Sexta-feira de crônicas: Um sonho dele

Ele sonhou com a casa dela, uma casa onde jamais pusera os pés.  

Jamais conheceu nenhuma casa onde ela depois morara, nem sabia onde seria, mas sonhou com essa, que não era bem uma casa, e sim um apartamento, um apartamento pequeno; um apartamento acanhado, a janela dando para uma rua estreita, tão acanhada que o prédio em frente quase se deixava tocar. Tampouco era uma rua por onde passara alguma vez, era estranho. Tudo meio escuro, obscurecido, enevoado, como em geral são os sonhos dele. O prédio, a rua, o apartamento, toda a atmosfera. Menos o clima do próprio sonho.

O clima do sonho não era sombrio. Era suave, como se um pouco à espera, como se fosse, talvez, um rescaldo de expectativas não cumpridas, naturalmente não cumpridas, sem nenhum travo de remorsos, arrependimentos, nada disso. Era apenas como se fosse a lembrança de sentimentos passados de sua vida, uma vida no geral boa, plena de escolhas que faria outra vez sem pestanejar.

 O sonho era assim – quer dizer, parecia um baú de pequeninos tesouros, sim, isso: um baú de pequenas joias da lembrança obscurecidas pela pátina do tempo, momentos do passado que compunham o painel de sua vida. As muitas recordações de uma vida guardadas no baú tranquilo de seus sonhos enevoados, exatamente o lugar que lhes correspondia. Pequeninos tesouros que brilharam em algum momento e depois perderam o brilho, mas continuavam lá; obscurecidos, é certo, mas não completamente esquecidos, como em geral são as lembranças boas guardadas em seus devidos lugares.

Muito de vez em quando ele ainda a via, a dona daquela casa desconhecida, mas já nem se podia sequer dizer que eram amigos, e nem que tivesse desejos de vê-la mais ou de ter sua amizade. Pensou, no entanto, com humor, que conhecendo bem a figura como conhecera, se por acaso a encontrasse e lhe contasse que sonhara com uma casa dela que jamais conhecera, podia imaginar a reação. Certamente acharia que ele ainda pensava nela, e provavelmente se gabaria disso, presunçosa como sempre fora. Claro, poderia ter mudado, mas há séculos isso deixara de ser de seu interesse, não lhe dizia mais respeito.  

E naquela manhã, depois desse sonho raro, com o tipo de atmosfera de que são feitos os sonhos, ele não acordara nem pior nem melhor, nem mais feliz nem menos. Acordara como sempre, e até lhe passou pela cabeça contar para sua mulher o que havia sonhado. Mas, não, melhor não. Ela poderia entender mal. Ciúmes do passado, uma das grandes besteiras da vida; melhor deixar quieto. Sonhos são névoas que vêm e vão, passam, já passaram.

E de fato, quando se sentou para tomar o café-da-manhã, o sonho já sumira por completo em sua própria e misteriosa nebulosidade.

(Texto publicado em O Popular, em 23/9/2001)

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Uma resposta para Sexta-feira de crônicas: Um sonho dele

  1. Uau, adorei a atmosfera do texto!!!

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