Sexta de Crônicas: Data ao reverso

Escrevo neste 7 de setembro convocado como uma espécie de dia D ao reverso, demonstração de força para algo jamais visto, um golpe publicamente ensaiado. São surpreendentes as manhas deste desgoverno: já não prepara o golpe tentativo no escuro dos bastidores, mas o propala aos quatro ventos.

Foram dias de tensão que envolveram todo o país, por um ato leviano de um desgoverno transtornado. Até onde seguirá? Incitar o uso de armas, mobilizar policiais militares e milícias, provocar o STF, a Constituição e o ódio são crimes contra a Democracia.  

Foi como se Bolsonaro pretendesse tumultuar ainda mais nossa vida, sem atinar (ou, talvez, atinando) que 2/3 dos eleitores estão contra ele, número que só aumenta.

Outro fato também me preocupava. Desde agosto, seis mil indígenas, de 176 povos, de todas as regiões do país, estavam presentes em Brasília, reunidos no acampamento “Luta pela Vida”, mobilização histórica do movimento indígena. Estavam ali para acompanhar o julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF), que definirá o futuro das demarcações de Terras Indígenas. Enquanto esperavam, iluminaram a Esplanada com sua arte, cantos, rezos e danças.

Como a votação foi adiada, muitos indígenas tiveram que voltar para suas terras, mas a mobilização continuou com cerca de 1.200 lideranças indígenas. Que ficarão em Brasília até que se defina essa questão de vida e morte: o Marco Temporal é mais uma tentativa de tirar terras dos indígenas, como se não bastasse o quanto já lhes foi tirado desde 1500. Seu propósito é colocar a promulgação da Constituição de 1988 como marco para considerar como terra indígena apenas o local onde eles estavam nessa data. Sem considerar que, naquele momento, muitos já estavam expulsos de suas terras. Seria como se nos expulsassem de casa e depois nos dissessem que não poderíamos retornar a ela porque a casa não era mais nossa. 

Este 7 de setembro também coincidiu com a data há muito agendada para a 2ª. Marcha Nacional das Mulheres Indígenas, em Brasília. Quatro mil mulheres de 150 povos, de todas as regiões e biomas do país chegaram para a festividade que acontece durantes três dias. Chegaram também para se unir aos que estão dando continuidade às mobilizações dos povos originários em luta por seus direitos.

Como será este ano a Marcha das Mulheres, sempre acompanhada de danças, músicas e belas imagens, realizada no amplíssimo espaço público da Esplanada dos Ministérios, se por lá ainda estiverem grupos bolsonaristas?

Com certeza, outro ponto de tensão.

Tanta tensão me fez lembrar outra, quando o desfile de 7 de setembro era realizado pelos colégios da cidade. Nunca tinha participado, mas entre meus 11/12 anos, por fim, minha escola desfilaria. De uniforme nos trinques, sapatos e meias brilhando, cabelos penteados pela primeira vez no cabelereiro, lá fui eu, puro orgulho. Não vi o bueiro destampado à frente. Caí. Lágrimas escorrendo, saí com uniforme rasgado, penteado desfeito, pernas arranhadas. Acabou meu desfile.

Ocorre-me, então, uma visão: que tal se os que desfilaram nesse dia tivessem encontrado, a sua frente, um gigantesco bueiro destampado?

(Crônica publicada em O Popular em 9/9/2021)

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