Para comemorar o aniversário de São Paulo

Neste 25 de janeiro de 2013, alguns trechos do meu romance “Pauliceia de mil dentes”:

“…. saindo do cinema na Paulista, eles viram os fogos de artifício que pareciam subir por trás do parque Trianon, e duraram uns lindos quinze minutos. Que maravilha de cidade esta, onde essas coisas acontecem em uma noite comum, alguma coisa sendo comemorada que os dois não têm a menor ideia do que possa ser mas dela participam dali, da porta do cinema, eles e mais os milhares de pessoas que transitam pela avenida à noite, e mais todos os que moram nos arredores, um momento de beleza colorida na cidade. Os dois tinham acabado de ver um filme engraçadinho sobre dois jovens que moram em Buenos Aires, uma Buenos Aires neurótica e feia, caótica, desorganizada, e nisso muito parecida a qualquer cidade grande, muito parecida exatamente a esta São Paulo. Mas não sejamos tão duros com elas, as cidades cosmopolitas, com seu ilimitado potencial. Elas são também ser foco de felicidade, massa de possibilidades, elas agregam. Como a Buenos Aires do filme fez aquele casal se encontrar, São Paulo fez os dois se conhecerem, sem ela cada um estaria perdido em sua cidade natal, distante e desconhecidos um do outro, desconhecido do amor um do outro. E quase incrédulos e meio eufóricos com o belo espetáculo de fogos que acabaram de ver, os dois vão ao Franz Café da avenida. Falam mais uma vez de seus planos.
Primeiro, Selma: está gostando muito do novo emprego, uma empresa de computação de porte. Fora algumas questões, está bem. Os colegas são bacanas. Depois que passar o mês de experiência e pagar algumas dívidas, vai poder contar com um salário melhor. Acha que vai dar tudo certo.
Depois, Bruno: ele tem certeza que sua promoção vai sair. O chefe veio conversar, uma conversa ótima. É quase certo, então, que vão poder alugar um apartamento para morar junto.
Ela pergunta: Será que já podemos começar a procurar? Já avisei pra Vanda e Luli começarem a ver com quem dividir o aluguel. Ele responde: Vamos aproveitar o próximo sábado?
Os dois pensam, olhando um para o outro: a gente vive pelas brechas. É feliz pelas brechas, nos fugazes fragmentos do tempo como os desta noite.
E dizem, no mesmo instante:
Eu já te falei o quanto amo esta cidade?”

“E então, a mocinha Rubi agora diz que eles vão ficar ricos. Se Deus quiser, ficam. Mas Jonerval não precisa disso. Nem sabe se quer, pra falar a verdade. Continua morando no seu mesmo quartinho alugado no Sacomã, aprontando sua casa pra depois quando se aposentar da Igreja, ou se não se aposentar, leva a Igreja pra lá, de qualquer maneira tá longe esse futuro que nem ele próprio consegue ver. Nem sabe mesmo e vai existir, ou se o mundo vai chegar no Sétimo Silêncio do pai. Anda pensando muito nas estações, nessas mudanças que vêm acontecendo na natureza aos olhos vistos de qualquer um. A ordem natural conhecida e respeitada desde que ele nasceu está sendo quebrada. Já não se pode ter certeza que será frio quando deve ser frio e será calor quando deve ser calor. E são coisas assim fora do lugar que mais perturbam sua alma de camponês. Como perturba pensar que ele agora mesmo pode estar pisando sobre um rio encanado, um rio encarcerado em cimento, justo um rio que é um fluxo, um moto do contínuo feito pra correr, pra ser livre. Rios esquecidos, abandonados por uma cidade que tem medo deles. Como é que veio parar numa cidade que não respeita seus rios, que não os ama, que os trata como latas coletivas de lixo. Pior: uma cidade que mata seus rios. Que os soterram para sobre eles erguer suas ruas, seus prédios, seus luxos. Na cela da prisão, em certas madrugadas quando o mundo como que parava, os roncos paravam, as pisadas paravam, os ruídos dos insetos paravam; nessas horas raras, nesses momentos absolutos de silêncio, ele deslizava do beliche e deitava a cabeça na parte mais úmida do chão de cimento e escutava o barulho da água encarcerada lá embaixo, água sofrendo o mesmo destino daqueles homens também encarcerados por seus crimes, mas água inocente, água de algum córrego cujo lamento ele escutava dali, e pedia perdão. Mesmo que Deus, em sua inexpugnável fortaleza de saber, tenha permitido isso, mesmo assim, ele pedia perdão. Não a Deus, mas aos rios. E hoje diz na sua igreja, nos dias que a mocinha Rubi não está por perto, ela não gosta de ouvir essas coisas, ele diz, Perguntem aos rios para onde vão as cidades que os enterram. Os rios respondem, eles não se recusam a responder. Todo ano eles respondem, com novas e novas e mais enchentes que levam o que estiver pela frente. Mas os homens se recusam a entender a linguagem das águas. E é por essa desmedida ignorância do homem que Deus lhes permite preparar o cataclismo aniquilador, o fim do mundo, a hora fustigadora e nossa, Amém.”

“Tinha 17 anos e o coração incendiado, quando chegou a São Paulo.
O fogo daqueles anos, e o desejo de conquistar aquele desmedido, aquela massa disforme quando vista por quem chega e nada entende. Uma cidade que vai mastigando o que lhe vem de fora, incorporando e tornando seu, ou cuspindo nas ruas. Frio caleidoscópio gigantesco e sem alma, quando joga fora. Mãe deslumbrante, quando acolhe. A sorte que ele teve é que, pra ele, ela foi essa mãe e o acolheu.”

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