Sexta de crônica: Tanto falaram que lá foram eles!

Tanto falaram que lá se foram eles!

Foto de Rickardo Marques

Foi como jovem médico recém-formado que meu pai, José Peixoto da Silveira, colocou pela primeira vez os pés em Goiás, no começo dos anos 30. Formado em oftalmologia, foi convidado para trabalhar com seu prestigiado professor. Antes de assumir esse trabalho, no entanto, ele quis visitar os pais, lavradores de Cristais (MG), que venderam sua terra para comprar outra melhor em Itapaci, onde foram vítimas de um grileiro.
Consternado ao ver meu velho avô ainda trabalhando na enxada, meu pai decidiu ficar perto deles e se estabeleceu como clínico em Jaraguá. A miséria, isolamento e abandono que, como médico, viu na região transformaram-no para sempre. Os problemas eram demasiados para alguém sozinho resolver. Políticas públicas essenciais valeriam mais que mil médicos como ele.
Por isso, deixou a medicina e assumiu a política.
Em 1951, já como Secretário de Saúde de Goiás, criou o Serviço Itinerante de Saúde, seu orgulho. Por vários anos, médicos, dentistas e remédios chegavam periodicamente a regiões distantes, onde sequer havia estradas. Chegavam em aviõezinhos monomotores e pousavam nos descampados. Dessa maneira quase heroica, puderam fazer campanhas de vacinação e ações básicas de prevenção e atendimento.
Quase um século depois, qual não seria sua perplexidade ao ver que o interiorzão (não só de Goiás mas do país) ficará outra vez sem médicos, com a saída dos profissionais cubanos que, desde 2013, estiveram atendendo brasileiros nos lugares mais carentes e que, no entanto, o presidente eleito, por várias vezes, execrou e ameaçou.
No início do programa Mais Médicos, os brasileiros foram os primeiros a ser chamados. Pouquíssimos quiseram enfrentar os cafundós, e muitos dos que foram logo desistiram. Justamente para o preenchimento dessas vagas chamaram os cubanos, formados na pequena ilha cuja medicina é referência no mundo. A maioria deles já havia participado de atuação humanitária em cerca de 70 países, através da Organização Pan-Americana da Saúde, responsável por esse imenso trabalho de solidariedade internacional.
Até mais além do desprezo que nossos recém-formados têm pelo interior, outro fato é certo: a formação atual em nossas universidades não consegue atender à nossa demanda de médicos (o desejo de ficar nas principais cidades é tão só a cereja do bolo.)
Por essas razões, durante cinco anos, cerca de 20 mil colaboradores cubanos atenderam em mais de 3.600 municípios, chegando a cobrir um universo de 60 milhões de brasileiros. Mais de 700 municípios tiveram um médico pela primeira vez na história.
E se alguns de vocês estão empinando os narizes, julgando-se acima desses problemas, lembro que não raras vezes, até nós, bichos urbanos, podemos precisar de um deles. Minha filha Galiana, montanhista e escaladora, estava no interior de Minas quando teve um problema de saúde que poderia ter-se agravado caso não houvesse um solidário médico cubano ao alcance de sua mão.
Imagino como meu pai teria exultado se pudesse saber que um médico competente cuidou de sua neta. E como ficaria indignado ao ver um programa dessa grandeza se esfumar neste Brasil que temos pela frente.

(Crônica publicada em “O Popular” em 22/11/2018)

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De volta

Por vários motivos, estive um tempão longe deste blog.
Mas agora estou de volta.
Publico aqui minha crônica mais recente, publicada no jornal “O Popular” no dia 8 deste mês de novembro.

AS ESCOLHAS QUE FAZEMOS E AS QUE FAZEM POR NÓS

Tantas são as escolhas em nossa vida que preferiríamos não ter feito!
Pequenas, grandes, são inúmeras. Dizer que vivemos errando é quase uma tautologia.
Mas há uma diferença de abismo entre as consequências das escolhas pessoais que fazemos e as que nos são impostas.
As pessoais, quando se revelam erradas, por mais daninhas que sejam suas consequências, pelo menos temos a nós mesmos a quem responsabilizar e podemos dizer, “Calma! Da próxima vez, escolherei melhor.”
Ou podemos até achar que o prazer que nos trouxe a escolha compensa os males que ela porventura provocou.
Por exemplo, o cigarro. Comecei a fumar quando jovem e fumei durante bons anos da minha vida. Parei já adulta, quando percebi que a coisa não estava indo bem. Pensei que tivesse escapado. Mas qual! Quando vi meu pai e meu amado irmão morrerem pelos efeitos do tabagismo, reconheci que não havia parado a tempo e sofro hoje as consequências de um enfisema pulmonar. Paciência. Ninguém me obrigou a fumar e, pelo menos durante um bom tempo, essa escolha me trouxe um prazer só conhecido por aqueles que fizeram a mesma escolha. Portanto, de certa forma, ter fumado não foi completamente em vão, se é que me entendem. Se voltasse no tempo, escolheria não fumar, é certo, mas não me descabelo por ter feito o contrário. Fazem parte da vida essas cicatrizes.
Outro tipo de escolha séria, essa até mais comum, é a do casamento. Muitos não dão certo, talvez a maioria. Mas tenho a impressão de que, antes de chegar às decepções e ao final ruim, alguma coisa deve sobrar como lembrança da felicidade do começo.
Esse pequeno ou grande prazer que de alguma forma pode nos proporcionar uma escolha errada que fazemos, é o que de maneira nenhuma acontece quando o que vem nos atormentar são consequências de escolhas que fizeram por nós. Aí a coisa muda de figura. O sofrimento dói mais.
E é como me sinto agora. Vendo, à minha frente, um caminhão-bala dirigido a toda velocidade por pessoas insanas que fugiram de algum lodaçal de ignorância e vieram nos atingir, aleijar e deixar sem esperanças.
A meu favor, só tenho um mantra, aliás dois.
O primeiro veio de um romance magnífico, “Um cavalheiro em Moscou”, de Amos Towles. É a história de um aristocrata russo, um perfeito homem do mundo, refinado e culto (coisa tão rara!), que por circunstâncias y e z é obrigado a viver em um quartinho do sótão de um grande hotel de Moscou onde tinha por costume se hospedar. Era-lhe permitido zanzar por salas e saguões do hotel, mas jamais, em nenhuma circunstância, botar os pés na rua. É dele a citação que agora faço minha:
“A adversidade se apresenta de muitas formas, e se um homem não domina suas circunstâncias está sujeito a ser dominado por elas.”
E a ela acrescento, quando já desperta não tenho vontade de me levantar da cama: “Um dia de cada vez”.

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Uma confusão e outro blog

Queridos visitantes:

Não sei bem o que aconteceu, mas quando quis modificar a cara deste blog, ele virou outro. Desde então, é lá que continuo as postagens. Preciso convocar algum expert para resolver esse problema, mas por enquanto, visitem o http://www.invencoesverdadeiras.com.br. É lá que estou postando.

Comecei também um outro blog experimental e de ficção. Passem lá para ver se gostam.

Os dois blogs são para vocês.

Um beijo,

Maria José

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Até

“Vou-me embora pra Pasárgada”…
Lá sou amiga do rei.

Volto em janeiro.
Beijos e gracias a todos que passaram por aqui neste desalentado 2013.

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Sexta de crônicas

O GOSTO DE DEZEMBRO

Sei que muitos não gostam, mas eu gosto de dezembro. Mês que parece existir para preparar a chegada de janeiro. Mês de terminar coisas. Folhear a agenda, ver o que deu certo ou não. E fechá-la. É ótima essa sensação de fechar uma agenda.
Gosto da agitação das ruas. Da expectativa coletiva que invade o marasmo dos outros meses. Do simbolismo na vontade de um recomeço. Significa pouco ou nada esse simbolismo, eu sei. A rigor, a mudança de um número. Mas, no fundo de nós mesmos, essa passagem do último dia de um ano velho para o primeiro dia de um ano tilintante sempre teima em ser mais do que apenas isso.
Gosto de ver caras alegres, pessoas correndo para algum encontro; pais e mães antecipando a alegria dos filhos; cozinheiros se preparando para que a ceia do último dia do ano seja um banquete, mesmo tendo apenas rabanadas e sidra na mesa. Um mês para ser kitsch.
Faço parte disso, fui criada com isso. Aprendi a gostar.
Dezembro também é o mês do 13º salário. Tem coisa melhor do que planejar o que fazer com ele? Significa muito mais do que o frenesi do consumo, da obrigação dos presentes, da falsa sensação de ser feliz por duas noites, a do Natal e a do Ano-Novo. Tudo isso existe, bem sabemos, e às vezes parece ser a cara do mês, mas dezembro não é só isso.
É mês de planejamentos. Pequenos, grandes, não importa. É mês de abrir a página branca de uma nova agenda e fazer as primeiras anotações do próximo ano. Adoro isso. Não vivo sem uma boa agenda de mesa, fácil de manusear, e que tenha sido me dada de presente. É um momento em que me dou a grata licença de pensar que terei sorte no próximo ano, e me acontecerá, e a todos que amo, mil coisas boas. Planejadas e inesperadas. Todas elas, só coisas boas, fervilhando para acontecerem.
Ah, se pudesse ser assim! Só coisas boas.
Todos nós precisamos de coisas boas. E dezembro é o mês de pensar nas coisas boas que podem começar a chegar em janeiro. Um mês inteiro para pensar e preparar isso, pois é inútil imaginar que não teremos, naquela minúscula batida em que um ano deixa de existir e começa o outro, uma coisa qualquer se agitando em nós cujo nome mais conhecido e clichê, todos sabemos que é, nua e crua, esperança. Que tudo possa ser melhor. Que em 2014, poxa!, em 2014 as coisas acontecerão, os caminhos se abrirão, algo especial há de vir. “A última das ilusões”, já disse alguém, “é crer que as perdemos todas”.

Curtam o seu dezembro, que estou tratando de curtir o meu.

(Publicado em “O Popular”, 10/12/2013)

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Dois HQs de respeito

Parece que 2013 foi um ótimo ano para os quadrinhos, e ganhei dois. De muito respeito.
“Eu, Fernando Pessoa”, com roteiro da Susana Ventura e desenhos do Guazzelli, E “Vitória Valentina”, com roteiro e desenhos da Elvira Vigna.

“Eu, Fernando Pessoa” surpreende pela complexidade que foi capaz de atingir. Os desenhos sombrios e sofisticadíssimos do Guazelli são guiados pelo roteiro da Susana, muito sucinto e mesmo assim capaz de nos mostrar o Poeta inteiro, abrindo espaço para todos seus heterônimos, coisa que só mesmo uma conhecedora profunda da obra de Pessoa e de sua importância seria capaz de criar. O leitor fecha o livro com uma estranha urgência. Voltar ao princípio e, depois tentar reler (ou ler) o poeta.
Que figuraça!

Já Elvira, no seu “vitória Valentina”, com linguagem seca, às vezes jocosa, e o que chama de seus desenhos “sujos”, fala do país de hoje e dos excluídos. Como ela mesma diz na contra capa, seu livro “é contra o machismo, contra o poder econômico e também contra o consumismo”.
Pode crer. É sobre tudo isso mesmo.

São dois livros muito diferentes. Na proposta, nas técnicas do desenho, no texto. Mas não na qualidade. Cada um, a sua maneira, mostra as possibilidades que os novos HQs estão conquistando entre nós.

Que venha 2014 e seja também outro ótimo ano para eles!

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Work in progress

“Não muito longe dali, sentada nas grossas raízes expostas da grande castanheira de vasta copa, sua árvore, a Velha Pisadeira está agachada, escolhendo entre os vários tipos de ervas espalhadas pelo chão. Nos galhos grossos dessa castanheira cujo tronco centenário nem quatro homens adultos conseguem abraçar é onde ela montou sua choça, e dorme, nas noites em que dorme. Seu rosto é cheio de rugas profundas cujas bordas flácidas quase se dobram, cabelos completamente brancos presos em um rabo que desce até a cintura, corpo magricela e encarquilhado. É velha, velha, velha. O que nela parece não ter idade são os olhos fundos de tão intenso brilho negro que nem todos conseguem encarar.
E ali está meu Macu chegando devagar e, sem cerimônia, vendo as ervas no chão, vai indo vai indo e pega uma que começa a chupar, enquanto se agacha ao lado. Ao contrário da Pisadeira, meu Macu não tem idade, preto retinto e beiçudo como foi quando nasceu.
– Boas vidas, minha vozinha – ele diz.
Ela não levanta os olhos do que está fazendo:
– Boas, meu neto.
Macu chupa a erva, fazendo ruídos grosseiros. Continua tão sem modos como sempre foi.
– Matando muita gente por aí, veia? – ele pergunta.
– E você, fazendo muito nada por aí?
– Eu, não!
– Eu também não. E cê tá retinto de saber que mato pouco e só quando obrigada, porque meu gosto é o de curar. O que cê só faz me atrapalhar.
– Eu, minha vó!Por quê?
– Porque não consigo curar sua preguiça, homem! Num tem erva que dê conta.
– E eu lá quero que você me cure, veia implicante!
– Cadê seu irmão?
– Eu sei lá!
– Pois vá atrás de saber e ensine esse minino a escolher melhor o que me traz. Ele continua trazendo tudo errado. Vai.
Pisadeira pega um punhado de ervas e soca bem socado no pilão. Macu pede:
– Me dá um pouco dessas aí, vózinha.
– Tarde piaste, meu neto. Tá tudo triturado. Vai catar a sua, se quiser.
Macu se levanta, ainda mascando a erva que pegou ao chegar e, com os mesmos passos lentos de quando veio, vai embora. Meu coraçãozinho vai com ele, enquanto volto os olhos para minhas icamiabas.”

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