Sexta de contos

Outro dia li em algum lugar que estava sendo publicada uma antologia de contos sobre futebol. Me deu vontade de escrever um. Aí esta:

JOGO DE PERNAS

No final da tarde quente, os meninos se juntam no gramado levando a bola. Todo dia é assim. Agora, então que arranjaram um técnico, estão se sentindo um time de verdade. A grama seca amarelada já grudou no chão como se querendo voltar para o fundo da terra outra vez, agora que está morta. Nos dois cantos do gol, já não há grama alguma no centro, deixaram a terra dura retomar o lugar, formando um cocuruto feio como careca de velho, fiapos aloirado achatados dos lados.

O técnico é a novidade. Ela sabe quem é, um rapaz que mora na viela vizinha. Mais velho. Não exatamente bonito, mas outra coisa. Uma outra coisa que, essa, ela não sabe o que é, mas a faz ficar meio fixada, olhando o jeito dele, diferente dos meninos da turma do irmão, um jeito que talvez mais tarde ela aprenda a reconhecer como másculo, mas naquele momento ainda não. Aos dez anos, não se sabe dessas coisas. O que sabe é que essa tarde, sem se dar conta do que aquilo significa, ela se viu interessada no futebol dos irmãos.

Senta-se na beira do cimento da garagem, chupando uma laranja suculenta e madura. Passa a língua pela tampa, primeiro. Mordisca. E antes de passar para a laranja propriamente dita, vai puxando com os dentes os gomos finos da tampa, um a um.

O chamado técnico está com um apito que acabou de tirar do bolso da camisa. Apita com força, junta os meninos e diz algumas coisas que ela não escuta. Nunca viu nada mais chato do que um jogo de futebol, mas fica olhando. O rapaz que se faz de técnico usa calça comprida marrom e camisa branca mas não pra dentro, pra fora. Já não é como os meninos que usam calça comprida só pra acontecimentos importantes; ele usa calça todo dia, e isso faz uma diferença enorme. Deve estar morrendo de calor. A voz dele também é diferente. Voz de homem, mandona. Técnico é como um professor que manda. Ela nunca teve um professor, só professora. Deve ser esquisito ter professor.

Os meninos recomeçam e o técnico corre junto com eles. Dá vários gritos, apita, depois parece que se cansa um pouco, também com aquele calorão. Olha pro canto onde ela está sentada no cimento da entrada, chega perto e se senta a seu lado.

Nunca conversaram antes, mas ele agora lhe dá um sorriso torto.
Apreciando o jogo?, pergunta.

Isso não é jogo – ela responde sem tirar os olhos dos meninos, acanhada demais pra olhar direto pra ele.

Ah, cê entende de futebol?

Não. Mas sei que eles não sabem jogar.

A laranja que estava meio esquecida na mão volta até sua boca de lábios cheios e meio arroxeados. Ela dá uma chupada e estica as pernas magrelas que saem do shortinho amarelo. Espicha um pouco os dedos dos pés descalços. O cheiro sumarento chega até ele.

Então, o grito, “Vai nela, Marcos”. E o técnico se levanta, dá uma corrida, fica lá seguindo de um lado a outro. Depois volta.

Seu irmão joga bem – ele diz.

Joga nada – ela responde, sem tirar os olhos da frente. Percebe que ele está olhando pra ela, o sorriso torto outra vez; é como se ela tivesse um olho do lado direito da cabeça que dá pra onde ele está.

E lá vai ele de novo falar com o menino enjoado no gol, que ela acha que foi mandado pra lá justamente porque é muito enjoado. Como se o gol fosse um castigo. O nome dele é Deco, e é mais baixo que os outros, de cabelo castanho e todo sardento. Mora também na viela, mas esse ela conhece, é amigo dos irmãos e todo dia aparece. Mora numa casa pequena, onde ela nunca entrou. Aliás, ela nunca entrou em nenhuma daquelas casas, a não ser a casa da Dona Indira, que essa não conta porque é melhor que as outras casas da viela e Dona Indira é amiga da sua mãe. Adélia, que é a filha, é sua única amiga da vizinhança, e também não se dá com as meninas da viela. Meninas, não, menina; é uma só. Uma menina que não chega perto dela nem da Adélia, e mora na casa cheia de irmãos, um dos quais é o técnico. Pensando bem, é a primeira vez que ela vê alguém da viela, fora o Deco, entrar na sua casa, se bem que ali no gramado nem se pode dizer que é entrar. E lá vem ele voltando, enfiando o apito no bolso, e se sentando.

Como é seu nome mesmo?

Lilian – ela responde sem olhar.

Cê gosta de futebol? – ele arranca um pedacinho de grama e coloca na boca. A ponta verde continua aparecendo enquanto ele mastiga como se fosse a grama fosse chiclete, e dessa vez estende as pernas.

Eu não – ela dá de ombros, ainda sem virar a cabeça, parecendo quase hipnotizada pelo irmão e o Darinho que trançam os pés correndo atrás da bola que escapole pra baixo das moitas de maria-sem-vergonha. O apito do técnico a seu lado faz com ela ponha as mãos nos ouvidos e grite, “Aiii!”, enquanto ele sai correndo outra vez.

Seu irmão tem jogo nas pernas, sabe como é? – diz, ao voltar e se sentar outra vez, agora estirando o corpo pra trás, e se apoiando nos braços.

Não.

Há uma leve pausa desta vez, como se ele olhasse para os lados, antes de se virar meio de lado pra ela, levantar a mão direita e dizer, Assim, ó!

E põe a ponta do indicador e do dedo do meio no alto da sua coxa esquerda magricela. A mão dele é grande, os dedos de unhas curtas sujos de graxa pressionam com um toque leve e quente sua pele, em um movimento rapidinho como se fossem os dedos duas pernas, provocando uma quentura estranha e eriçando os pelinhos de sua coxa quando se aproximam mais do gol, ali bem no centro de suas traves, no meio de sua pepita.

Os meninos gritam se engalfinhando no gramado, e ele recolhe a mão, rindo pra ela que faz como se não tivesse sido nada. Não foi nada mesmo. Foi só a demonstração de um jogo de pernas.

Ele se levanta sem pressa e vai pro meio do gramado, apitando.

Ela continua ali, a laranja murcha em sua mão, os olhos fixos em frente.

Já não tem vontade de virar do avesso a laranja para tirar com os dentes a polpa dos gomos, como faz sempre. Parece que cresceu.

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