Meu pai faria 100 anos

Um centenário

Ele foi uma pessoa pública, e por isso ouso render-lhe um pequeno tributo aqui, neste mês de maio em que ele completaria 100 anos: Peixoto da Silveira, meu pai.
Mineiro, filho de camponeses, estudou com bolsas de estudos e se formou como oftalmologista. Veio para Goiás e parou em Jaraguá, onde teve a sorte de se casar com Galiana de Freitas Rios. Tendo que atuar como clínico, entendeu que o papel de um médico naquele momento era também a luta contra a miséria. Por isso, entrou para a política. Foi prefeito de Jaraguá, deputado estadual, secretário da fazenda, secretário estadual da saúde e da educação, deputado federal. Uma trajetória bonita, encerrada quando, na campanha a governador em 1965, que se anunciava vitoriosa, a então ditadura civil-militar baixou seu peso pelo interior para evitar a formação de um trio de governadores de oposição: Peixoto da Silveira, em Goiás; Israel Pinheiro, em Minas; Negrão de Lima, no Rio.
Foi também poeta e ensaísta. Seu livro “A Nova Capital Federal”, discutindo a mudança da capital, contribuiu para a escolha do local onde seria construído Brasília.
Esses são alguns dos fatos públicos, conhecidos, de um homem de visão que deixou sua marca no Estado.
É como filha, no entanto, que gostaria de falar dele aqui. Quem nos conheceu sabe de nossa relação complicada. Fui uma filha difícil de um pai difícil, ou algo assim. Mas sei o quanto devo a ele.
A começar pela consistente valorização da educação e da leitura como legado aos oito filhos. E as viagens de férias, nosso prêmio no final do ano. Com viagens e leituras, aprendíamos o quanto o mundo era maior do que o cerrado, e quão diferente. Isso parece lugar-comum, hoje, quando o valor de tudo isso é reconhecido amplamente, mas naquele momento, não era.
Devo-lhe, também, no meu caso particularíssimo, um respeito que, acredito, reflete com clareza suas qualidades de pai e do político íntegro que foi.
Em 1971, quando a força da ditadura tentava aniquilar a oposição, meu marido foi preso e passei a ser uma perseguida política, clandestina. Com todas as precauções necessárias na época, meu pai foi me encontrar numa praça de São Paulo, e me contou que fora procurado por um coronel do exército. Esse coronel tinha lhe garantido que, se me entregasse, nada me aconteceria, e seria imediatamente liberada depois de alguns esclarecimentos. Meu pai falou, “Ele me deu sua garantia, acredito que deve ser um homem de palavra, mas é você quem decide. Apoio o que decidir. ”
A opção de me entregar não me passava pela cabeça, mas fiquei emocionada. Sabíamos de vários casos em que os pais forçaram ou efetivamente entregaram os filhos – com a convicção de que estavam fazendo o melhor por eles – para depois os receberem torturados e, não poucas vezes, mortos.
Quando nos despedimos, aquela tarde na praça, reconheci o tamanho do pai que tive.
Hoje (6 de mio), às 9:30, haverá uma sessão de homenagem a ele no Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. Será também lançado um concurso de monografia sobre “Peixoto da Silveira e seu tempo”.

(Crônica publicada em “O Popular”, no dia 6 de maio de 2013)

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11 respostas para Meu pai faria 100 anos

  1. José Gabriel. disse:

    que homenagem legal mãe! Não sabia dessa passagem na praça. tenho saudades dele, apesar de ele não ser de muitas palavras com os netos, pelo menos comigo.Ainda sigo o jeito dele de assistir futebol de pé na sala!!!
    bjs,
    P.

  2. Gostei de conhecer um pouco da história de seu pai, Maria José. Tenho certeza de que ele também gostaria de ter lido esta crônica afetuosa e cheia de merecida admiração. Um beijo, Izilda

  3. laurafraiz disse:

    que história mais linda essa da praça! mesmo não o tendo conhecido, sei que ele deixou um legado pra mim, vindo por você e depois pelo papai. apesar de eu não assistir futebol de pé, alguma coisa de Peixoto da Silveira eu hei de ter. te amo!

  4. Tereza Hezim disse:

    Zezé,

    Quanta emoção! não só no texto, mas nas entrelinhas. Tive o privilégio e o prazer de conhecer “o tamanho do pai que você teve”! Ainda me lembro bem da campanha para governador, em 1965. Eu com o meu violão, em cima de um caminhão, cheio de auto-falante, cantando a “versão permitida”, com outra letra, da música Veneno, do compositor Inácio Xavier, casado com sua prima Helena, padrinho de Heloisa Rios Cerqueira. Essa música foi gravada pelo irmão de Rinalba, Amintas de Freitas. Conseguimos autorização para outra letra, que era: “Peixoto, Peixoto….era o nome de você….porque ora porque queremos,….porque ora porque podemos…Ó Peixoto!.”
    Quanta lembrança! A chácara, roteiros que você escrevia para os nossos teatrinhos (rs rs rs), as serestas nas sextas-feiras, o pão de queijo regado com muito café pelas madrugadas……
    “Apoio o que decidir”…..sábias palavras e decisão correta a que tomou!
    Parabéns pelo artigo. Saiba que te admiro muito e tenho muito carinho pelo que você, foi, e será durante essa jornada nessa dimensão! Um bj grande no seu coração, Teca ( Tereza Lucia)

  5. Sandra Regina disse:

    Estou muito interessada em participar do concurso de monografia q encerrará em 2014.
    gostaria de saber mais sobre a inscriçao: site, valor, entre outros

  6. maria lúcia torres disse:

    zezé, que bom você poder homenagear seu pai na data do centenário dele. Aproveito a deixa para prestar a ele, também, uma simplíssima homenagem pela atenção e delicadeza que recebi dele e de sua mãe em Brasília, quando você e Felipe foram embora: eu perdi o ônibus e eles, com muita afeição, me levaram à rodoviária e me embarcaram para São Paulo; naqueles tempos difíceis. Um beijo para você e louvor para ele. Maria LÚCIA.

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