – E quando vê que os companheiros se afastam e já não podem escutá-lo, continua insistente – Não fira meu coração, minha bela. Quero te ver inteira. Quero ficar com você. Não me importo com nada, venha, venha. Chegue perto.

Escondida agora atrás das pedras, Uiara o olha condoída. É da sua natureza levá-lo, mas não pode, não quer fazer isso. Não quer fazer isso com um filho do Primeiro Povo que, de certa forma, é também o seu.

Os moços já estão longe quando Lã escuta um barulho de galope. Poderia ser das icamiabas mas não parece, a essa hora, e ele se esconde atrás das árvores frondosas da mata. São cavaleiros-do-couro. Além das icamiabas, são os únicos que têm cavalos. Uns cavalos feios, mirrados, de um marrom desbotado que em nada lembram os delas. Não são inimigos, tampouco amigos: a relação com eles pode mudar de acordo com o humor do bando. Lã continua escondido e observa. Eles dão água aos cavalos e veem Uiara.

– Olha só quem está nos dando a honra de aparecer – diz um deles.

– Eita! que hoje é dia de paca caçar tatu! – diz o outro.

Mas o terceiro avisa:

– Não fica olhando, que é perigoso. O mundo inteirim sabe disso.

– Bestagem! Como que uma mulher-peixe ia dar conta de gente como a gente? Ninguém num tem curiosidade de tirar a limpo essa história?

– Eu, de jeito manera! – diz o que fizera o alerta antes.

– Pois jacaré num tem pescoço, formiga não tem caroço, e eu quero mais é conhecer essa dona.

Uiara vem se aproximando, mergulhando e aparecendo, agora sim, sedutora, enfeitiçante. Vem e vem, sorrindo, atraindo, e os dois afoitos seguem a brincadeira dela e vão entrando na água, rindo e zombando:

– Vem, mulher-peixe, deixa eu cheirar sua fendinha de algas.

– Deixa eu ver seu borogodó, vem. Ninguém vai te fazer mal, é só pra dar um carim.

– Vem, vem.

E ela, sorrindo, vai, e os dois são tragados de uma vez só sem tempo de dizer ui!, muito menos escapar, formando um redemoinho voluptuoso nas águas. E o que se vê é apenas seu vulto envolto em seu manto de espumas.

O terceiro, que ficara de longe com seu aviso e seu medo, monta rápido no cavalo e o chicoteia apavorado.

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Sobre biografias e ganhos

A pequena biografia que escrevi sobre “A Jovem Pagu”, para a Editora Nova Alexandria, em 2007, me proporcionou três momentos bem diferentes.

O primeiro, de prazer ao escrever, inclusive com o apoio de seu filho Kiko, Geraldo Galvão Ferraz, que prontamente respondeu ao curto questionário que lhe enviei logo no começo.

O segundo, de desapontamento: quando, meu original pronto, a família informou à editora que só autorizaria a publicação mediante participação nos direitos autorais. Pensei em desistir, mas acabei optando por não perder meu trabalho. O livro foi publicado e, como era de se esperar, monetariamente, ganhei quase nada; os herdeiros, tampouco.

Mas o terceiro momento foi de fato a minha grande recompensa, quando Laura, minha neta, no auge de sua adolescência, apaixonou-se por Pagu através do meu livro.

capa A jovem Pagu

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O imenso exército da idade

Sempre me emociono ao ler este trecho:

“Guenevere exagerou ao se vestir para a ocasião. Maquiou-se, embora não precisasse de maquiagem, e maquiou-se mal. Estava com quarenta e dois anos.
Quando Lancelot a viu esperando à mesa, com Arthur a seu lado, seu coração explodiu no peito, deixando que o amor dentro dele corresse por suas veias. Era seu antigo amor por uma garota de vinte anos, sentada orgulhosa em seu trono com o presente de cativos a seu redor – mas agora a mesma garota sentava-se em outro ambiente, um ambiente de maquilagem exagerada e sedas vistosas com as quais tentava desafiar a ruína invencível do destino humano. Ele a viu como o espírito apaixonado da juventude inocente, agora assediada pelo truque que se prega na juventude – o truque da traição do corpo, que transforma a carne em ossos. Para ele, seus tolos enfeites não eram vulgares, e sim tocantes. A garota ainda estava ali, ainda atraente por trás da barricada quebradiça do ruge. Apresentava seu bravo protesto: Não serei vencida. Por trás da coqueteria desajeitada, das roupas humilhantes, havia o grito humano por ajuda. Os olhos jovens, desorientados, estavam dizendo: Sou eu, aqui dentro – o que fizeram comigo? Não me submeterei. Uma parte de seu espírito sabia que a maquiagem fazia dela uma boneca desengonçada, e odiava isso, e tentava segurar seu amante apenas com os olhos, que diziam: Não olhe para nada disso. Olhe para mim. Ainda estou aqui, nos olhos. Olhe para mim dentro desta prisão e me ajude a sair. Outra parte dizia: Não estou velha, é uma ilusão. Estou belamente maquiada. Veja, tenho os movimentos da juventude. Desafiarei o imenso exército da idade.
Lancelot viu uma alma solitária, uma criança inocente e condenada, mantendo sua posição indefensável com as armas desprezíveis da pintura no cabelo e da seda laranja, com as quais ela havia – com que medos? – pensado em agradá-lo. Viu

O punho apaixonado, pigmeu
Cerrado e desafiante apontar as nuvens,
O orgulho que triunfaria, o protagonista condenado
Com força agarrando o fantasmal gigante”

De “O Cavaleiro Imperfeito”, terceiro volume da saga “O Único e Eterno Rei”, de T.H.White – que tive o prazer de traduzir.

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Para sobreviver

Há dias que é preciso ter fígado de ferro, estômago de estalactites e estalagmites, e o coração, ah!, esse só nos salva se for de um metal precioso.

Pobre de mim que não tenho nenhum deles.

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