Sexta de crônicas: Uma praia na Bahia

                                                               Para Sergio e Nalu                        

Houve uma semana combinada e muito esperada, uma ruptura radical do meu cotidiano. Um encontro familiar em uma praia na Bahia.

Belo pedaço onde reina a natureza. Quilômetros de areia intercalados por pequenos montes de pedra. Quilômetros de palmeiras. Milhas e milhas de mar. Brisa constante que esconde o calor. Passarinhos de cabeças vermelhas como cardeais descendo para ciscar alguma coisa na grama, enquanto outros pássaros, menos afoitos, apenas passam sobre nossas barracas em seu voo corriqueiro. As ondas se dobram e desdobram como se nos chamassem, mas não, o mar é bravio. Fosse ainda jovem, eu iria. Agora me tornei apenas uma observadora quando os mares são bravios. E faço uma constatação sem querer, uma constatação sobre a idade, uma constatação que reluto em reconhecer mas pressinto que devo aceitar, a de que também na vida posso me tornar assim, uma observadora, quando vejo um mar bravio a minha frente, temendo aceitar o convite das ondas insistentes. Mas dou um passo e deixo que elas banhem pelo menos minhas pernas. Despudoradas, elas erodem a areia por baixo dos meus pés, rompem meu equilíbrio, quase caio, mas recupero. A natureza me envolve e muda o rumo dos meus pensamentos. 

Estamos todos vacinados, todos deixando, ainda que por curtíssimo prazo, o país esquecido lá fora. Somos um grupo pequeno, mais restrito. Irmãos, sobrinhos e parceiros de vida. Família é coisa bonita. O chão de onde partimos. Felizes aqueles que têm o privilégio de contar com sua família para as horas de alegria. Nossas conversas têm gosto da infância, de vida vivida, que só recuperamos nessas horas. O gosto de nossa terra, nossas músicas, nossa comida (teve até pequis e biscoitos de queijo trazidos de Goiás).

Da cidade, vi pouco. O famoso “Gabriela, cravo e canela” de Jorge Amado virou um de seus protagonistas. Nem falo do bar Vesúvio e outros lugares que, como no livro, ainda estão lá, mas das barracas de praia que incorporam sorridentes Gabrielas e seu Nacib. Me pergunto se o povo da cidade lê o livro, se é adotado nas escolas. Ou se tornou apenas mais uma fantasia para turista ver. E o turista? Será que algum vai à procura dos personagens e lugares do romance? Seria bonito, se fosse.          

De lá eu trouxe chocolates e um gin formidável, feito de zimbro, cacau, coentro e pacová. Quem gosta de gin pensará que estou exagerando ao compará-lo ao Tankeray, mas comparo. Podem anotar: Gin Dengo.

Na volta, o aeroporto minúsculo transborda de gente. O motorista do táxi avisa que ele é de propriedade privada, o dono nada faz, e no verão, com a multidão de turistas que a cidade atrai, torna-se mais assustador do que é agora, fora de temporada.

Respiramos fundo e seguimos em frente. A vida real nos espera; ao que tudo indica, sem sair do lugar.

(Crônica publicada em O POPULAR, em 26/8/21)

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