O novo ar das ruas

                                              

Celebremos as manifestações do sábado, 29 de maio, que exigiram mais vacina, mais comida no prato. Gritando Fora Bolsonaro. Enchendo avenidas, ruas e praças em mais de 213 cidades. O povo outra vez nas ruas, todos de máscaras, reivindicando seus direitos. Uma beleza de se ver, depois de todos esses meses de silêncio.

Seguindo os protocolos contra o coronavírus, centenas de milhares de pessoas por todo o país mostraram que já não aguentam mais. Venceram o medo da pandemia e recuperaram as ruas. O medo do vírus foi menor do que a indignação contra o governo que já matou mais de 460 mil brasileiros.

Vocês certamente viram as fotos. Muitos com certeza participaram. Muitos que não puderam participar ficaram torcendo em casa, encorajados ao saber que saíamos da passividade e mostrávamos nossa cara.

Lembrei-me, então, das manifestações das quais participei. Desde as do movimento estudantil em Brasília durante a ditadura civil-militar (foram muitas e reprimidas com violência por cavalos, bombas lacrimogêneas e jatos de água de caminhões de bombeiros, fazendo-nos correr, com nossas pernas jovens, por entre os blocos da Asa Sul onde as passeatas ocorriam) até as manifestações das Diretas (estupendas!), das lutas do país por seus direitos, e dos Primeiros de Maio (lindas e pacíficas!).

Depois, vi outras da minha janela, quando morava perto da Avenida Paulista. Como as de professores, de outros vários profissionais, de estudantes, de LGBTQs, de FORA TEMER, e as que, com participação de indígenas vindos da região do Xingu, denunciavam os desastres que a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte causaria, e me chamavam com a voz forte e convidativa das ruas, “Vem! Vem pra rua, veeeem! Vem pela floresta, vem!” E eu não só ia como, a partir delas, tive meu interesse de escritora despertado pela catástrofe que denunciavam e escrevi meu romance mais recente, “Maria Altamira”, lançado em março de 2020, comecinho da pandemia. Não à toa a voz polissêmica das ruas inspira, motiva, estimula, dá-nos a certeza de que somos um coletivo de um mais um formando multidões. 

Vi também as de junho de 2016, quando a direita começou a se apossar das ruas com seus trios elétricos estridentes e palavras de ordem repulsivas. Como era assustadora a cara dessa direita truculenta que perdia a vergonha e se mostrava. E que deu no que deu, instaurando a necropolítica no poder que até a vacina contra o vírus nos negou. Esse, o destino terrível que nos coube: enfrentar o coronavirus desgovernados por um genocida que recusou todas as vacinas que lhe foram oferecidas a tempo de salvar milhares de vidas.

Finalmente, agora as ruas ocupadas estão de volta com suas vozes e bandeiras exigindo o que nos tem sido negado. Serão grandes os embates pela frente, não duvidemos disso, mas as luzes no final do túnel começaram a se acender.

Regozijemo-nos, pois, nem que seja apenas por esse primeiro momento de reação. Sintamos os ventos que anunciam mudanças. Respiremos, com saudáveis expectativas, esse ar benfazejo que nos chegou das ruas.

(Crônica publicada em “O Popular”, em 3/6/2021)

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