Ficção e cidades

(Acho que já publiquei essa crônica aqui, mas como neste domingo estou participando do evento “Pauliceia Literária”, em uma mesa com Marçal Aquino e Tony Belotto sobre São Paulo, resolvi postá-la outra vez. Foi uma crônica feita por ocasião do lançamento do “Pauliceia de mil dentes”, para minha coluna quinzenal do jornal “O Popular”, de Goiânia.)

“Pauliceia de mil dentes”, meu novo romance, tem como tema a cidade de São Paulo contemporânea. Nele entrelaço as histórias de vários personagens, a partir da invasão a um escritório de advocacia com duas reféns.

Quando comecei a escrevê-lo, jovens de uma revista da internet me entrevistaram e perguntaram se, para mim, “o lugar onde vivem, morrem e se deslocam minhas personagens funcionava dentro da narrativa como uma outra personagem?”

O bacana de uma entrevista assim é que ela faz você pensar em coisas que não havia pensado antes, ou pensar nelas sob um novo ângulo. Foi o que aconteceu com essa pergunta. Ao respondê-la, comecei a perceber que, de fato, nos meus livros, o “lugar” dos meus personagens aparece com muita força. Como Brasília e sua construção no romance “O Fantasma de Luís Buñuel”; a Cidade de Goiás e o Planalto Central em “Sangue no coração do cerrado”; os Andes e as selvas colombianas em “Com esse ódio e esse amor”; e vários locais da formação do Brasil em “A mãe da mãe de sua mãe e suas filhas”.

Mas “Pauliceia de mil dentes” foi, de fato, o primeiro romance que teve como estopim uma cidade, e só agora me dei conta de como as cidades por onde passei e sobretudo as cidades onde morei fazem parte de minha ficção. O que é apenas natural já que o contexto concreto de cimento e asfalto em que vivemos é o chão que se torna nosso, e o mesmo necessariamente acontece com os personagens que criamos. O chão onde vive um personagem é o cenário básico para sua criação, ainda que possa ficar sem definição ou descrição. Ou ainda que seja totalmente inventado ou que o escritor nem o conheça de fato.

Escritor nenhum inventa a partir do nada. É a partir do que ele é e de sua visão de mundo – resultado de sua história de vida, e do que observa, estuda, pesquisa – que ele imagina o que escreve. Não há como fugir disso. O que ele já viveu e vive vai determinar seus interesses, sua curiosidade, sua paixão e seu desejo de escrever sobre determinado assunto.

Nesse sentido, vem de muito tempo minha paixão por essa São Paulo vertiginosa que atrai e deglute tudo o que lhe chega, transformando-o em outra coisa que em seguida ela irradia pelos quatro cantos do país. Pode ser mãe ou madrasta, acolher ou cuspir fora. Seus moradores moldam uma parte do que a cidade é, enquanto são também moldados por ela.

Em meu romance, eu quis falar da diversidade e energia que se concentra na megalópole que é apenas um espelho da riqueza e beleza do país, de suas misérias e desigualdades. Com seus conflitos e contradições, sua exuberância de tipos humanos e riqueza de ideias, é um prato cheio para qualquer romancista.

Torço, então, para que vocês gostem desse prato literário que passo a lhes oferecer agora, em alguma boa livraria da cidade.

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