Affair Panair

Começa a vir à tona o esclarecimento de um crime emblemático cometido pela ditadura civil-militar no Brasil: a quebra da Panair.

No começo dos anos 60, os aviões da Panair, com seus pilotos capacitados e aeromoças elegantes, cruzavam o país de cabo a rabo, como se diz. O nosso céu era azul, o uniforme das aeromoças era azul, e o Brasil, com a efervescência dos “50 anos em 5” dos tempos de JK, a construção de Brasília e a industrialização do país, vivia um época de esperanças também azuis.

A Panair do Brasil fez parte desse tempo, e ficou em nosso imaginário em filmes e em canções como a clássica “Saudades dos aviões da Panair”, do Milton Nascimento:

“Descobri que as coisas mudam
E que tudo é pequeno
Nas asas da Panair
Cerveja que tomo hoje
É apenas em memória
Dos tempos da Panair

A primeira coca cola
Foi, me lembro bem agora,
Nas asas da Panair
A maior das maravilhas
Foi voando sobre o mundo
Nas asas da Panair. ”

No dia primeiro de abril de 1964, no entanto, e como sabemos todos, as cores do país mudaram.

Menos de um ano depois, e sem aviso prévio, a Panair que então, com cinco mil funcionários, era a maior companhia aérea brasileira e pioneira de voos internacionais, teve suas licenças de voo cassadas pelo governo militar, e suas rotas distribuídas a outras companhias, especialmente a Varig.

Além disso, foi obrigada a decretar falência por vários decretos-leis promulgados com a intenção específica de inviabilizar a retomada de operações da empresa cujos donos eram amigos de Juscelino Kubitscheck, ex-presidente da República, e um dos principais opositores ao regime militar.

Agora, documentos comprovando como a falência da Panair resultou da perseguição do governo militar foram reunidos pelo empresário Rodolfo Miranda, filho de Celso da Rocha Miranda, um dos donos, e encaminhados à Comissão Nacional da Verdade, que investiga os crimes da ditadura. “A intenção não é cobrar o prejuízo”, disse o herdeiro da companhia. “Quero que o Estado reconheça que a falência da Panair não foi culpa dos donos, mas sim manobra da ditadura.”

A primeira audiência pública para debater o caso já aconteceu, e os jornais começam a noticiar o caso.

Pena que, 48 anos depois, não se pode dizer que a justiça está chegando “nas asas da Panair”, mas o fato é que está chegando.
Resta-nos aguardar que mais esse crime da ditadura que, por duros 21 anos desgovernou o país, seja por fim completamente esclarecido.

(Crônica publicada no jornal “O Popular” em 30 de março, 2013)

Anúncios
Esse post foi publicado em Crônicas. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s