Sexta de crônica: A estupidez e a vida

“Todo mundo agora quer viver cem anos”, ora essa. “O filho do porteiro que zerou no vestibular entrou para a universidade pelo Fies,” ora essa. “Teve uma quantidade enorme de mortes, né?” “Tive que tomar a vacina escondido, rsrs.” Essas foram algumas frases estúpidas da semana passada, fora outras que me esqueci para não acumular essas perversidades em minha cabeça.

Minha cabeça gostaria de estar pensando em outras coisas. De estar escrevendo aqui sobre outras coisas. De pode ler os jornais sem me contagiar com tanta estupidez.

Mas qual!

Vivemos em um país doente. Doente de cabeça e doente de fato. 400 mil mortos. 400 mil famílias chorando. 400 mil possibilidades de contágios. 400 mil tristezas espalhadas por todo canto do país. 400 mil agora, daqui a um mês 500 mil, dizem os infectologistas.

Não é brincadeira. Nada é brincadeira.

O ministro dizer que “todo mundo agora quer viver cem anos” é bem o espelho do espírito necrófilo que nos governa: quanto menos pessoas viverem, menos problema, menos gastos com aposentadoria, tanto melhor. Justo agora que a natureza e a medicina nos trouxeram a possibilidade de viver um pouco mais (um dos bons sintomas do nosso avanço como civilização), um dos responsáveis pelo planejamento da vida em nosso país debocha.

É esse mesmo ministro que se horroriza com o filho do porteiro tendo a possibilidade de entrar para universidade, mostrando seu inegável apreço pela ignorância dos que trabalham para nós. Universidade é para a elite, não para o povo trabalhador, é o que está claro na frase e em sua cabeça.

O outro ministro que toma escondido sua vacina por ser orientação do chefe é de uma hipocrisia poucas vezes vista em público. Como entender isso? Como entender que até agora o desgoverno ainda não se convenceu de que é preciso incentivar, dar o exemplo, tornar a vacinação algo absolutamente necessário para que possamos, por fim, nos ver livres da peste que cerceia nossa vida?

É tremendo. É pensar que somos todos imbecis. É a necropolítica em ação.

E frente à impotência que nos paralisa, daqui uns dias esqueceremos essas frases pois logo virão outras, tão estúpidas quanto, ou mais estúpidas.

Assim vão passando os dias. Assim vai sendo destruído o país.

Como falar de outras coisas? Paro um pouco e vou até a janela. Minha rua está tranquila. Poucos carros, poucas pessoas que passam com suas máscaras, Sebastião brinca na varanda da frente, o coreano jogo golfe em seu solário, e o céu das manhãs de maio mostra seu esplendor ainda que, erguendo a vista para o perfil da cidade, a poluição e a secura já se delineiem no horizonte.

A força da vida é algo que me enternece. Essa vida cotidiana com sua tranquilidade. Apesar das frases estúpidas, apesar do vírus, ela não se deixa abater em sua rotina, sua continuidade, sua vontade de seguir em frente. É isso que ela nos ensina todos os dias. Sigamos em frente. Continuemos. Eu (a vida) ainda estou aqui. 

(Crônica publicada no jornal “O Popular”, em 6/5/1921)

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Meu imenso amigo, Alípio Freire

Retrato feito por Laura Fraiz Lindoso

Por mais que eu estivesse acompanhando a jornada do meu amigo em seus dias de luta contra a Covid, é muito difícil aceitar que a partir de hoje, dia 22 de abril, ele já não estará entre nós. A dor da perda se junta com a indignação por ter sido uma morte que, não fosse o país ter esse governo genocida que tanto tem atrasado a vacina e nos expostos a milhares de morte evitáveis, com certeza não teria acontecido.

Conheci o Alípio na militância e permanecemos amigos desde sempre. Éramos de uma turma que, neste abril cruel, perdeu dois companheiros, primeiro Maria Lucia Torres, agora o Alípio Freire.

Não vou falar aqui da importância do Alípio para o movimento social, para a construção do PT, para as lutas pela preservação da memória da resistência – muitos companheiros estão falando disso, com todas as palavras merecidas.

O que eu queria falar, nestes dias de luto, é sobre o Alípio escritor. Muitas de suas poesias já foram rememoradas, mas dado o meu ofício de escritora que tinha o Alípio como um dos meus primeiros leitores e interlocutores a quem devo o que nunca poderei pagar, talvez eu seja uma das poucas pessoas que conheciam seus três “originais” de literatura já praticamente prontos. Ele estava trabalhando em mais dois: um reunindo seus textos escritos para jornais, o outro, outros textos avulsos ou mais poemas curtos. Os três originais de literatura já vinham sendo escritos há muitos anos, mas nunca chegaram à publicação, o que me deixava perplexa. Em nossas conversas, muitas vezes esse assunto entrava e, não muito tempo atrás, angustiada com suas hesitações em enviá-los logo para uma editora, lhe perguntei com a franqueza que sempre fez parte de nossas conversas, se o que pretendia era guardá-los para serem publicados post-mortem. Ô Alípio, meu querido, como iríamos imaginar que essas minhas palavras teriam agora o gosto de uma amarga profecia!

O primeiro, e mais antigo, é um romance escrito como uma espécie de alegoria tratando da jornada de um militante contra a opressão da ditadura civil-militar. Estávamos em um momento de ascensão da esquerda mas o final da versão que li era de um terrível pessimismo. Como se, desde então, ele pressentisse o que se seguiria. Estava tão pronto que ele afirmou que logo me pediria para fazer sua orelha.   

O segundo é um extenso poema da ordem do fantástico que considero um de seus textos mais bonitos. Intimista, lírico, sensual, belíssimo. Já estava tão pronto que tinha até um belo prefácio da grande Walnice Nogueira Galvão. Dada sua grandeza, é o que mais sinto ele não ter publicado em vida. Me perguntou, uma vez, o que achava se a nossa querida Maria Lucia Torres (também poeta) escrevesse um texto para a 4ª. capa do livro.

O terceiro é um conjunto de poemas curtos e jocosos (como ele adorava fazer), mostrando como poderes e instituições estavam podres. É o Alípio que, com suas supostas brincadeiras e sorrisos, tirava as roupas dos reis, as fardas dos generais, as togas dos juízes. Esse era um original interminável. A cada momento, Alípio tinha um novo poema para acrescentar. Por isso, pensava, talvez, em desdobrá-lo em dois.

E agora, o que será de cada um deles? Rita, Camila e Maiana haverão de encontrá-los entre seus papéis e com certeza os publicarão da maneira mais linda possível para que, com eles, possamos celebrar, depois da pandemia, mais um maravilhoso legado que o Alípio nos deixou.

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Minha amiga, Maria Lucia Torres

Uma tarde na fazenda da Ledinha, com as Maninhas: Maria Luísa, eu, Maria Lucia de chapéu.

Perdi minha amiga de mais de 50 anos. Fomos juntas para Paris em 69 e desde então, afetivamente, não nos desgrudamos. Perdi-a neste momento em que ninguém pode despedir de seus mortos, sequer vê-los no hospital, sequer ver seu rosto na paz de quem já não está ali.

Descobri agora (tardiamente) que um velório não é para o morto, é para os vivos. Para que os vivos, parentes e amigos, se reúnam em torno de seu caixão e tentem o ilusório alívio das rememorações, das conversas sobre quem se foi e do amor por ela ou por ele. Fazer o luto solitário a que nos destina a pandemia é algo antinatural, até então desconhecido, algo que não aprendemos a fazer. Dói a mesma dor, certamente, mas dói de jeito mais árido, sem escape. As cerca de mil famílias que perderam algum ente querido neste momento sabem disso melhor do que eu.

Maria Lucia era uma doçura de pessoa. Um pouco calada, ensimesmada em seus sentimentos, era poeta. Quando Felipe foi preso e fiquei na clandestinidade em uma vila operária, ela foi morar comigo. Era historiadora, mas foi trabalhar em uma fábrica, como muitos de nossa Organização, e seguiu sendo operária durante vários anos enquanto durou a ditadura civil-militar que nos assolou por 21 anos. Quando as coisas tomaram outro rumo, ela trabalhou durante muitos anos como historiadora, tanto no Dersa (Departamento de Rodovias de São Paulo) como no Cedem (Centro de Documentação e Memória). Nunca deixou a História, nunca deixou a poesia, nunca deixou sua doçura, nunca deixou sua luta por um mundo mais justo e igualitário.

Desde que vim para São Paulo, nos víamos constantemente. Com sua irmã gêmea, Maria Luiza, faziam festas formidáveis que se tornaram uma tradição entre nós, os amigos antigos e novos, reunidos em torno das duas, conhecidas como as Maninhas. Duas figuras alegres, de generosidade ímpar, inesquecíveis para quem as conhecesse mais profundamente.

Maria Lucia sempre foi leitora fundamental dos meus originais. Que, para mal ou para bem, só aplaudia, nada achava para criticar. O que dizer? Acho que escritores também precisam de leitores assim. 

Poeta, foi publicada em um pequeno livro independente feito pelos amigos. Não se importava em publicar. Morosa, escrevia e reescrevia e tornava a reescrever quantas vezes lesse os próprios poemas. Vivia a poesia. Creio que foi isso o que ela mais foi, poeta que vive a vida em poesia. Constante, intensamente, a cada dia. 

Para uma pessoa assim, esses anos de desgoverno e caos em que entrou o país, são muito difíceis de suportar. Sua tristeza era imensa, e aumentava a cada notícia, a cada mentira, a cada evitável morte.

Eis, o mais certo para este momento, um dos seus versos:

“A morte é sonho.

Ou pode ser

Ela talvez

Grande regaço

Tecido com o fio dos meus sonhos.”

Embale-se, pois nesse grande regaço, amiga, enquanto para nós sempre continuará presente.

(Crônica publicada no jornal O Popular, em 8/04/2021)

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Sexta de crônicas: Adorável, terno, suave

Queria escrever sobre algo terno, suave, adorável. Penso, então, no outono que começa. O outono costuma ser assim: suave, terno, adorável. Não temos, no Hemisfério Sul, as cores luxuriantes das folhas que caem no Hemisfério Norte, mas temos o mais esplendoroso céu, o mais diáfano. Aquele que nos traz, só de vê-lo, uma pequena euforia sem razão nem causa nem esforço. Basta erguer os olhos e senti-la. Um dom que, em seus dias mais típicos, nos oferece essa estação de harmonia, sem o sufocamento dos raios solares do verão incidindo direto sobre nossas cabeças e sem o frio do inverno nos encolhendo o diafragma.

A minha rua hoje, domingo, está quase deserta. Raros carros, quase nenhum pedestre, a não ser a mulher levando a criança. A criança corre, a mulher grita, Peraí, me espera! O sino da igreja próxima não repica os horários da missa: estarão evitando aglomerações? Tomara. O bem-te-vi que muitas vezes escuto está calado, solidário conosco no isolamento. Sebastião, o pequenino do prédio à frente, ainda não apareceu na varanda. O coreano, do solário de outro prédio, treina seu golfe (é seu ritual de cada manhã e final da tarde). Tudo parece calmo, menos o zumbido do trânsito quase permanente da avenida que me ladeia à esquerda. No entanto, mesmo ele, esse zumbido irritante, está felizmente esmaecido. Nem os cachorros latem. Nem as crianças vizinhas soltam seus alaridos dominicais.

Assim começo este outono em minha rua.

Não sei como ficará, outono adentro, a esplendorosa árvore em frente à minha janela. Algumas folhas cairão, certamente, mas desconfio que ela é daquelas que está sempre germinando novas folhas e nunca ficará completamente desnuda. (Ia dizer pelada, mas me contive. O outono exige elegância.)

Elegância? Não creio. Nenhuma estação se importa com roupas, menos ainda o outono que pouco a pouco vai desnudando as árvores. Vista-se como quiser, um casaquinho nos ombros, um lenço, uma leveza. É isso o que se deseja. Leveza. Mesmo se suas roupas estiverem velhinhas, mesmo aquelas que você há mais de um ano não usa, abandonadas que estão no armário (as roupas se ressentem de envelhecer no armário), use-as. Ou não use. Cabe a você decidir o que usar.   

Deixe-me citar Maria Bethânia, alguém que também está no outono: “74 anos… Não sou menina mais e, ao mesmo tempo, sou completamente menina. São sentimentos reais, não são estereótipos. Tem frescor no que escolho, no que me interessa, no que faço. É isso que me conduz.”

É minha estação preferida, mas temo não poder curti-la como merece. Sair às ruas é condição sine que non para desfrutar seu céu radiante. Passados esses dias de lockdown, bom seria se a pandemia nos desse uma trégua para que pudéssemos sair e ver o céu límpido do outono e sua sensação de leveza. Não dói pensar que poderá haver algumas brechas acompanhando a diminuição das mortes e dos infectados.

Você acredita nisso, Maria José? Não. Só em sonhos.

(Crônica publicada em “O Popular”, em 25/3/21)

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E aquele rapaz tão bom

E aquele rapaz tão bom, como gostaria de levá-lo para um lugar onde o sol não estivesse manco pois o faria abrir seus olhos para que eu pudesse admirar seus cílios formidáveis e suas faces onde a barba ainda cresceria um tanto como também seus cabelos e unhas cresceriam, como gostaria de banhá-lo em uma bacia de prata com sabonete de lavanda bem suave, seus cabelos eu os lavaria com shampoo de nenê, seus braços aguerridos prontos para descobrir seu verdadeiro amor e abraçá-lo, suas pernas musculosas há pouco formadas para caminhar pelo mundo bom que poderia ter sido o dele, mas não foi.

E aquela jovem tão linda, como gostaria de levá-la para um futuro de luz, água de nascente, esperança, onde a banharia em uma bacia de ouro, e a lavaria com o mais rico sabonete de ervas com o qual também lavaria seus cabelos longos, sua pele da uva macia, seus olhos profundos que viram tão pouco e sequer puderam vislumbrar o imenso amor que estaria a sua espera, os filhos que teria, a vida que amaria, a alegria que a acompanhou durante toda seus jovens anos, e agora jaz morta a seus pés.

E aquela outra jovem tão dedicada que lutou tanto para chegar aonde chegou e chegaria, eu a lavaria em uma bacia de pétalas silvestres de intenso perfume, passaria minhas mãos por seu rosto pálido, seus olhos fechados, suas mãos que uma vez agarraram o mundo com força, suas pernas bem feitas, seus pés pequenos, e a levaria para um lugar que a aconchegasse tão bem como o útero de sua mãe.

E aquele adolescente tão esperto, como gostaria de levá-lo para um lugar onde ele ainda pudesse crescer pelo menos um pouco mais, hormônios mudando seu corpo e seu prazer de sorver a vida com furor, sua coragem de crer que o mundo seria dele, por que não?, se ele possuía sua força, sua vontade, seu crescimento, e eu o banharia em uma bacia de cristal lavrado pelo futuro que o esperava e que agora, para todo o sempre, desapareceu.

E aquele homem tão seguro de si, confiante em seu papel no mundo, eu gostaria de levá-lo para o lugar que antes era o dele, com sua mulher e seus filhos, e o banharia em uma bacia bem areada, tirando seu suor de homem bem vivido até pelo menos o meio do que era para ser, para que, então, ele pudesse erguer suas lembranças, e as manter ali, bem firmes.

E aquela mulher tão enérgica em sua luta de vida inteira, preparando-se para sair às ruas e gritar “Basta de genocídio”, eu a banharia em bacia de arco-íris por ter dado seu amor e sua generosidade sem mesquinharia, sem hesitação, em sua luta para que a humanidade resplandecesse das mil maneiras que poderia resplandecer, eu a levaria para um campo formoso onde a paz profunda reinaria, e a cobriria com mil flores para que sua memória jamais fosse esquecida, junto com a memória dos mais de 473 mil brasileiros mortos até agora pela pandemia.

(Crônica publicada em “O Popular”, em 11/03/21)

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O CENTENÁRIO DE MAMÃE

Segunda-feira passada, 22 de fevereiro de 2021, foi o centenário não de uma pessoa pública, e sim de uma pessoa amada não só pela família mas, me arrisco a dizer, pelos que tiveram a sorte de conviver com ela.

Por isso, peço licença para falar uma ou duas coisas de Galiana, uma mulher de seu tempo.

Não fosse a pandemia, teríamos feito uma grande reunião para celebrá-la. Como é pandemia, meu irmão Px teve a ideia de fazer um pequeno livro de fotos e memórias dos oito filhos, 17 netos, 17 bisnetos, e dos mais chegados. Foi algo para a família e os amigos pois Galiana, como a maioria das mulheres de sua época, focou sua vida na família e nos amigos. A não ser nos momentos das campanhas eleitorais de meu pai, quando participava de várias iniciativas, com grupos de mulheres nos bairros e cidades próximas. Acompanhei-a em algumas delas. Íamos de casa em casa, distribuindo panfletos, tentando mostrar as razões pelas quais Peixoto da Silveira era o melhor candidato. Nas visitas às cidades próximas, havia comícios e reuniões animadas. Com seu jeito de ser, com certeza conseguiu bastante votos para seu candidato.    

Mamãe criou as filhas e os filhos com uma igualdade que não se via em muitas outras casas. Todos nós – meninas e meninos – tínhamos as mesmas obrigações domésticas. Um punha a mesa; a outra tirava. Uma lavava a escada de mármore branco, quando o Setor Sul ainda era feito de poeira e lama; o outro lavava o banheiro. Todos nós – meninos e meninas – tínhamos o horário de nos sentarmos à grande mesa da copa para fazer as lições de casa. E, depois, a liberdade de brincar como quiséssemos. Parece pouco, mas não foi. Quando, na adolescência, a autoridade de papai e as regras da sociedade quiseram nos dar outra noção do lugar das mulheres, já era tarde. Mamãe havia nos dado uma base sólida de igualdade de gêneros e, sem mesmo explicitar, criou mulheres não subservientes aos homens, e homens não machistas. Uma grande vitória na sociedade patriarcal em que ela foi criada e se formou. Agradeço-lhe muito por isso.

Quando éramos crianças, quem se aproximava para se queixar de outro irmão, recebia o mesmo castigo: um por ter feito o que não devia, o outro por ter contado o que o irmão/irmã fez. Não admitia “embaixador/embaixatriz”, dizia. Os dois tinham errado.

Não é nada, e pode ser tudo: irmãos que não delatam o outro e resolvem juntos seus problemas têm boas condições de se tornarem grandes amigos. Além do fato de sempre estarmos todos juntos, viajarmos juntos, participarmos dos programas juntos. Tudo isso forma grandes amizades e o prazer que temos de estar um com o outro.

Certamente, teve beliscões, puxões de orelha e ameaças de escovas duras em nossas peles, mas nada disso marcou ninguém.

O que marcou foi sua mão ao lado do filho e da filha nos momentos que precisávamos.

Como posso eu, filha, não homenagear hoje a vida de uma mulher assim?

(Crônica publicada em “O Popular”, em 25/02/2021)

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Sexta de Crônicas: Um caminho para o céu

É duro!

Mesmo para os muito ricos. Descobri isso quando, por uma dessas fortuidades que acontecem, recebi o International Prize for Literature, um prêmio recém instituído que já nasceu para ser quase um Nobel, um passo para o Nobel.

– O prêmio, você disse, é um apartamento no número 432, da  Park Avenue, em New York? – Revoltei. – Nem embrulhado em presente com farfalhante papel vermelho e mimo azul da Tyffani’s.

– A senhora ainda não viu o apartamento que ganhou. O 432 da Park Avenue, New York, é aquela bela torre fina de 427 metros, um dos prédios mais altos do mundo, protagonista, posso dizer assim, do auge do boom de condomínios luxuosos em New York. Apelidado de “dedo do meio” do perfil nova-iorquino. É divino! Nada mais perto do céu!

– Não pretenda me fazer de tola – supitei. – Sei de tudo isso e mais. Várias histórias a respeito desse prédio. Reclamações. Vazamentos que alagaram vários apartamentos e inundaram o poço de elevadores, colocando fora do ar, durante semanas, dois dos quatros elevadores residenciais. Já te ocorreu a simples ideia de ter que subir todos esses degraus para chegar em casa?

– Não me falto a reconhecer que tivemos um problema no sistema de encanamento já perfeitamente debelado, senhora.

– E os barulhos? – Reiterei – Os moradores reclamam dos ruídos incessantes de batidas, cliques, ranger de dentes, como se saíssem de um fantasma preso entre as paredes. Um ventinho transforma-se em temporal. O condutor de lixo soa como explosão de bomba quando o lixo é jogado e percorre as centenas de metros até a lixeira.

– Senhora. São pequenas questões que podem suceder em um edifício de tal altura, mas não se preocupe. Estão todas sendo solucionadas.

– E quanto isso está significando para o condomínio?

– 330% de aumento enquanto as obras necessárias estão em processo de realização.

– O prêmio pagará meu condomínio? 

– Lamentavelmente, não está previsto, senhora.

– Tudo bem. Não vou mesmo aceitar, a menos que seja para vendê-lo imediatamente. – Espezinhei.

– Só depois de cinco anos o contrato poderá ser repassado, senhora! Mas pense que será vizinha apenas de bilionários. Na cobertura do 96º, por exemplo, mora o magnata saudita do varejo, Fawas Alhokair. E teria sido vizinha de Jennifer Lopez e Alex Rodriguez, mas receio dizer que eles o venderam no pano passado.

– Deve ser uma reunião de condomínio nunca vista de tão insuportável. – Achincalhei. Só advogados representantes dos bilionários que jamais estarão presentes, inclusive porque o apartamento do 432 Park Avenue, New York, é apenas um de seus dois ou três locais de moradia.

– Imagine dizer: “Sou vizinha de um magnata saudita. Quase vizinha de Jennifer Lopez.” A inveja que provocará.

– Já provoco sem isso. Mas talvez eu possa trocar com o segundo prêmio. O que ele ganhou?

– O apartamento 60 andares acima do da senhora.

( Crônica publicada em 11/2/2021, em “O Popular”)

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Meu canto de trabalho

Às vezes, me pego sentando frente ao meu computador sem ter ideia do que escreverei. É como se fosse um hábito, um destino, me sentar aqui e me por a escrever. Se levanto a vista do que estou escrevendo, vejo pinturas e xilogravuras da minha primeira neta, hoje artista premiada, e a capa de um dos meus livros, o “Felizes Poucos”, a gravura de um coringa de peito aberto em uma janela aberta para um sol vangoguiano. Esse é da mãe da minha neta, minha nora (uma vez nora, sempre nora, como ela diz), também artista. Gosto muito desse curinga. Briguei por ele. Meus primeiros leitores – Felipe, inclusive – a princípio não gostaram dele. Mas quando entraram as ilustrações que o acompanham é que concordaram com o que pretendi dizer com ele.

Ao meu lado, a desordem/ordem habitual de minha mesa de trabalho, com seu porta-lápis abarrotado, minha agenda, papéis (sou acumuladora de papéis), livros (idem de livros), porta-retratos e as flores artificiais que amo (não ouso colocar flores naturais sobre minha mesa de trabalho por temor que um gesto desastrado meu possa virar o vaso e espalhar água e flores para todo lado. (Já aconteceu.)

Antes, minha mesa era bem maior. Quando mudamos para esse apartamento menor, de casal sem filhos em casa, eu – que sempre trabalhei na sala, fiquei com a mesa menor do Felipe, e ele ficou com a minha em seu escritório de fumante (é verdade que ele anda fumando bem menos hoje, mas ainda fuma, e como portadora de enfisema, nem me aproximo quando vejo a porta fechada).

Naquela mesa maior, escrevi a maioria dos meus livros. Nesta, menor, terminei o “Maria Altamira”, revi outros que ainda não foram publicados, e iniciei, no começo deste mês de janeiro, meu novo romance in progress. Aqui passo todas as minhas manhãs. É meu pequeno ritual de escrita, vir para cá todas as manhãs.

Eis então porque esse meu canto é meu lugar. Passo aqui boa parte de minha vida. Mesmo considerando a mudança de apartamento, o clima no entorno dessa mesa e desse computador, é o mesmo. Veio comigo. Sou eu. Ou uma grande parte de mim.

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Cansaço pandêmico

                                         

Tudo indica que entrei nessa fase.

Com a frustração desencadeada pela disputa de Bolsonaro com Dória, atropelando a Coronavac, e a demora em chegar outras vacinas e insumos devido à política de isolamento e desfeitas internacionais a que o desgoverno nos condenou, uma sensação de “cansei!” foi entrando e solapando energias.

Confesso.

Estamos agora, em São Paulo, na fase vermelha nos finais de semana e várias restrições. Mas a minha rua não está quieta. Entre os zumbidos dos carros, as gargalhadas do garoto na varanda do apartamento em frente ao meu, do outro lado da rua, me consolam. Esse garoto, Sebastião, é o primeiro filho de um jovem casal. É parecido com meu neto, Gael, e suponho que a idade é mais ou menos a mesma: dois anos. Quando ele aparece na varanda, vou para a minha janela, lhe aceno e mando beijos, aos quais ele corresponde, em geral, claro, estimulado por um dos pais. Isso me alegra. O que, suponho, revela a imensa saudade criada por quase um ano distante do Gael.

Sei disso, e por isso mesmo, gosto de ouvir as gargalhadas do Sebastião.

Fora isso, escrever – o que significa entrar em outro mundo – é o que também me tira do cansaço. Agora em janeiro, comecei novo romance. Será sobre o Planalto Central, o cerrado, as nascentes dos rios que enfrentam o começo de sua extinção, as pedras rupestres deixadas por nossos ancestrais. Por enquanto, é tudo que sei. Imagino que até o final desta empreitada, terei que fazer uma viagem por algumas regiões de Goiás. Conhecer algumas pedras rupestres que descobri pela Internet. Creio que será uma alegria triste ver/rever alguns locais. Ou não. Veremos se a pandemia me deixa fazer pelo menos uma parte disso.

Ah, pandemia, basta! Deixe que as vacinas cheguem e a expulsem dos nossos horizontes! Ninguém aguenta mais!

E aí, o inevitável: o meu cansaço se insinua outra vez quando me surge à cabeça, como se uma puxasse automaticamente a outra, a pandemia maior do que a primeira, inclusive porque a primeira depende muito dessa outra: a pandemia que nos desgoverna há dois anos. E antes que o cansaço me faça levantar do computador, deixem-me passar rapidinho para outro assunto e levantar meu grito de #ImpeachmentBolsonaroUrgente!

O outro assunto: um livro importante para compreender o que nos acontece: “A Guerra Cultural e a Retórica do Ódio”, de João Cezar de Castro Rocha, renomado professor da UERJ, autor de vários livros. Prestigiadíssimo. Pois bem. Com sua extraordinária capacidade de trabalho, ele nos fez o favor de se debruçar sobre os livros e vídeos e filmes e musiquinhas de Olavo de Carvalho e seus acólitos, para destrinchar o que e como eles, desde décadas atrás, adotam e se esmeram em espalhar entre nós. Recomendo a leitura do livro que, inclusive, inova no estilo de ensaios, assumindo um tom coloquial e (quase) divertido. Seria divertidíssimo se fosse ficção. Como não é, o riso, quando vem, é mais um ríctus.

Temeroso e amargo.

(Crônica publicada em “O Popular”, 28/01/2021)

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Nossa megalópole cotidiana está no romance PAULICEIA DE MIL DENTES

(“Casa das Rosas”, foto de Zé Gabriel.)

Esta cidade que amamos e odiamos completa 467 anos neste 25 de janeiro.  Para uma cidade, não é nada. E seja como for, valeu, São Paulo! Abaixo, um trecho do meu “Pauliceia de mil dentes”, um romance que você, megalópole, com sua pujança e diversidade, protagoniza.

“Percival, Percília, Perci

Como é lindo, como é lindo, como é lindo!!

Ressignificação do sexo, verdadeira identidade feminina, dignidade da pessoa humana!

Chorei várias vezes lendo essa petição. Solucei. A Dra. Dalila teve que me levar para uma salinha do escritório e me dizer que eu me sentasse e me acalmasse. Foi quando conheci a japonesinha. Dra. Lila lhe pediu pra ficar comigo até eu ter condições de sair dali sem dar o vexame de sair soluçando. A mocinha me trouxe um copinho d´água e se sentou toda delicadinha na poltrona à minha frente. Magrinha, olhinhos puxados. Um lótus, não é assim que chama aquela flor do Japão? Disse, Vai dar tudo certo, você vai ver, Dona Percília. Pode demorar um pouco, mas a Dra. Lila tem certeza de que vai conseguir todos os seus direitos. E falou de um jeito muito sincero, Você já deve ter sofrido muito, e pegou na minha mão. Solucei mais. A essas alturas meu lenço já estava encharcado. Eu tenho mesmo essa queda pro drama, é minha natureza de artista, nada posso fazer senão aceitar. Faz parte da minha sina. E foi então que me deu assim uma compulsão de contar praquele lótus delicado o que não tive coragem de contar pra Dra. Lila. As partes mais negras da minha vida, as que me matam de vergonha. A doutora não tem nada a ver com esse lado duro das coisas, o lado tenebroso, o lado mau. Não faz parte do seu mundo, e ela tem razão em não querer pormenores. Sabe que esse lado existe, não é alienada, e faz o que pode contra ele, mas não quer se aproximar demais. Tá certa. Tem esse direito. Mas se não contei pra doutora nada das coisas mais tenebrosas de minha história, desabafei naquele dia de fragilidade com aquela flor de cerejeira sentada à minha frente, segurando minha mão. Contei o dia que os meninos da Escola Fundamental me obrigaram a fazer xixi perto deles, e riram daquela tripinha pra fora que era aquela coisa em mim, aquela excrescência. Nunca mais fui capaz de urinar na frente de ninguém. Não urinava na escola, e quantas vezes passava o dia inteiro sem urinar só de pavor de ir a um banheiro público. E contei aquele dia trágico dia da adolescência em que tentei fazer um corte bem ali embaixo para colocar aquela coisa pra dentro num desespero, num surto que me fez quase morrer! É curioso, mas a lembrança que tenho não é da dor física, como se eu não tivesse sentido esse tipo de dor ao fazer o corte em mim com a faca afiada de cortar carne da cozinha. Só a lembrança da outra, a dor da angústia tremenda, da loucura momentânea. Quando cheguei em casa fora de mim, depois da milésima humilhação, os meninos atrás, abaixando minha calça e me fazendo tirar a calcinha que eu tinha roubado do varal de uma casa longe da nossa e que ficava enorme pra mim eu era o terror das calcinhas nos varais, agora até dá pra rir mas naquela época, não , eu correndo dos meninos, e a exposição, os gritinhos, as risadas, as piadinhas infames. Passei dois dias no hospital e, não bastasse isso e a enorme dor psíquica, quando cheguei em casa, meu pai quase me matou com seu cinturão. Por pouco não voltei outra vez para o hospital, embora, pensando depois, tenha sido de certa forma um acontecimento com desdobramentos bons, pois foi o dia em que decidi que ia ter que buscar outro tipo de vida ou então apressar minha morte. Meu pai sofreu demais comigo, hoje compreendo isso, compreendo até bem compreendido, mas naquele tempo eu não tinha como compreender nada, nem o meu sofrimento nem o dele. Se minha mãe não tivesse morrido tão cedo, talvez tivesse me apoiado, não sei, gosto de pensar assim, mas a lembrança dela é tão vaga, tão esfumaçada, tão distante. Se um dia eu voltar a conversar com meu pai, o que eu mais gostaria de perguntar a ele seria como a conheceu. Como se apaixonaram os dois, ou será que nunca se apaixonaram? Não sei. Ele pode ter se apaixonado e ela não. Ou ela sim e ele não. Acontecia cada coisa antigamente! Mas se tem uma coisa que me lembro de minha mãe é que ela ria muito e cantava. As músicas dela, as musiquinhas de ninar de quando eu fui bebê. Também me pintava muito de urucum vermelho. Se pintava e me pintava, nós dois com o rosto pintado de vermelho esperando o pai voltar da loja. Não me lembro do que ele dizia quando chegava, não sei se achava bom ou não. Dele, só sei das surras e xingamentos. Nem sei se ele é um cara bacana, honesto, como vou saber? Não sei mesmo. Eliseu gosta dele, mora com ele até hoje, o que acho também incompreensível, um marmanjão como meu irmão ainda na casa do pai, mas os dois se dão bem, então imagino que ele deve ter seu lado de homem bom. Não tenho certeza mas parece que eu o vi chorar na noite que voltamos pra casa depois do enterro da mãe. A coitadinha morreu tão nova de tuberculose, meu Deus, ninguém morre mais de tuberculose hoje em dia, mas ela morreu, e deixou Eliseu bebê. Meu bebê. Eu tão menina cuidando dele como se fosse meu filho-irmão. Tem certas coisas que só mesmo a vida, conforme ela vai passando, é que nos faz entender. Ensinei pra ele a me chamar de mamãe, escondido do pai, e ele me chamava, aquela gracinha, Mamãe, mamãe! Fui feliz aquele tempinho, fui mesmo.

Apesar de tudo que era obrigada a fazer.

Ainda quando estava em casa, bolei um sistema de apertar tanto meu pênis que nem dava pra perceber que ele existia. Como ele era minúsculo, não era difícil mesmo. Muito depois, quando vi o Edson Celulari numa peça de teatro, aquele homem lindo fazendo Calígula, imaginei que ele devia usar um sistema parecido com o meu. Tinha um momento na peça que o Celulari praticamente virava uma estátua sem pênis, puxando o dele pra trás com o mesmo efeito de quando eu puxava o meu, só que o dele devia ser muito maior, e eu ficava como extasiada com a maneira como ele conseguia! Nunca, jamais, vou me esquecer daquela imagem. Fazia tudo parecer possível! Sempre adorei teatro, show, o mundo de fantasia e sonho, e essa peça eu vi tantas vezes que perdi a conta. Gastava todo o dinheiro do meu salário nisso, meu primeiro emprego de verdade, saí de casa tão jovenzinha, quer dizer, fui expulsa mas eu ia sair mesmo de qualquer maneira, não dava pra ficar morando ali, com aquele pai italiano e bruto. E foi quando comecei a achar que tinha que haver um jeito de tirar aquele troço de mim. Mais ou menos a época que comecei a ouvir falar da cirurgia. ”

(Trecho do meu romance PAULICEIA DE MIL DENTES, publicado pela Prumo/Rocco)

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