SEXTA DE CRÔNICAS: RESPEITO, GRATIDÃO, APOIO

                Hoje eu havia pensado em escrever sobre nada a ver com nada, talvez até lançasse mão do passado, mas eis que fatos ineludíveis se colocaram a nossa frente. Talvez tenham mesmo a ver com o passado, como eu pretendia, já que se trata de uma incurável violência, uma violência que fez parte de nossa formação como nação, uma violência que nos envergonha e exige que saibamos que injustiças estamos sendo levados a cometer.

Eu falo da nossa diversidade como nação e da riqueza de nossas florestas e nosso meio ambiente. Falo do destino dos nossos povos originários que, desde 1500, vem sendo ferozmente expulsos e empurrados e empurrados e empurrados de suas terras para nos ceder lugar. Um genocídio que marcou nossa origem e agora pretende outra vez continuar em marcha neste momento de um século XXI que mais parece uma volta ao passado e suas excrecências.

                Reunidos em Brasília, desde o começo de junho, mais de 800 indígenas de 40 povos de todas as regiões do país vieram de suas aldeias para manifestarem sua revolta contra o projeto de lei que altera o direito a seus territórios, como determina a Constituição de 1988. O que se pretende, com essa nova lei, é limitar as terras indígenas ao “marco temporal”, isto é, que sejam consideradas áreas indígenas apenas as que, no momento da promulgação da Constituição de 88, eram habitadas em caráter permanente por indígenas. Ou seja: expulsos de suas casas pelos interesses dos brancos, é-lhes vedados agora reivindicar a casa de onde foram expulsos. Dos 672 Territórios Indígenas no Brasil, apenas 428 foram regularizados; os restantes estão em fases distintas do processo que é complexo e enfrenta muitas resistências e morosidade jurídica. Esses estariam sujeitos à nova lei que, se aprovadas, cairá sobre eles como um pesadelo de novas ameaças. 

                E há mais: brechas perigosas na nova lei permitiriam em suas terras atividades de mineração, ocupação com bases militares, expansão estratégica da malha viária, exploração de alternativas energéticas, e “resguardo” de áreas consideradas estratégicas. Ou seja: possibilitariam atividades de impacto social e ambiental em territórios indígenas. Além disso, flexibilizariam o possível contato de não-indígenas com povos isolados, provocando a disseminação de doenças nas comunidades.       

                É indigno estarmos ainda hoje discutindo e ameaçando os direitos dos povos que estavam aqui desde muito antes de 1500. Com essa dimensão extraordinária de terra que forma nosso país, como podemos deixar que a insensibilidade e abjeta ganância de alguns ainda hoje persigam nossos ancestrais; ainda hoje destruam nosso meio ambiente; ainda hoje não entendam que floresta é povo indígena; que floresta é vida para todos nós. Aos indígenas devemos respeito e gratidão por nos mostrar que a riqueza do mundo é a diversidade de povos que abriga; por protegerem nossas florestas e, com isso, contribuírem para garantir a vida de todos nós. 

                Eles, que há mais de 500 anos lutam por seus direitos, continuarão lutando. A nós, por mínimo que seja, resta apoiá-los com nossa consciência e nosso coração.

(Crônica publicada em O Popular, em 01/07/21)

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