Uma personagem transexual

Trecho do meu romance “Pauliceia de mil dentes” sobre Percília, a personagem transexual que está reivindicando novos documentos de identidade com seu nome feminino. É do capítulo “Percival, Percília, Perci”.

“Como é lindo, como é lindo, como é lindo!!

Redessignificação do sexo, verdadeira identidade feminina, dignidade da pessoa humana!

Chorei várias vezes lendo essa petição. Solucei. A Dra. Dalila teve que me levar para uma salinha do escritório e me dizer que eu me sentasse e me acalmasse. Foi quando conheci a japonesinha. Dra. Lila lhe pediu pra ficar comigo até eu ter condições de sair dali sem dar o vexame de sair soluçando. A mocinha me trouxe um copinho d´água e se sentou toda delicadinha na poltrona à minha frente. Magrinha, olhinhos puxados. Um lótus, não é assim que chama aquela flor do Japão? Disse, Vai dar tudo certo, você vai ver, Dona Percília. Pode demorar um pouco, mas a Dra. Lila tem certeza de que vai conseguir todos os seus direitos. E falou de um jeito muito sincero, Você já deve ter sofrido muito, e pegou na minha mão. Solucei mais. A essas alturas meu lenço já estava encharcado. Eu tenho mesmo essa queda pro drama, é minha natureza de artista, nada posso fazer senão aceitar. Faz parte da minha sina. E foi então que me deu assim uma compulsão de contar praquele lótus delicado o que não tive coragem de contar pra Dra. Lila. As partes mais negras da minha vida, as que me matam de vergonha. A doutora não tem nada a ver com esse lado duro das coisas, o lado tenebroso, o lado mau. Não faz parte do seu mundo, e ela tem razão em não querer pormenores. Sabe que esse lado existe, não é alienada, e faz o que pode contra ele, mas não quer se aproximar demais. Tá certa. Tem esse direito. Mas se não contei pra doutora nada das coisas mais tenebrosas de minha história, desabafei naquele dia de fragilidade com aquela flor de cerejeira sentada à minha frente, segurando minha mão. Contei o dia que os meninos da Escola Fundamental me obrigaram a fazer xixi perto deles, e riram daquela tripinha pra fora que era aquela coisa em mim, aquela excrescência. Nunca mais fui capaz de urinar na frente de ninguém. Não urinava na escola, e quantas vezes passava o dia inteiro sem urinar só de pavor de ir a um banheiro público. E contei aquele dia trágico dia da adolescência em que tentei fazer um corte bem ali embaixo para colocar aquela coisa pra dentro num desespero, num surto que me fez quase morrer! É curioso, mas a lembrança que tenho não é da dor física, como se eu não tivesse sentido esse tipo de dor ao fazer o corte em mim com a faca afiada de cortar carne da cozinha. Só a lembrança da outra, a dor da angústia tremenda, da loucura momentânea. Quando cheguei em casa fora de mim, depois da milésima humilhação, os meninos atrás, abaixando minha calça e me fazendo tirar a calcinha que eu tinha roubado do varal de uma casa longe da nossa e que ficava enorme pra mim – eu era o terror das calcinhas nos varais, agora até dá pra rir mas naquela época, não –, eu correndo dos meninos, e a exposição, os gritinhos, as risadas, as piadinhas infames. Passei dois dias no hospital e, não bastasse isso e a enorme dor psíquica, quando cheguei em casa, meu pai quase me matou com seu cinturão. Por pouco não voltei outra vez para o hospital, embora, pensando depois, tenha sido de certa forma um acontecimento com desdobramentos bons, pois foi o dia em que decidi que ia ter que buscar outro tipo de vida ou então apressar minha morte. Meu pai sofreu demais comigo, hoje compreendo isso, compreendo até bem compreendido, mas naquele tempo eu não tinha como compreender nada, nem o meu sofrimento nem o dele. Se minha mãe não tivesse morrido tão cedo, talvez tivesse me apoiado, não sei, gosto de pensar assim, mas a lembrança dela é tão vaga, tão esfumaçada, tão distante. Se um dia eu voltar a conversar com meu pai, o que eu mais gostaria de perguntar a ele seria como a conheceu. Como se apaixonaram os dois, ou será que nunca se apaixonaram? Não sei. Ele pode ter se apaixonado e ela não. Ou ela sim e ele não. Acontecia cada coisa antigamente! Mas se tem uma coisa que me lembro de minha mãe é que ela ria muito e cantava. As músicas dela, as musiquinhas de ninar de quando eu fui bebê. Também me pintava muito de urucum vermelho. Se pintava e me pintava, nós dois com o rosto pintado de vermelho esperando o pai voltar da loja. Não me lembro do que ele dizia quando chegava, não sei se achava bom ou não. Dele, só sei das surras e xingamentos. Nem sei se ele é um cara bacana, honesto, como vou saber? Não sei mesmo. Eliseu gosta dele, mora com ele até hoje, o que acho também incompreensível, um marmanjão como meu irmão ainda na casa do pai, mas os dois se dão bem, então imagino que ele deve ter seu lado de homem bom. Não tenho certeza mas parece que eu o vi chorar na noite que voltamos pra casa depois do enterro da mãe. A coitadinha morreu tão nova de tuberculose, meu Deus, ninguém morre mais de tuberculose hoje em dia, mas ela morreu, e deixou Eliseu bebê. Meu bebê. Eu tão menina cuidando dele como se fosse meu filho-irmão. Tem certas coisas que só mesmo a vida, conforme ela vai passando, é que nos faz entender. Ensinei pra ele a me chamar de mamãe, escondido do pai, e ele me chamava, aquela gracinha, Mamãe, mamãe! Fui feliz aquele tempinho, fui mesmo.

Apesar de tudo que era obrigada a fazer.”

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2 respostas para Uma personagem transexual

  1. Silvio Interlandi disse:

    Zezé! Tão muito bonito!
    Nada melhor do que “ouvir” voce contar essas historias nessas frias noites daqui.
    Beijos!
    Silvio.

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