Sexta de Crônicas

De costas

Usando legging marrom justinho, ela segue em frente. Quando se detém no sinal vermelho da rua, dá para ver o contorno das pernas que se unem das coxas até os joelhos e de lá se separam para descer formando um perfeito triângulo isósceles. O cabelo castanho e liso chega ao meio da capa creme de chuva e cobre seus quadris. Botas marrons sobem até as batatas das pernas, realçando a forquilha formada dos joelhos ao chão.
Uma figura composta e perfeitamente adequada à manhã cinzenta e fria da cidade.
Nenhum problema aí.
Mas quem a vê assim, de costas, não pode imaginar a situação quase incompreensivelmente problemática que ela acaba de enfrentar.
Pela segunda vez naquela semana, deixou o Centro de Diagnóstico Odontológico sem conseguir sua bendita radiografia dental panorâmica. Da primeira vez, esqueceu em casa a requisição do dentista. E hoje não conseguira – simplesmente não conseguira – permanecer de pé, sem se mexer, na frente do moderno aparelho de raios x e, com os dentes fechados em torno do pino coberto com um pedaço de plástico amarelo, engolir a saliva e manter a língua quieta no céu da boca por 30 segundos.
Na segunda tentativa, o técnico tentou ajudá-la, passando-lhe a dica do momento exato em que deveria realmente não mexer mais a língua, reduzindo a duração do suplício para os 15 segundos estritamente necessários ao giro do aparelho.
Que situação! Tão simples e tão difícil.
Na tentativa seguinte, uma técnica – as mulheres costumam ser mais habilidosas com outras mulheres – entra na sala: “Quando você engole a saliva, sua língua não vai para o céu da boca?” Não, a dela não ia. Nunca reparara para onde ia sua língua quando engolia saliva, mas agora percebia claramente que não era para o céu da boa.
Que coisa imensamente tola!
Depois que a terceira técnica entra, os três formam uma pequena roda de conselhos em torno dela. Uma é quase obscena em sua ânsia de ajudar: “Fecha os dentes assim, ó… engole a saliva e mantenha a língua parada no alto, tá vendo? Não é difícil, relaxa, pense que é rapidinho, quinze segundos ninguém nem vê, relaxa. “ A outra técnica pergunta: “É vontade de vomitar?” Não, não é vontade de vomitar. Os três se entreolham: dá pra ver que hoje vai ser um dia daqueles!
Chega, ela desiste. Voltaria outro dia. Treinaria em casa uma maneira de erguer a língua e grudá-la lá por todos os benditos segundos necessários. Nem que tivesse que usar cola-tudo, não passaria por esse vexame outra vez.
E agora, quem viesse pelo lado contrário da rua e pudesse olhá-la de frente, veria lágrimas descendo por sua cara redonda. Se fosse alguém capaz de certa empatia, poderia pensar, “Que aconteceu, coitada!” Ou então, “Coisa de namorado, bobagem”.
A verdade, no entanto, é que a maioria passa sem ver, e ninguém se importa muito.
Nem pela frente, nem por trás.


(Crônica publicada em “O Popular”
)

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2 respostas para Sexta de Crônicas

  1. Malu Alves disse:

    apesar das lágrimas da personagem, achei bem hilária

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