Enquanto isso, no Lago Azul

“Ui, ui, ui Uiara! Venha aqui, maravilhosa! Aceite esse colar!”

O barulho dos gritos, cantorias e chamados à beira do Lago Azul é grande.

Lã está debruçado sobre as águas, com um lindo colar de sementes brancas na mão.

– Bela, bela, este colar eu fiz pra você. Toma, vem pegar.

Pedrinhas multicores são lançadas pelos outros moços; risos, gritos, bajulação.

Uiara aparece em um lugar, mergulha de novo, aparece em outro no extremo oposto. Está contente, e brinca com eles.

Lã é o mais veloz e persistente, correndo de um lado pra outro. Quando os amigos se cansam da brincadeira, ele continua:

– Chega mais perto, linda. – E quando vê que os companheiros se afastam e já não podem escutá-lo, continua insistente – Não fira meu coração, minha bela. Quero te ver inteira. Quero ficar com você. Não me importo com nada, venha, venha. Chegue perto.

Escondida agora atrás das pedras, Uiara o olha condoída. É da sua natureza levá-lo, mas não pode, não quer fazer isso. Não quer fazer isso com um filho do Primeiro Povo que, de certa forma, é também o seu.

Os moços já estão longe quando Lã escuta um barulho de galope. Poderia ser das icamiabas mas não parece, a essa hora, e ele se esconde atrás das árvores frondosas da mata. São cavaleiros-do-couro. Além das icamiabas, são os únicos que têm cavalos. Uns cavalos feios, mirrados, de um marrom desbotado que em nada lembram os delas. Não são inimigos, tampouco amigos: a relação com eles pode mudar de acordo com o humor do bando. Lã continua escondido e observa. Eles dão água aos cavalos e veem Uiara.

– Olha só quem está nos dando a honra de aparecer – diz um deles.

– Eita! que hoje é dia de paca caçar tatu! – diz o outro.

Mas o terceiro avisa:

– Não fica olhando, que é perigoso. O mundo inteirim sabe disso.

– Bestagem! Como que uma mulher-peixe ia dar conta de gente como a gente? Ninguém num tem curiosidade de tirar a limpo essa história?

– Eu, de jeito manera! – diz o que fizera o alerta antes.

– Pois jacaré num tem pescoço, formiga não tem caroço, e eu quero mais é conhecer essa dona.

Uiara vem se aproximando, mergulhando e aparecendo, agora sim, sedutora, enfeitiçante. Vem e vem, sorrindo, atraindo, e os dois afoitos seguem a brincadeira dela e vão entrando na água, rindo e zombando:

– Vem, mulher-peixe, deixa eu cheirar sua fendinha de algas.

– Deixa eu ver seu borogodó, vem. Ninguém vai te fazer mal, é só pra dar um carim.

– Vem, vem.

E ela, sorrindo, vai, e os dois são tragados de uma vez só sem tempo de dizer ui!, muito menos escapar, formando um redemoinho voluptuoso nas águas. E o que se vê é apenas seu vulto envolto em seu manto de espumas.

O terceiro, que ficara de longe com seu aviso e seu medo, monta rápido no cavalo e o chicoteia apavorado.

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