Sexta de crônicas: Nosso pequi tá virando Slow-food

Com tantas questões urgentes, candentes e perturbadoras acontecendo no país, vou dar uma trégua às inquietações e falar do pequi.
Não da minha saudade do arroz com pequi amarelinho que em terras paulistanas é quase inexistente, nem da fragrância apetitosa do grosso molho amarelão da panela do frango com pequi invadindo uma casa goiana.

Falarei do pequi gigante da região do Xingu.

Muita gente não gosta de pequi. Seu aroma é muito forte, dizem. E o sabor difícil de digerir não compensa a habilidade que exige para ser comido sem correr o risco de cravar na boca suas centenas de espinhos finíssimos.

(Não sabem o que estão perdendo, mas reconheço que há certa verdade nisso, ainda que, boa goiana que sou, irei pra tumba sem admitir.)

Acho que ninguém – nem o mineiro – gosta tanto de pequi como o goiano e, talvez, o mato-grossense. É um gosto entranhado em nosso DNA, um legado de nossos bisavós indígenas das regiões do Cerrado. São eles quem mais conhecem e defendem esse fruto especial de nossas árvores nativas. E se tem algo que me impressiona é ver como eles, os indígenas, a todo momento são capazes de nos surpreender, reafirmando a inesgotável riqueza de nossas matas e como é crucial para nós, brasileiros, protegê-las.

Pois vejam o caso do pequi gigante que há séculos existe nas roças do povo Kĩsêdjê, no Xingu, e é parte de sua culinária, mitos, rituais e festas. De uns anos para cá, tornou-se também uma alternativa para recuperar áreas degradadas pela ação de fazendeiros no território indígena. Plantando pequizais, os Kísêdjê conseguiram recuperar a fertilidade do chão, além de extrair e comercializar seu óleo, juntando recuperação ambiental com renda sustentável.

Instalaram uma mini usina na aldeia e a extração do óleo começou. Só que o processamento diferente do método tradicional dos índios produziu um resultado inferior. Mas quando uniram o método deles às inovações tecnológicas conseguiram o excelente Óleo de Pequi do Povo Kĩsêdjê do Xingu, Hwin Mbê. O produto recebeu o Selo Origens Brasil e foi reconhecido pelo movimento Slow Food como um produto importante da biodiversidade mundial.

Homens e mulheres em mutirão colhem a fruta que depois cortam, separam a polpa e a semente, cozinham e batem forte para extrair o óleo que é decantado e filtrado. Não sei bem como fazem tudo isso, mas imagino o aroma do pequi se espalhando pela aldeia e, com esse preparo requintado, podendo chegar depois a alguns bons restaurantes daqui de São Paulo, onde às vezes o encontro e mato um pouco as saudades.

Sentindo o aroma de dar água na boca, agradeço aos Kĩsêdjê.

Como goiana, não serei iconoclasta a ponto de dizer que esse óleo é como o pequi que inunda com seu cheiro nossas casas e que logo, sentados à mesa, pegamos com a mão e raspamos com os dentes. Não é igual, mas traz o sabor da comida reconfortante da terra.

Para quem mora longe, já é alguma coisa.

(Publicado em “O Popular” em 25/04/2019)

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Sexta de crônicas: Breve em uma escola perto de você

“Crianças: hoje vamos falar das abelhinhas, criaturas encantadoras que nos dão o mel e as doçuras da vida e que, neste maravilhoso país que Deus nos deu, temos pelo menos de dois tipos, uma bem miudinha, marronzinha, nativa, mansa, até pode-se dizer vira-latinha (rsrsrs), que fica lá na dela fazendo seu melzinho sem prejudicar ninguém. Quem foi que criou? Deus. Mas temos também as agressivas, as africanas mais pretinhas (ui! quase disse pretonas pra ficar engraçado, foi mal, rsrsrs), essas que picam mesmo, não levam desaforo pra casa, não reconhecem seu lugar no mundo, e quem criou? Sim, sim, também foi Deus que, em sua infinita sabedoria, deu a elas um mel parece até que melhor. Não sei. Pode ser Fake News, confirmo depois.
E por que Ele criou tantas abelhas?, vocês perguntarão. E responderei por que Ele é justo. No Final da Criação, quando viu aquela terra toda, sobretudo nosso gorjeante país com tantas maravilhas, tantos animais mansos e ferozes, tanta água exuberante que serve para tanta coisa, e com tanta terra, terra vermelha, marrom, terra de todas as cores, fertilíssima, coberta com o verde varonil de nossas florestas, plantas, flores e frutos, Ele pensou, “Caprichei, mas faltou uma coisa: como vai ser depois que todas essas plantas secarem? Como este meu lindo mundo vai sobreviver? Não tem como! Fiz tudo tão interligadinho, tão pregadinho um no outro!” E então, em sua perfeição, Ele imaginou as abelhas, e lhes ordenou que fossem de flor em flor tirando o pólen de uma e colocando na outra. Isso, no caso delas, se chama polinização – aprendam a palavra que vai cair na prova. E, assim, para sempre novas árvores, plantas, flores nasceriam, a chuva choveria, os rios cresceriam, os homens se congratulariam, e o mundo continuaria sendo belo como Deus criou. Entenderam?
Entendi, tia. Mas Seu Bené disse que tem trilhões, zilhões de abelhas morrendo aqui no Brasil.
Que Bené é esse, menino? Não acredite em ninguém que não seja esta professora. Há muito Fake hoje em dia. Vocês sabem o que é Fake, não sabem?
Sabemos, é tipo mentira. Mas tava na tevê também.
Na Record?
Sei lá! Sei que tavam dizendo que as abelhas todas tão morrendo por causa dos venenos que dão pra elas.
Que lorota, hein?! Como vão dar veneno para zilhões de abelhas? Aprenda a pensar, menino.
É que eles mostraram o veneno caindo do céu, tia.
Não diga barbaridade!
São aviões que jogam na plantação, tia. É um veneno de nome grande, num lembro direito.
O mais importante você nunca lembra.
Sei que começa com A e tem X no meio. Vamos brincar de forca como a senhora gosta? A turma ajuda.
OK! Coloco na lousa o A, e sendo palavra grande, deixo 10 espaços. E um X, que vou colocar aqui! Pronto! Comecem a adivinhar a palavrota (ui, desculpem, foi mal, rsrsrs).
A G R O T Ó X I CO gritou a criançada que sabia.
Foi Deus quem criou, tia?

Crônica publicada em “O Popular”, em 11/abril/2019

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“Palavra Desarma”

Já falei aqui do “Mulherio das Letras”, movimento de escritoras (publicadas ou não) que se uniram para debater questões relativas ao mundo dos livros. Encontraram-se pela internet e hoje, espalhadas por muitas cidades, discutem e divulgam seu trabalho, organizam pequenas atividades, e um grande encontro anual.

Sendo, como somos, mulheres preocupadas com a sociedade, e voltadas para o desejo de um mundo justo, há certos momentos em que nos sentimos obrigadas a nos manifestar sobre o que vemos acontecer no país.

Assim, nasceu agora o “Manifesto do Mulherio das Letras por um Pacto Coletivo de Desarmamento”.

O manifesto não é grande, mas não cabe aqui. Deixo, então, um resumo de suas colocações fundamentais. Ei-lo:

“Neste momento, no Brasil, é difícil quem de nós não se sinta no meio de um tiroteio cerrado.
(…) Temos carregado no peito muita tristeza e muito medo. E no meio de tantas guerras, cada vez mais permanentes (…), o que fazer para sobreviver de pé? (…)
Como se não bastasse, ainda nos ronda, enlouquecido, todo um discurso pronto que nos incentiva a reagir simplesmente nos armando mais: a nossa vida em sociedade seria então toda feita de olho por olho, dente por dente, fera contra fera. Já há até quem considere razoável recomendar que professores andem armados em salas de aula. Como já houve quem chegasse a defender que eventuais adversários fossem sumariamente fuzilados. E como há inclusive mil brincadeiras de matar sendo ensinadas às crianças, desde cedo, assim como há futuros sendo mortos de verdade junto delas.
Nós aqui, no entanto, temos que dizer em alto e bom som: nossa luta se faz é com palavras, e o que elas podem fazer é justamente o contrário disso tudo.
Porque palavra desarma.
Sabemos bem que, quando estamos com crianças, poucas coisas criam tanta conexão e respeito quanto as histórias que contamos e as conversas que podemos ter (…).
Com jovens, é de novo a palavra que tantas vezes evita tragédias: é conversando que se pode superar mal-entendidos, solidões dolorosas, sufocos sem fim, explosões inarticuladas.
E quando estamos entre adultos, nada poderia nos proteger mais do que uma boa prática argumentativa. É através dela que poderíamos nos ouvir de verdade, aprender uns com os outros, ver nossas crenças confrontadas, arriscar-nos a evoluir. E é ouvindo argumentos bem embasados e debates públicos transparentes que poderíamos de fato reconhecer o que está em jogo a cada embate, a cada escolha, a cada eleição.
Nesse sentido, não temos dúvida de que tudo o que recusa, interrompe ou silencia o debate (…) é também o que nos empurra para a briga cega e para a fantasia fácil de que é possível resolver tudo na base do tapa, do soco, do tiro.
É também por isso que nós estamos aqui, trabalhando com palavras. Todos os dias. (…)
Porque precisamos testemunhar uma vez mais que há outros caminhos para resolvermos nossos conflitos (…) sem nos transformarmos todos, no fim das contas, em potenciais vítimas ou potenciais assassinos.
Porque palavra desarma – e um Pacto Coletivo de Desarmamento é só o que ainda pode nos salvar do aniquilamento coletivo e nos obrigar a dar, enfim, um belo e articulado passo adiante.”

(Crônica publicada em “O Popular”, 18/01/2019)

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Sexta-feira de crônicas: Feliz Mês de Março

No Brasil, desde o início deste ano, 126 mulheres foram mortas em razão de seu gênero além de sofrer 67 tentativas de assassinatos, segundo a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH).
As estatísticas estão nesse pé:
– 13 mulheres são assassinadas por dia;
– 7 desses assassinatos são praticados por pessoas próximas à vítima e poderiam ter sido evitados;
– em mais de 70% dos casos, o parceiro (marido ou namorado) é o assassino.
Não é um problema isolado. O feminicídio faz parte de um padrão de violência de gênero arraigado em uma sociedade onde o machismo é, ainda e irremediavelmente, um fato.
Eis alguns casos emblemáticos deste começo de ano, de norte a sul do país. Cito os nomes das mulheres mas não dos perpetradores do crimes hediondos:
– Na madrugada do Ano Novo, no Rio de Janeiro, Iolanda de Souza foi assassinada com dezenas de facadas pelo ex-marido.
– Em Franco da Rocha, interior de São Paulo, Isabela Miranda, universitária de 19 anos, foi estuprada pelo cunhado, e espancada e queimada viva pelo namorado de 21 anos.
– Em Itapipoca, Ceará, Lucilene Galdino Albuquerque, 51 anos, foi assassinada a facadas pelo companheiro dentro de casa na noite de um domingo.
– Em Campina Grande, Paraíba, Luciana Buriti foi assassinada com 50 facadas. O principal suspeito é o ex companheiro que está foragido, pai de seu filho de três anos.
– No Agreste de Pernambuco, Rejane de Oliveira Cosa foi morta em um bar, com um golpe de faca no tórax, por se recusar a ter um relacionamento com o assassino.
– Em Garibaldi, no Rio Grande do Sul, Jocelaine de Paula Neto, 45 anos, foi assassinada a facadas pelo companheiro bêbado.
– Em Forquilhinha, Santa Catarina, Rosane Apolinário Dahmer, de 42 anos, foi estrangulada e depois degolada pelo marido.
– Em Mundo Novo, Goiás, Marciana Guimarães da Silva, 30 anos, teve o pescoço cortado. O principal suspeito é o homem com que se relacionava e se encontra foragido.
Silvia Chakian, promotora de Justiça e coordenadora do Grupo de Atuação Especial de Enfrentamento à Violência Doméstica, do Ministério Público Estadual de São Paulo alerta:
“A maioria das mulheres [vítimas de violência doméstica] não acredita que vai morrer, pensa que não é tão grave assim. (….) é muito frequente acreditar que grave é aquele caso que sai na mídia, aquele caso terrível que passou na televisão, mas não a violência que sofre dentro de casa. Ainda existe uma tendência da própria vítima de minimizar aquele episódio de violência e não acreditar no risco que corre.”
“A motivação não é ciúme” – diz a promotora. – “É um crime de poder. Quando o sujeito mata uma mulher porque ela não o quer mais, não quer mais o relacionamento, ele está dizendo que manda naquela mulher. É muito mais grave do que simplesmente sentir ciúmes de alguém. Não é em um ato de loucura que o homem mata a mulher. É como se fosse uma tragédia anunciada.”

Crônica publicada no jornal “O Popular”, em 14/3/2019

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Os interessados que se aproximem

Olá, queridos leitores deste blog:

Passo aqui hoje para avisar que já tenho novas vagas para quem estiver procurando um “olhar externo” para seu original de ficção. Faço “leitura crítica”, com sugestões, comentários e dicas.
Espero os interessados nos comentários deste blog ou em meu e.mail.

Até lá!

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Terra sem Males: um romance-fantasia com o imaginário brasileiro

No Brasil, o romance-fantasia é considerado de somenos importância pela crítica.
Mas é uma delícia escrever esse gênero, espaço de pura imaginação.

Na “Terra sem Males”, o que fiz foi trabalhar com o imaginário brasileiro, os queridos monstros das nossas lendas e folclores.
Nada de castelos, dragões, bruxas ocidentais, unicórnios, donzelas e príncipes, e sim aldeias indígenas, rios portentosos, saci, curupira, Boitatá, Iara, a Véia Pisadeira, cangaceiros, e as queridas Icamiabas, também conhecidas como Amazonas, as poderosas guerreiras. Todos eles, envolvidos por nossa natureza tropicalíssima, defendem o povo da Terra Sem Males da cobiça sem sentido dos poderosos do Eldorado, com seu exército de mercenários e morto-vivos.

A batalha é feroz. Muitos morrem. O sangue corre. A floresta grita.
Quem vence? Como vence?
Leia o livro para descobrir. Está na Amazon para ser lido no Kindle e artefatos similares.

Garanto diversão e horrores, risadas e ranger de dentes.

E se vocês gostarem, me avisem.
Preciso do retorno dos leitores para saber se querem uma continuação.

Esta à venda apenas na Amazon: https://www.amazon.com.br/TERRA-SEM-MALES-romance-fantasia-ebook/dp/B07HCNQ57V/ref=sr_1_1?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&keywords=terra+sem+males&qid=1552070028&s=gateway&sr=8-1

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Saindo do Carnaval mas levando a fantasia: conheçam “Terra sem Males : um romance fantasia”

Meu romance “Terra sem Males” foi finalista do Prêmio Kindle 2019. Não ganhou o prêmio mas ter sido finalista já foi surpreendente porque no Brasil, em geral, o romances fantasia não costuma ter nenhuma atenção da crítica. Pelo contrário. É quase sempre considerado algo fora do cânone. Quem escreve fantasia sabe. Por isso, fiquei contente quando Janaína Sena, da Editora Nova francesa, que participa com o Kindle do prêmio e é responsável pela escolha do júri, fez o seguinte comentário:

Terra sem males, de Maria José Silveira, é um romance fantasia que atualiza na narrativa elementos do nosso folclore a partir de uma declarada reverência a um dos pontos altos do modernismo brasileiro, o Macunaíma, de Mário de Andrade. Como herdeiro direto dessa linhagem rapsódica, o texto mescla, com muita destreza, suspense, humor e todos os elementos de um bom embate épico.”

Bonita também é a apresentação que o Nelson de Oliveira fez para o romance:

“Dialogando com os mitos amazônicos e a melhor tradição modernista, Maria José Silveira escreveu um romance simplesmente mágico.
Deuses e demônios de nosso folclore misturam-se com as imbatíveis guerreiras da Cidade das Tendas, com os homens, as mulheres e os jovens da aldeia do Primeiro Povo e da aldeia do Povo da Chuva, três grupos prestes a se confrontar com os gananciosos senhores do El Dorado e seu exército, que cobiçam sobretudo o segredo da Terra sem Males.
Nesse conflito épico há também a irreverência deleitosa dos gêmeos Macu e Naíma, uma homenagem ao célebre protagonista da rapsódia de Mario de Andrade.
O talento de Maria José Silveira, tão atento às questões brasileiras e sul-americanas, produziu esta apaixonante narrativa em que a esfera social e a esfera sobrenatural são um só campo de forças, uma só utopia. Trata-se de uma ficção que em boa hora nos devolve uma memória preciosa: já houve um tempo e um lugar em que tudo era sagrado.”

Querem ler?
Está lá na Amazon, para ler no Kindle. Com um precinho super camarada.

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