Sexta de crônicas: Tempos interessantes

TEMPOS INTERESSANTES

                                               Maria José Silveira

A conhecida história de maldição chinesa pesa sobre nós. Aquela em que um sábio pedia à divindade que lhe fosse dado a graça de não viver em tempos interessantes. Já nós certamente pedimos com pouca fé pois não paramos de viver dias alarmantemente interessantes.  

É possível, no entanto, que estejamos entrando em um momento em que os fatos estão dando uma volta a nosso favor. A CPI da Covid-19 está empilhando provas dos absurdos acontecidos no Ministério da Saúde; a PF começa a investigar Bolsonaro por prevaricação no caso Covaxin; a sociedade civil desperta de sua letargia e se põe em ação se manifestando contra as ameaças que a cúpula militar decidiu fazer ao Congresso; o Ministro Barroso de STE sai a campo para defender as urnas eletrônicas; e, last but not least, as manifestações contra Bolsonaro se ampliaram por todo o país e, pela última pesquisa do DataFolha, 54% dos brasileiros já apoiam o impeachment.

É como se o emburrecimento e a paralisia tivessem dado um basta a quem pretendia nos forçar a volta à Idade Média. A maioria esfrega os olhos e volta a constatar que a terra é redonda, a ciência vale muito mais do que a peste, o negacionismo é sinônimo de idiotia, e que é bom soltar nossas bruxas e expulsar os demônios das rachadinhas e milícias.

Domenico de Masi, sociólogo italiano conhecido entre nós, disse algo muito verdadeiro: “(…) Quando o país é comandado por pessoas tão tacanhas, a tendência é o rebaixamento geral do nível cognitivo da sua população. (…) Quando entramos nesse tipo de debate entre nós ou com as “autoridades” é como se voltássemos da pós-graduação às primeiras letras do curso elementar. Somos forçados a recapitular consensos estabelecidos há décadas, como se nada tivéssemos aprendido. É como forçar cientistas a provar de novo a esfericidade da Terra ou a demonstrar eficácia de vacinas. Ou defender, outra vez, a necessária separação entre Igreja e Estado, mais de 230 anos depois da Revolução Francesa. É muita regressão e ela nos atinge. De repente nos surpreendemos discutindo o óbvio, gastando tempo com temas batidos e desperdiçando energia arrombando portas abertas séculos atrás na história da humanidade.”  

Outra coisa interessante no sentido da divindade chinesa também tem acontecido: uma pesquisa feita pelo Insper, Ibmec e Universidade de Toronto constatou que “quanto mais apoiadores Bolsonaro teve em uma cidade, maior foi o risco de ser contaminado ou morrer pelo coronavírus no primeiro ano da pandemia. De acordo com o estudo, em cidades que votaram quase inteiramente para Bolsonaro, o número de casos foi 567% maior e o de mortes 647% vezes maior do que os registrados em cidades que tiveram poucos votos para o presidente.” Quem estiver interessado em ver melhor essa pesquisa, basta ir ao Google.

Sabe lá se estou sendo demasiado otimista, mas quero crer que não. O chão está tremendo e muitas coisas já deram o arranque para mudar este país. Há ainda um bom caminho pela frente, mas nada como ver o começo começando.

Crônica publicada em O Popular, em 15/7/2021

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