Marcos mutantes

“A mulher de trinta” – o livro mais citado de Balzac – é também um dos menos lidos. No entanto, foi devido à história desse romance que sequer está entre seus melhores textos, que se popularizou o termo “balzaquiana”, muito mencionado nos anos 50/60.
Mesmo trazendo às vezes certo tonzinho sub-reptício de desvalorização, o termo significa uma mulher experiente, que já deixou a juventude mas em troca adquiriu sabedoria e a certeza de si que as muito jovens não têm. A época das “balzaquianas” foi também uma época em que as mulheres de 60/70 anos eram consideradas e se assumiam como velhas e se vestiam como velhas e se portavam como velhas.
Felizmente, esse tempo ficou para trás.
Hoje, não são mais os trinta e sim os quarenta, que passaram a ser considerados um ano marco na vida de uma mulher, seu momento melhor, quando já teve os filhos, passou por seus percalços, mais ou menos se assegurou profissionalmente, adquiriu experiência, alguma sabedoria (embora, quanto a isso, lamentavelmente, não há como por a mão no fogo), e certa serenidade que as mais jovens não têm. Falta que apareça outro Balzac e escreva um livro para que essa mulher de quarenta também receba um nome.
Mas o que me vejo pensando hoje é que para as meninas que estão nascendo neste novo século, talvez outras idades passem também a marcar outros bons momentos. Nem parece que sou eu a pensar essas coisas – logo eu, que nada reconheço de bom nem útil no envelhecimento, essa ponte que se estreita à nossa frente para o fim.
Às vezes, no entanto, num dia de demasiado otimismo, talvez o céu azul lá fora contagie minha sala, ou o cheiro do cafezinho me impregne de boa vontade para com o mundo, e eu me atrevo a abrir uma porta para um pouco de ficção futurista e pensar – por que não? Quem sabe o avanço da medicina possa fazer com que chegue um tempo em que os 60/70 anos passem a significar também um bom marco na vida feminina?
Não estou me referindo às exceções que vemos agora – nem tão exceção assim porque de fato essas mudanças já começaram, e há muitas mulheres que mesmo depois dos 60 anos continuam tocando sua vida com tudo a que têm direito. Sou amiga de várias assim. Melhor dizendo, sou da geração que é assim. No entanto, mesmo sendo assim, mesmo seguindo em frente, mesmo conseguindo preservar a cabeça em um corpo irremediavelmente em declínio, nenhuma delas dirá que 60/70 anos é seu auge. Todas sabem que o tempo melhor, o apogeu ficou entre os 40/50 anos.
E então?
Então, meus caros, nada.
Não viverei para ver como será esse futuro. O que sei é que o mundo muda, o céu está azul lá fora, meu cafezinho está quente, e meu pensamento é livre. Não faz mal nenhum imaginar uma época em que a idade não será um peso para ninguém, nem homens nem mulheres.

(Crônica já publicada em “O Popular”)

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