Sexta de crônicas

UMA PRAGA DA PRIMAVERA

É o fim da picada! dirão os desavisados. Só mesmo paulista pra reclamar do canto de sabiá.

Mas eu queria vê-los acordando às três horas da madrugada, com o canto agudo que chega a durar duas horas seguidas, até cinco horas da manhã. Um canto de 75 decibéis, a cinco metros de distância. Só perde pra buzina de carro (90 decibéis), e ruído de trânsito (80 decibéis).

Tão me entendendo?

E não estou sozinha. As reclamações pululam pela cidade; eles estão por toda parte. Centro, Bela Vista, Sumaré, Itaim, Moema, Paraíso, Tremembé, Vila Prudente, Capão Redondo. Diga o bairro e lá estarão eles, nos galhos de suas árvores, marcando território, atraindo as fêmeas, reproduzindo adoidado e comemorando sua vidinha boa sem pensar nos outros.

E depois tem gente que diz que São Paulo é só asfalto e cimento!

O nome do vilão: sabiá-laranjeira. Codinomes: sabiá-cavalo, sabiá-de-barriga-vermelha, sabiá-de-peito roxo. Nome científico: Turdus Rufiventris. Retrato falado: olho marrom escuro, dorso marrom-acinzentado, ventre ferrugíneo-alaranjado, bico reto amarelo-oliva, patas cinzas. Mede de 17 a 25 cm, com um peso de 70 a 80 g. Quanto mais possante seu já possante canto, mais fêmeas ele atrai: com certeza os de São Paulo são dos mais competentes reprodutores de sua canora espécie.

Bonitinho, pequenininho, mas se um deles morar perto de sua casa, se prepare: suas noites não serão as mesmas!

Eles surgem alvoroçados com a primavera e continuam alvoroçados até sabe-se lá quando. É a época que escolhem para ensinar os gorjeios a seus filhotes, e justo de madrugada. Explicam os ornitólogos que é o momento mais propício porque durante o dia eles precisam vigiar o ninho, proteger seus bebês dos predadores.

Beleza, claro. Acho bonito pai protegendo os filhos e cuidando de sua educação, mas precisa ser de madrugada?

Já que se trata de aula, dá até pra entender porque são os mesmos trinados repetidos e repetidos à exaustão.
Lembram as aulas de solfejo da escola (tinha coisa mais chata)? Mas aula tão intensiva e fora de hora quanto das 3 às 5 da manhã?

Sabiá não dorme?

Que Tom Jobim e Chico Buarque, o cancioneiro popular e o Dr. Gil Perini me perdoem, mas na primavera não recomendo pra ninguém um vizinho desses.

(Esta foi a crônica publicada no jornal “O Popular” que gerou o comentário que coloquei no post anterior.)

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