A Igreja da Permissão Divina

Trecho do meu romance “Pauliceia de mil dentes”, do capítulo que trata do Pastor Jonerval e sua igreja.

“Às vezes ela me diz que me empolgo muito e não devo falar coisas difíceis, só coisas fáceis de entender. Mas eu lhe explico que a voz de Deus é enfeitada. O povo gosta. É bom falar difícil, ainda que com moderação. Para que os fiéis saibam que quem fala através de mim é Deus, e que Deus é Deus, e Deus fala complexo.
Deus fala côncavo também, se quiser.
Então é quando eu digo que fui escalado em minha existência, e que a única finalidade foi me fazer compreender que o Deus dos Mundos me escolheu para falar em seu nome, para traduzir suas intenções e finalidades e raciocínios divinais. Que dentro de muito em pouco tempo, pela contagem santa, estaremos todos estabelecidos em nosso futuro reluzente. Todo esse sacolejo do futuro que virá, e as réplicas então serão constantes, e as tréplicas serão os filhos. Pois você nunca sabe de onde vem a morte e o futuro reside justamente em não saber, mas ser, com todos seus simulacros. E Deus é tudo isso, e muitíssimo muito mais.
Agora, o que ela gosta é da parte que falo que quando cheguei aqui eu fui ladrão. Vi suruba, vi execuções. E foi então quando pensei minha cosmogonia assim, que não deveríamos condenar nenhum ato porque tudo que acontece foi permitido por Deus porque se Deus não permitisse, nenhum ato aconteceria. Eu pensava assim e, do meu modo de ver, pensava que estava certo. E Deus comprovou, me iluminando. Pois era um tempo que eu bebia todo dia, bebia até cair, não tinha casa, dormia onde caísse, no pé da sarjeta e não no pé da serra. E será então que eu gosto de lembrar desse tempo? Não. Mas fico frio. Os vulcões, os terremotos, os maremotos, o Apocalipse, os frenesis, se acontecerem, acontecerão. Isso vem do nosso raciocínio racional que o mercado é que conhece, o mercado do seu id, de seu ser interior, sua célula primal, seu território orgânico. Tudo já está escrito no grande livro de capa dura e lombada ereta de Deus. Nós somos apenas a letrinha minúscula que ele coloca onde quiser colocar. É ele quem manda, minha gente! É ele quem permite!
Essa é a parte que ela gosta: saber que é Deus que permite.”

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