O imenso exército da idade

Sempre me emociono ao ler este trecho:

“Guenevere exagerou ao se vestir para a ocasião. Maquiou-se, embora não precisasse de maquiagem, e maquiou-se mal. Estava com quarenta e dois anos.
Quando Lancelot a viu esperando à mesa, com Arthur a seu lado, seu coração explodiu no peito, deixando que o amor dentro dele corresse por suas veias. Era seu antigo amor por uma garota de vinte anos, sentada orgulhosa em seu trono com o presente de cativos a seu redor – mas agora a mesma garota sentava-se em outro ambiente, um ambiente de maquilagem exagerada e sedas vistosas com as quais tentava desafiar a ruína invencível do destino humano. Ele a viu como o espírito apaixonado da juventude inocente, agora assediada pelo truque que se prega na juventude – o truque da traição do corpo, que transforma a carne em ossos. Para ele, seus tolos enfeites não eram vulgares, e sim tocantes. A garota ainda estava ali, ainda atraente por trás da barricada quebradiça do ruge. Apresentava seu bravo protesto: Não serei vencida. Por trás da coqueteria desajeitada, das roupas humilhantes, havia o grito humano por ajuda. Os olhos jovens, desorientados, estavam dizendo: Sou eu, aqui dentro – o que fizeram comigo? Não me submeterei. Uma parte de seu espírito sabia que a maquiagem fazia dela uma boneca desengonçada, e odiava isso, e tentava segurar seu amante apenas com os olhos, que diziam: Não olhe para nada disso. Olhe para mim. Ainda estou aqui, nos olhos. Olhe para mim dentro desta prisão e me ajude a sair. Outra parte dizia: Não estou velha, é uma ilusão. Estou belamente maquiada. Veja, tenho os movimentos da juventude. Desafiarei o imenso exército da idade.
Lancelot viu uma alma solitária, uma criança inocente e condenada, mantendo sua posição indefensável com as armas desprezíveis da pintura no cabelo e da seda laranja, com as quais ela havia – com que medos? – pensado em agradá-lo. Viu

O punho apaixonado, pigmeu
Cerrado e desafiante apontar as nuvens,
O orgulho que triunfaria, o protagonista condenado
Com força agarrando o fantasmal gigante”

De “O Cavaleiro Imperfeito”, terceiro volume da saga “O Único e Eterno Rei”, de T.H.White – que tive o prazer de traduzir.

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2 respostas para O imenso exército da idade

  1. WillOk disse:

    Republicou isso em Blogs literários e de bibliotecáriose comentado:
    Meus caros, eu indico todos os cinco livros do T.H. White sobre o rei Arthur!

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