O sétimo sentido

É algo bastante melancólico esse sétimo sentido que T.H.White descreve em “O Cavaleiro Imperfeito”, o terceiro volume de sua maravilhosa saga “O único e eterno rei”, que tive o enorme prazer de traduzir e breve sairá pela Hamelin, um selo da editora Lafonte.

É melancólico mas é bonito:

“Há uma coisa chamada conhecimento do mundo, que as pessoas não possuem até chegarem à meia-idade. É algo que não pode ser ensinado aos jovens, porque não é lógico e não obedece às leis que são constantes. Não tem regras. Simplesmente, nos longos anos que levam as mulheres ao meio da vida, um sentido de equilíbrio se desenvolve. Você não pode ensinar um bebê a andar explicando-lhe o assunto logicamente – ele tem que aprender a estranha postura para andar pela experiência. De maneira parecida a essa, não se pode ensinar uma jovem mulher a ter um conhecimento do mundo. Ela tem de ser deixada com a experiência dos anos. E então, quando ela está começando a detestar seu corpo usado, de repente descobre que pode tê-lo. Pode continuar a viver – não por princípio, não por dedução, não por conhecimento do bom e do mau, mas simplesmente por um sentido peculiar e mutante de equilíbrio que, com frequência, desafia cada uma dessas coisas. Já não espera viver procurando a verdade – se é que as mulheres alguma vez esperam isso – mas continua daí pra frente sob a orientação de um sétimo sentido. O equilíbrio era o sexto sentido, que ela adquire quando primeiro aprende a andar, e agora ela tem o sétimo – o conhecimento do mundo.
A lenta descoberta do sétimo sentido, com o qual tanto homens quanto mulheres dão um jeito de enfrentar as ondas de um mundo no qual existe guerras, adultério, compromisso, medo, estupidificação e hipocrisia – esta descoberta não é motivo de orgulho. O bebê, talvez, grite em triunfo: consigo me equilibrar! Mas o sétimo sentido é percebido sem uma exclamação. Nós apenas continuamos em frente, com nosso famoso conhecimento do mundo, enfrentando as estranhas ondas à nossa maneira habitual, petrificada, porque atingimos uma fase de impasse no qual não conseguimos pensar em outra maneira de agir.
E, nessa fase, começamos a esquecer até que houve um tempo quando não tínhamos o sétimo sentido. Começamos a esquecer, enquanto seguimos firmemente equilibrados, que pode ter existido um tempo em que fomos corpos jovens ardendo no ímpeto da vida. Dificilmente a lembrança de tal sentimento pode ser um consolo, e assim ele fica amortecido em nossa mente.
Mas houve um tempo em que cada um de nós estava nu frente ao mundo, confrontando a vida como um problema sério que íntima e apaixonadamente nos dizia respeito. Houve um tempo em que era de nosso vital interesse descobrir se existia ou não um Deus. Obviamente, a existência ou não de uma vida futura é de primeira importância para alguém que vai viver sua vida presente, porque sua maneira de vivê-la vai depender disso. Houve um tempo em que o Amor Livre versus a Moralidade Católica era uma questão tão importante para nossos corpos ardentes como uma pistola que fosse ser disparada em nossas cabeças.
Ainda mais para trás, houve tempos em que nos perguntávamos com toda nossa alma o que era o mundo, o que era o amor, o que éramos nós.
Todos esses problemas e sentimentos desaparecem quanto adquirimos o sétimo sentido. As pessoas de meia-idade podem, sem dificuldade, se equilibrar entre a crença em Deus e a desobediência a todos os mandamentos. O sétimo sentido, na verdade, aos poucos vai matando todos os outros e assim, no final, não há nenhum problema com os mandamentos. Já não podemos vê-los, nem senti-los, nem ouvi-los. Os corpos que amávamos, as verdades que buscávamos, os deuses que questionávamos: ficamos surdos e cegos para eles agora, segura e automaticamente nos equilibrando em direção ao túmulo inevitável, sob a proteção de nosso último sentido. «Obrigado, meu Deus, pelos mais velhos», canta o poeta.

Obrigado, meu Deus, pelos mais velhos
E pela própria velhice, e a doença e o túmulo.
Quando estamos velhos e enfermos, e particularmente no caixão,
Não dá trabalho nenhum nos comportarmos bem.”

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