Sexta de crônicas

A casa

Mal ela entra, algo a faz parar.
Não uma ilusão de ótica. Nem a vaga impressão de estar entrando em um cenário irreal. Era outra coisa.
A sensação de entrar em uma foto, talvez; mas não, tampouco.
A sala é magnífica. Móveis clássicos em tons e sub tons claros de bege e branco, suaves quadros abstratos em sub tons de um amarelo muito muito claro nas paredes brancas. O sofá também branco se estende tomando quase toda a parede maior. Almofadas brancas brancas jazem simétricas na junção dos cantos.
Jazem? Sim, jazem. Embora talvez deslocado, jazer era o verbo mais adequado para aquele branco no branco e a mortiça suavidade que parece presidir a decoração em volta.
Seus pés se afundam no tapete felpudo bege bem claro, numa versão sofisticada e cara daquele tipo de tapete que era – não sabe se ainda é – muito encontrado no Nordeste, e barato. Ela mesma teve um, muito muito tempo atrás.
A luminária circular que pende do teto é de um metal fosco escovado, especialmente bonito. É dia ainda, e da grande janela de vidro, do teto ao chão, entra uma luz que realça ainda mais a irradiação branca do local. Demasiada luz; talvez seja isso que não a deixa confortável o suficiente para se sentar e esperar.
Move a cabeça devagar de um lado a outro, procurando entender o que a faz estranhar tanto uma sala incrivelmente bela e luxuosa.
O ruído surdo é como um zumbido de fundo distante, quase inaudível. A rua é residencial e tranquila; desde que saltou do ônibus na rua abaixo, nenhum som a perturbou até tocar a campainha, ouvir o clique de abertura e a voz que ela tanto conhecia, embora já tão distante, lhe dizer, “Entre que já desço.”
E a dona da casa que desce então a escada é uma mulher produzida, envernizada, qual uma capa de revista: a filha que há dez anos não via e que do nada a convidara para vir até ali.
Não a abraça, nem sequer se aproxima muito.
Sorri, apenas, de modo calculado, e diz. “A senhora me disse que um dia me veria morando debaixo da ponte. Queria que visse que sua profecia ou praga não aconteceu. E agora que viu, gostaria que saísse pela mesma porta por onde entrou.”
Muda como estava, ela se vira, inflando delicadamente as narinas. É quando por fim percebe a origem da sua estranheza: a casa não tem cheiros. Não há o mais leve odor: nem de comida, nem de flores, plantas e jardins. Tampouco de bichos, menos ainda de crianças. Nenhum.
E ela sai pela rua enquanto em sua cabeça ecoa, pela milésima vez, a voz da filha depois da grande briga: “Nunca mais ponho os pés nessa casa que cheira a latrina”.
Desde então, nada soubera dela, e jamais entendeu de onde viera aquela enorme raiva. Muito menos agora.
Seca a lágrima há muito já seca.
Dez anos é tempo demais para tamanho ódio.


(Crônica publicada em “O Popular”
)

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2 respostas para Sexta de crônicas

  1. Mulher envernizada, almofadas brancas jazem, quantas imagens fortes.
    Adorei tudo, a história e o seu jeito de contar.
    beijo.

  2. Que bom! Fico muito contente. 😉

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