Para começar o ano

Quero começar 2013 neste blog com uma poesia de Mariana Ianelli.
Seu livro “O amor e depois” foi minha leitura da passagem do ano. Um livro forte, belíssimo, cuja leitura recomendo a todos.

Vejam que bonito:

“DESCOBRIMENTO

Será como chegar extenuado,
Mas chegar,
Depois de uma viagem
Que foi quase sempre angústia
De se debater num mar adversário

E então o inexprimível
De pisar em terra firme
E ainda ser capaz do passo distraído,
Essa glória de juventude
De se deixar levar

E será algo tão novo
Como se nunca tivesse existido
Nunca tivesse nem mesmo
Sido desejado –

Um caminho estrangeiro
Por entre o orvalho e a névoa,
Um frescor de primeiro dia,
Um momento sem passado,
A chance de tocar um mundo novo
Como dois azuis se podem tocar
Sem pecado.”

Mariana Ianelli também aparece no meu romance “Pauliceia de mil dentes”. Sua poesia é parte da São Paulo de hoje e aí está ela, no trecho abaixo, na cabeça de Ametista, uma das personagens:

Quando está na Avenida Paulista, muitas vezes Ametista vai até o final, a Casa das Rosas, que acha bela. É o consolo que reserva para o dia mais perdido do que o usual. Examina o cartaz com a programação. Nem sempre tem coragem para entrar; fica por ali, zanzando pelo jardim, debaixo do caramanchão de rosas que nem sempre tem rosas.
Não é a mesma coisa que nos shoppings, é outra coisa, mas quando chega ali, também se acha menor. Pequena. No shopping, é uma pequenez que a humilha, que a exclui como se exclui uma casca de ferida. Na Casa das Rosas é uma pequenez vinda do amor. Da admiração. Aquelas pessoas tão cultas, seguras de si. Poetas, escritores, professores. Só poder estar ali ao lado deles lhe parece um prêmio. Quase tudo é grátis e ela poderia entrar sempre, mas para ousar dar esse passo e se misturar com essas pessoas, tem que ter coragem, e nem sempre tem. Pode contar nos dedos as vezes em que entrou e se sentou logo na primeira cadeira que encontrou, e lá ficou até o final. Da primeira vez, eram poetas declamando poesias que a emocionaram muito. Gravou o nome de dois deles. Frederico Barbosa. Um homem de voz doce, tonzinho meio quebrado no final. O outro era Claudio Daniel. Muito sério, parecendo bravo, mas não devia ser. E já tinha visto também uma poeta muita linda, e com um nome bonito: Mariana Ianelli. Estava de botas de couro e um tipo de xale vermelho sobre o vestido preto. Ametista poderia ficar ali para sempre escutando aquelas vozes.”


Que 2013 seja um ano bom para todos nós!

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2 respostas para Para começar o ano

  1. Betulia Eriksson disse:

    Que linda poesia! Que linda é a Mariana Ianelli. Nao a conhecia e isso já mostra a estranha que sou quando vivo assim tao longe da terra natal. Obrigada Zézé por compartilhar, por assim assim tão rica e tão chegada ao mundo dos poetas e escritores. Que seu 2013 seja divina e imenso nas descobertas, viagens e escritas. Amo vc e sempre vai ser assim.

  2. Betulia, minha flor: como é bom ter notícias suas! um beijo de muitas saudades, z

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