O rio e a destruição

Ontem, dia 22 foi o Dia da Água.

Com atraso, deixo aqui um trecho da fala da velha Dois Milagres, que aparece no meu romance “o Fantasma de Luis Buñuel”. Dois Milagres é uma personagem que nasce às margens do Rio Vermelho, na cidade de Goiás Velho, a cidade da Cora Coralina. A rigor, no romance, eu a coloco justamente morando na velha casa da Cora.
Aí está seu pequeno monólogo sobre o que aconteceu com ela e o rio:

“Só que ao contrário, enquanto eu fui crescendo, o rio foi decrescendo, foi minguando, minha filha, porque antes ele era mais forte, mais vivo, muito mais rio do que é hoje, e eu quero morrer antes que ele vire uma enxurrada, por que do jeito que o mundo vai, tenho muito medo disso, um rio tão lindo como era, alegre mesmo, cheio, forte, vinha que vinha bonito, as águas subindo em ondas saltadeiras como numa catira, ou então, quando era o tempo das secas, quando ele ficava mais tranquilo, mais quieto, era uma quietura de descanso, passageira, e não de doença, como agora, que ou ele fica quase seco, escaveirado de dá pena, ou lá vem ele enraivecido, furioso mesmo, e vem querendo destruir tudo, logo ele, que sempre viveu bem com todo mundo, conhece todo mundo daqui, conhece desde que nasceram, é como se fosse parente do povo da cidade, mas de repente vem que vem querendo destruir, e eu fico pensando que destruição é uma coisa esquisita demais que Deus fez, e outro dia mesmo fui perguntar pro padre Expedito, esse padre novo que chegou há pouco tempo, porque pro outro eu já tinha perguntado mas não gostei da explicação, então perguntei pra esse também, por que Deus tinha feito a destruição, por que ele não sossegou com o que já tinha criado de bom e precisou fazer uma coisa tão fora do feitio dele, mas o padre falou que destruição não era coisa de Deus, mas do errado que existe no mundo, ou seja, do Diabo, mas olha que eu vou lhe dizer um segredo, que não é tão segredo assim, pois já falei isso também pros padres, tanto pra esse novo, o padre Expedito, como pros outros, pra todos os padres que passaram por aqui eu contei esse meu segredo, e é que não sei se acredito no Diabo. A bem da verdade, eu acho que Diabo, se existe, é uma coisa tão errada que não pode ter sido criada por Deus, e se não foi criada por Deus, como é possível, se Deus Nosso Senhor é o criador de todas as coisas? Por isso eu fico pensando que o errado foi criado num dia que Deus errou a mão, do mesmo jeito que a gente erra a mão quando tá fazendo uma comida e a comida desanda, é a mesma coisa, só que no caso de Deus, se ele pôs muito sal aqui, menos sal ali, errou na gordura aqui e na farinha ali, ou esqueceu do fermento, ou não prestou atenção e bateu demais uma massa, ele fez essas coisas e quando viu não tinha mais jeito, porque jogar fora não podia, como cê vai jogar fora uma coisa que Deus criou?, e corrigir não tinha mais jeito porque, quando ele atinou com o erro, aquela coisa já estava criada, então foi assim que ele viu que tinha que aceitar o certo e o errado, porque tudo foi ele mesmo que criou. É assim que eu penso. E também porque, se a gente pensar bem, vai ver que o erro de Deus…”

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