O trabalho: uma crônica

Desde que li, nos idos dos anos 70, um livro de Lucien Sève, psiquiatra e filósofo francês, “Marxismo e Teoria da Personalidade”, fiquei fascinada com sua análise sobre como a maneira em que cada um se insere produtivamente numa sociedade – ou seja, o trabalho que faz – é um dos eixos de sua construção como pessoa.

Ao começar minha vida de romancista, um dos primeiros projetos que imaginei seria justamente “Trabalho: um romance”, onde eu tentaria pensar literariamente em como isso acontece. Até hoje não passei do título, mas quem sabe um dia ainda o enfrente.

É que esse tema não é de brincadeira.

Pense primeiro no trabalho – melhor dizendo, sua apropriação – que está na base de nossa sociedade: o trabalho forçado, explorado, que tira de quem o faz um dos maiores privilégios do homem que é o da auto realização; o trabalho degradado que é a forma concreta como o capital se apresenta, e em torno do qual se dão as desigualdades vergonhosas da nossa sociedade.

Depois compare esse trabalho com o outro, aquele que a pessoa escolhe por vontade, talento, prazer. O que enriquece e faz o indivíduo crescer como ser humano.

Pense no seu próprio caso (torço para que seja esse o seu caso): no trabalho que você faz ou fez (ou não-trabalho, ausência também determinante para seu estar no mundo). Veja o quanto ele influenciou sua maneira de pensar. Não só pelo que você teve que aprender para realizá-lo, como pela compreensão que adquiriu dele e de seu entorno, de seus conflitos, suas consequências, além da socialização que ele lhe proporciona com os colegas (e chefes) necessários a seu desempenho. Com certeza, essas coisas marcaram profundamente seu ponto de vista sobre o mundo, e sua vida de adulto provavelmente gira (ou girou) em torno desse eixo.

No meu caso, não tenho dúvidas quanto a isso. Foi ótimo ter começado a trabalhar adolescente, no escritório imobiliário de meu pai, e depois dando aulas. Trabalhinhos confortáveis e de uma chatice atroz, sem dúvida, mas que me faziam sair de casa para ver o mundo lá fora. Depois, trabalhei como jornalista, publicitária, antropóloga, e editora, até decidir me dedicar à literatura, quando passei a trabalhar em casa. Hoje, dez anos depois, é fácil ver o quanto isso fez, mais uma vez, minha vida mudar. Não só pelo trabalho de escrever como tal, mas por tudo que veio de roldão. Desde coisas ótimas (como fazer o que me traz grande realização pessoal), até coisas péssimas (como a falta da convivência com os colegas).

No cômputo geral, o trabalho em casa sai perdendo. E o que faz pesar a balança é justamente a falta da socialização que um local coletivo de trabalho traz. Por isso, quando penso em qual seria meu local de trabalho ideal, hoje, imagino uma salona, com uma turma de escritores trabalhando cada um no seu canto, mas se levantando de vez em quando para um cafezinho na copa no fundo.

E depois das páginas escritas: o happy-hour no bar vizinho.


(Crônica publicada no jornal “O Popular” em 29/8/13)

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2 respostas para O trabalho: uma crônica

  1. Malu Alves disse:

    a leitura também é solitária, né não? sempre que leio, até jornal, revista quero sempre compartilhar, comentar e como não estou mais trabalhando fora…. a gente fica solitária na leitura também…. Ainda bem que o nosso grupo resolve um pouco esse “probleminha”

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