Eu não, jacaré

Então eu disse pra ela, Gosto muito da senhora, lhe tenho todo o respeito mas, por favor, não me traga mais notícias assim. São viúvas da catástrofe, esse tipo de gente, excitadas e felizes por saber que alguém sofre mais do que elas, e ficam sempre ali na moita, ou melhor, na esquina, que em cidade não tem moita, melhor dizendo então, na janela de sua residência, não, janela de residência também não que hoje janela que dá pra rua nem existe mais, as carolinas já saíram das janelas faz tempo, melhor dizer então da janela televisiva que esse tipo de gente costuma ser viciada em tudo quanto é noticiário, e mais gostam do que pior for, e ficam ali esperando o ruim, o péssimo, o trágico acontecer. E é claro que acontece. Todo dia acontece. Quem for procurar o que mais vai encontrar é um infeliz. O desempregado que se matou, a casa que pegou fogo, o clima que ninguém entende, o temporal que caiu em tal lugar, a seca que começou em outro, não há a menor condição de não se achar notícia ruim nesse mundo que é assim desde que foi feito, melhor dizendo, desde que ele mesmo foi se fazendo, que isso há muito tempo já se sabe, e digo se fazendo porque o mundo não para de mudar a cada segundo, se tem uma coisa que acontece no mundo é mudança, o que é assim hoje, não será mais assim amanhã, e o que a gente tem como normal hoje, amanhã será diferente, nem a roupa mais é a mesma, tudo é diferente, você dorme hoje pensando em uma coisa, acorda amanhã pensando em outra, é bom que seja assim. E se uma pessoa continuar a vida inteira pensando a mesma coisa pode interná-la porque o mais certo é que esclerosou, como essa senhora minha vizinha, francamente, que toda hora chega muito animada com alguma notícia ruim, a vida dela é caçar notícias ruins nem que for só daqui do bairro, e ando farto disso. Evito esse tipo de gente porque já tenho minhas próprias infelicidades e sei das infelicidades dos outros, não preciso de ninguém me trazendo um inventário atualizado do dia, não mesmo, que essa compulsão por saber das mazelas do mundo, isso eu não tenho. Que me traga uma notícia boa, um comentário interessante, deixe as tragédias pra lá, o caos, as coisas incompreensíveis, há demasiadas coisas incompreensíveis na vida, sei disso faz tempo, não preciso que ninguém venha aumentar minha ignorância e perplexidade que elas aumentam mesmo sozinhas, e então falei pra ela, Olha, Dona Fulana, se for pra me contar desgraça, não venha mais. Vou fechar minha porta. Fique a senhora ruminando seu entusiasmo pelas intrigas do mundo, se não tem coisa melhor pra fazer. Mas não conte comigo, não senhora. Comigo não, que já termino já a sola desse último sapato, desço a porta da minha sapataria, e vou jogar dominó.

(Publicado em “O Popular”, 7 de novembro/2013)

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