José Ibrahim morreu ontem

Militante contra a ditadura, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco no final dos anos 60, José Ibrahim fez história. Não o conheci pessoalmente, mas o conto a seguir – que escrevi alguns anos atrás – surgiu a partir de uma entrevista sua sobre a grande Greve de Osasco de julho de 1968, uma greve que ele liderou e marcou época.

SOL CLARO ENTRE NUVENS


Cinco horas da manhã

O toque da mãe na porta interrompe o sono conseguido a duras penas.
– O café tá pronto, filho.
Adenor se vira na cama; dá um gemido. Não tem mais jeito.
A noite inteira rolou de um lado para o outro, pensando em como não fazer o que se comprometera a fazer. Alguém podia tanto chegar para lhe avisar que a greve tinha sido cancelada, a coisa toda dera pra trás e a ordem era seguir o dia normal de trabalho, sem nada.
O medo é uma massa palpável que parece ocupar todo o espaço interno do seu corpo. Cagaço. Por que foi se meter nisso, puta que o pariu! Os panfletos debaixo do seu colchão incomodam mais que grãos de milho duro.
E se não desse certo? E se ele fosse preso? E se ficasse aleijado ou morresse? Muita gente já morreu nas greves.
Houve um momento que praticamente rezou pra cair um temporal. Se amanhecesse com temporal, era sinal de que algo não daria certo, e ele não iria. Inventaria qualquer coisa, e não iria.
Poderia mandar dizer que está doente. E deve estar mesmo. Levantou duas vezes pra ir ao banheiro. Ou então mandar dizer que teve que levar a mãe pro hospital. Por que a velha não tinha uma de suas crises hoje, por Deus!?
Será que é diarreia o que está tendo? Se tivesse diarreia, não poderia sair de casa, é evidente. Imagina o vexame.
Não. Ele vai. Não tem saída. Se não for, vai ser pior a vergonha. Já não basta encherem seu saco, chamando-o de “Intelectual”. Vão chamá-lo de frouxo. Cagão. Coisa pior.
Por que foi se meter nisso, puta que o pariu? Por que não escutou sua mãe. “Deixa dessas coisas, filho! Cuide da sua vida”. Mas não. Ele foi e se meter. Agora não tem mais jeito. Tem que ir.
A mãe vê a cara amarrotada do filho.
– Tá sentindo alguma coisa, Adenor?
– Nada, não, mãe.
– E o café? Cê nem tocou no cuscuz.
– Tô sem vontade.
– Não faz bem sair sem forrar o estômago.
– Num enche, mãe.
– Vê se não esquece a marmita.
– Bença.
– Deus te abençoe, filho.
Ele abre o portãozinho e sai. Rosa, a cachorra, sai atrás.

Cinco e 15
O despertador nem chega a tocar, Isolda pula da cama.
Não imaginara dormir tão profundamente, parece que desmaiou. Até altas horas preparando cartazes e volantes, e agora tem que passar em dois lugares antes de chegar à fábrica. Pela casa do Paco, primeiro. Paco é do grupo de segurança da Cobrasma, e são eles que começarão primeiro. Só depois, as meninas da Fósforo Granada.
Passar rapidinho pela casa do Paco só pra lhe dar um beijo bem dado na boca. Não sabe quando vai vê-lo outra vez, depois que a fábrica for ocupada e tudo. Quanta coisa vai acontecer. Hoje, amanhã e sabe-se lá até quando. Quer pegar na mão dele, colocar no seu peito e perguntar: Tá sentindo meu coração bater?

Cinco e meia
Na casa do Tenório, o grupo todo. Alguns dormiram lá mesmo, na sala, se é que se pode chamar de dormir os cochilos entrecortados. É o grupo encarregado do esquema de comunicações da fábrica, e de tomar o PBX. Dois deles são técnicos. O Comando Clandestino da greve vem se preparando há meses, tá tudo planejado.
Piloto, seu vira-lata acomodado a seus pés espicha-se debaixo da mesa da cozinha. Das Dores serve o último café que acabou de passar. Não pregou os olhos à noite.
– Sossega, mulher.
Das Dores não diz nada, só arqueia um pouquinho as sobrancelhas e continua servindo as xícaras.
Se tudo der certo, o movimento se alastrará e, em três dias, toda Osasco estará em greve. A partir daí, vai se desdobrar pra São Paulo. Um movimento vitorioso é vírus contagioso: pega em todo mundo.
– Tudo pronto? – pergunta Tenório, se levantando.
Faz um afago na cabeça de Piloto, que também se levanta como se tivesse sido convocado.
– Tchau, mulher.
Das Dores não responde. Enxuga as mãos no avental. Sai atrás do grupo. No alpendre o vento da manhã a faz trançar os braços sobre o peito para se proteger. Fica um tempão olhando o grupo dobrar a esquina, com Piloto atrás. Se pelo menos os filhos não tiverem que passar pelo que eles passam, ela já se dará por feliz.

Seis horas
Zé Pimenta está sentado à mesa da cozinha, comendo com um apetite que há tempos não sentia. Garfadas de ovos mexidos entram em sua boca, um maná. Não sabe a que horas comerá outra vez. Mora perto da fábrica e pela janela aberta pra rua começa a ver o movimento. O rádio na cozinha dá a previsão do tempo: sol claro, poucas nuvens.
No seu tempo de jovem, já estaria com a turma do piquete. Sempre foi da turma dos piquetes nas greves que fez na vida. Trinta ou cinquenta homens fortes juntos, dispostos a garantir que uma greve saísse. Trançavam os braços que nem corrente, formando a barreira. Ele era dos mais parrudos. Hoje, não. Com as agruras da vida e a idade, perdeu boa parte da força física. Mas não a moral. A força moral há de morrer com ele.
E a greve de hoje é diferente. Greve moderna. Não vai ter piquete fora, e sim dentro. E vai começar na sua seção. Há tempos não se sente tão disposto, satisfeito mesmo. Nada como uma boa greve com ovos mexidos para encher de satisfação o peito de um velho operário.

Seis e meia
O grupo da manutenção está no bar do Expedito, tomando um café. Ou a rodada da branquinha que Expedito serve pra quem quiser.
Jandira chega aflita. Aproxima-se de Nestor e baixinho avisa que Candango tá doente. Febre de 40 graus.
– Febre é o cagaço! – diz Oziel, que escutou. O nervosismo o faz mais furioso do que deveria.
– Não fale assim, rapaz – reclama Nestor.
– Mas não é justo dar pra trás na última hora – resmunga Oziel.
– Porra, cara! Candango não tem culpa se ficou doente! Depois a gente conversa com ele e vê o que foi.
– Ele era o responsável por um monte de coisa.
– Tem gente pra assumir a parte dele. Sossega.

Sete e meia
Alzira passa pela calçada num ritmo que é como se corresse. Já não é novinha e a quase corrida a deixa sem fôlego. Não devia estar correndo. Deveria estar caminhando tranquila como se fosse uma manhã comum. Controle-se, diz a si mesma.
Mas é que sente um tipo de aflição que parece sopitar em momentos como esse. Sequela do fatídico dia do golpe, quando seu mundo caiu. Ontem à noite, ficou lembrando. Trabalhava na mesma fábrica, e era do mesmo sindicato. Mas naquela época, o movimento era organizado em torno do sindicato, e não nas fábricas, e muita gente disse depois que justamente esse tinha sido o problema. Quando as rádios deram a notícia do golpe, a massa foi em peso aos sindicatos pedir orientação. O que vamos fazer? Não podemos deixar que os milicos tomem o poder assim!
Mas cadê o Partido? Cadê as lideranças?
Sumiram.
Ou foram presas ou estavam saindo do país ou entrando na clandestinidade. O pessoal da base ficou na mão.
Não veio orientação nenhuma.
Ela não perdoa o Partido por isso. Por fazer a massa acreditar que praticamente estava no poder, que se o golpe viesse, seria esmagado. Era assim que eles diziam, a boca cheia: “Se vier um golpe, será esmagado.”
Que ilusão!
Depois disso, não quis saber de mais nada. Terminou também o noivado com Sebastião que no dia do golpe desapareceu. No começo, ela ficou doida, achando que ele tinha sido preso ou assassinato. Que nada! Quando reapareceu, foi pra dizer que tinha passado aqueles dias em reunião secreta. Veja bem: reunião secreta numa hora daquelas! Jamais o perdoou. Já não estava mesmo gostando dele; daquele jeitão de bode velho. Ficou sozinha, mas ficou melhor. Desiludida, sim, mas não enganada por ninguém. Nem no amor, nem na política.
E bem que vacilou quando o movimento ressurgiu. Mas esse tipo de coisa deve ser do sangue porque acabou se envolvendo de novo. É do comitê clandestino de organização da greve na Fósforo Granada. E por isso tem que correr agora. Recuperar o tempo que perdeu.

Na fábrica
Zé do Portão olha com a cara sem expressão para o pessoal que vai entrando na Cobrasma. Está com sede e morrendo de vontade de ir ao mictório. Maldita ressaca que anda atazanando seus porres, já nem pode beber direito, parece que desaprendeu. Será que a branquelinha da faxina já entrou? Tem que dar um jeito de revistar essa menina, não aguenta mais a gana de passar a mão naqueles peitos. Mas a diaba só passa junto com o bunda-mole do namorado que… bom, o cara é boxeador, melhor não brincar com a sorte. Mas que ele ainda vai pegar naqueles peitos, isso vai, pode apontar aí na caderneta.
O pessoal hoje tá entrando tudo em turma e tudo cedo. Parece que marcaram encontro pra vir junto. Tem dias que todo mundo parece mais maluco do que já é. E a cachorrada que deixam pra trás! Todo dia a mesma coisa. Se eu mandasse nisso aqui, proibia trazer cachorro pra porta da fábrica.
Daqui a pouco fecho esse portão e vou mijar em paz, os atrasadinhos que se danem.

Quando a sirene da fábrica apita, é o sinal.
O companheiro do setor de fundição, do Comando Geral, para seu maçarico e grita: “Agora, pessoal!”
A seção para imediatamente o que fingia fazer; agrupam-se e saem organizados, paralisando o resto da fábrica, seção por seção; alguma coisa começa a crescer entre eles, alguma coisa tensa, uma dependência mútua, um respeito, um misto de temor e de assombro; alguns gritam, mas ainda não de todo tomados pelo entusiasmo, e sim pela apreensão, pelo tamanho do gesto que acabam de fazer; “É a greve, pessoal!”; uma corrente viva se forma, atravessando a fábrica de ponta a ponta, até chegar ao pátio central. “Parem tudo!”; o entusiasmo toma conta, a multidão de operários chega ao pátio, instalam a assembleia e decretam a ocupação.
Zé do Portão escuta os gritos no banheiro.
Que porra é essa?!
Sai correndo pro seu lugar na guarita que já está tomada por um grupo cuja intenção ele não leva mais que segundos pra entender:
– Esse lugar agora é nosso, Zé. Dê o fora! Antes, deixe aqui sua arma.
Um grupo o cerca e tira seu cinturão, que fica amontoado junto com os outros, numa caixa. A surpresa é tanta que Zé nem tenta reagir. Procura com os olhos os colegas da segurança e vê que todos já estão do lado de fora do portão, olhando a cena. Sem saber como proceder, nem xingar ele xinga. Sem jeito, vai se juntar aos outros.
A cachorrada late. Pressentem alguma coisa fora do comum.

São nove horas da manhã e a fábrica está ocupada; os muros estão cobertos de cartazes com as reivindicações e ABAIXO O ARROCHO SALARIAL e a exaltação coletiva é uma bolha gigante que envolve todos os que estão ali; é intenso o sentimento de poder, a liga que os une: a autoridade que jamais tiveram antes.
Adenor grita e grita, mal se reconhece; a diarreia e o medo completamente esquecidos; está tão inebriado que poderia se lançar sobre uma fogueira, se preciso.

“Será que se alguém quiser sair, eles deixam?”, Dema pergunta e aponta para o grupo de operários que cerca o portão principal; “Tá parecendo que não”, responde o colega a seu lado; os dois haviam sido pegos de surpresa, sabiam que haveria greve, só um jumento não saberia, bastava ler as paredes pichadas, os cartazes e os volantes que apareciam em todo lugar, como se fosse um tipo novo de barata, volantes e baratas era o que mais se via naquela fábrica de uns tempos pra cá, só não sabiam quando; “Vai dar em quê, isso? Uma coisa é uma greve, outra é uma ocupação”; “Se eu soubesse que ia acontecer hoje, tinha ficado em casa. Não gosto de confusão pro meu lado”; “Se sair morte, vai ser um puta retrocesso”; “Só se esses fedaputas entrarem atirando. Aqui não tem ninguém armado”; “Não tem, hein? Duvido”; “Arma de fogo não tem. Só pau, ferro, coisas que só matam se nego tiver muito a fim”; “E as armas dos seguranças que o pessoal tomou”; “Tão lá nas caixas, proibido mexer”; “Tá escrito bobo na minha cara?”; e Zé Pimenta em outro grupo relembra quando começaram a organizar o comitê clandestino, a comissão de fábrica; os panfletos que faziam à noite, na casa de um ou de outro, denunciando os problemas da metalúrgica; entravam nos banheiros e pregavam os cartazes feitos à mão, ou colocavam nos armários e os panfletos dentro do capacete dos companheiros; e no começo da tarde, chegam notícias de fora; boas e ruins; a pior: a greve foi declarada ilegal; as melhores: as meninas da Fósforo Granada também conseguiram parar; hurra! hurra!; e os companheiros da Brown Boveri!; hurra! hurra!; e os da Braseixos!; hurra! hurra!; a multidão no pátio dança ao ritmo das notícias boas e dos gritos: Osasco está parando! Osasco está parando!

No meio da tarde, chegam os representantes do Ministério do Trabalho. Engravatados, querem conciliação.
– Se a greve parar – dizem, – se desocuparem em ordem a fábrica, damos garantias de que os patrões vão negociar. O Ministério também quer negociar. A paralisação do trabalho não interessa a ninguém.
– A nós, sim, interessa muito – gritam os operários. – Só assim os patrões reconhecem o quanto vale o nosso trabalho.
Hurra! Hurra! Hurra!; a bolha de euforia permanece intacta; dentro dos quarteirões das instalações da Cobrasma, o mundo hoje está de ponta cabeça: são eles que dão as ordens; o povo vive no arrocho, na falta de perspectivas; as esquerdas estão fazendo ações armadas, o movimento estudantil está nas ruas, por todo canto há insatisfação; e nós, os trabalhadores, o que vamos fazer? Isso: greve e ocupação das fábricas.

Jornalistas se aglomeram nos portões da fábrica. Políticos. Padres. Mães, esposas, filhos se juntam nos portões trazendo o jantar.
A mãe de Adenor lhe entrega um prato amarrado no guardanapo e pega a marmita que estava com ele.
– Isso não é coisa de comunista, Adenor?
– É não, mãe. É coisa boa pra nós. Se o comunismo fosse tão ruim como falam, os patrões seriam os primeiro comunistas do Brasil.
Entre os cheiros estranhos e a aglomeração inesperada, a cachorrada late, confusa: o pessoal já devia ter saído. São cachorros acostumados a esperarem na hora da saída, todo dia, cada qual seu dono. Cadê eles?


A noite e a madrugada

É então que a situação muda. O silêncio de expectativa transforma em peso a leveza de antes. Um enxame escuro – a tropa de choque da Força Pública, cavalaria, tatus, brucutus e agentes do DEOPS – ocupam militarmente a cidade. Montam barreiras: ninguém sai nem entra de Osasco sem autorização. A tropa cerca as fábricas ocupadas.
A cachorrada late, desconfiada, cheirando o ar denso do suor dos homens e dos cavalos. Agora, têm certeza: alguma coisa está errada na estranha demora de seus donos. A tensão tem cheiro álacre e beira o fedor do medo.
Da rua, começa o que os militares chamam de guerra psicológica. Alto-falantes berram: “Trabalhadores! Vocês são inocentes úteis nas mãos dos comunistas e baderneiros! Ou vocês saem por bem daí, ou vamos entrar à força! ”
Barreto aproxima-se da cerca. Tem voz possante e ardor: “Companheiros soldados! Não sejam cães armados dos patrões. Não se virem contra nós, seus irmãos”; Paco, Zé Pimenta, Adenor, a massa de mais de três mil operários se coloca atrás dele; são muitos, estão juntos; não estão armados mas a força entre eles é uma entidade à parte; um cheiro, uma carga elétrica que os soldados sentem do outro lado.
Os oficiais gritam do lado de lá da cerca:
– Pelotão, ordem!
Gotas de suor atrapalham a visão de muitos. A maioria quer acabar logo com aquilo, voltar logo pro quartel. Não sabem que inimigos são aqueles que podem ser vizinhos, parentes. Irmãos, como disse o cara.
– Pelotão!
Não dá para não escutar a voz de comando tão entranhada neles. Não têm como não obedecer. É a ordem de invasão. Os tatus e brucutus rompem as barricadas de pau e ferro.
Os grevistas apagam todas as luzes; a tropa entra às escuras: dão rajadas de metralhadora para o alto e atiram bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral; a invasão não pega ninguém de surpresa: todos sabiam que o mundo não continuaria de ponta cabeça pra sempre; não assim, não naquele momento, não tão fácil; é batalha de antemão perdida e há operários que decidem sair, mas a maioria não quer entregar a fábrica sem resistência; dispersam-se em grupos pelas seções escuras que conhecem bem, mas os soldados, não: tropeçam, se estatelam no chão, se machucam; pedaços de pau, ferro e peças caem sobre eles; a fábrica é enorme, ocupa vários quarteirões, e a batalha se espalha; gritaria, estardalhaços, ordens sussurradas, breu; bombas de efeito moral; passos pesados, passos que mal se ouvem, correrias, pancadas; trabalhadores são presos desacordados, guardas têm a cabeça rachada, braços quebrados, pernas; muitos escapam pulando os muros, a ordem agora é escapar enquanto o sol nasce; é manhã e ainda continuam prendendo gente dentro da fábrica; mais de 300 operários detidos; fuligem, suor, cacetadas; feita a triagem, Barreto, Oziel, Lenildo e outros 50 são levados presos; vários vão para o pronto-socorro; entre eles, Zé Pimenta com a perna quebrada.

O dia seguinte
Quando Adenor reaparece em casa, está preto da fuligem do velho forno apagado onde ficou esperando o momento de sair, pulando o muro. Senta-se à mesa e pede, faminto:
– Tô morto de fome, mãe.
Ela esquenta a comida, não cabendo em si por ver o filho.
– A senhora viu, mãe? – diz Adenor, raspando o prato como há tempos não fazia. – Eu estava lá. Eu fui.
A velha sorri.
Entende perfeitamente o que o filho quer dizer.
– E Rosa, mãe, cadê? Ainda não voltou pra casa?
– Deve tá por aí – ela responde, voz baixa.
Contará ao filho mais tarde, deixa ele descansar primeiro. De manhãzinha, quando foi à porta da fábrica procurar por ele, viu a caçamba sendo arrastada por dois guardas. Coração aos pinotes, conseguiu chegar perto.
Dentro dela, só cachorros mortos.
Entre eles, logo por cima, Rosa.

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