Sexta de contos

Saiu recentemente pela Record “O Livro Branco”, organizado por Henrique Rodrigues que pediu a 19 escritores um conto sobre uma das músicas do “Álbum Branco” dos Beatles. Para quem não conhece, esse disco antológico marcou época: foi lançado em 1968 e imediatamente se tornou uma febre entre todos nós.

Não participei do livro mas adorei a ideia e escrevi um conto curtinho, para este espaço.

Aí está:

“Começo dos anos 70, em uma cidade qualquer do país

A janela da casa se abre para o quintal pequeno onde um cajueiro dá flor.

É uma tarde de mormaço, ar parado, e ele está cansado. Tem um bocado de trabalho pela frente mas, depois de horas, pensa que um pouco de descanso lhe fará bem. Vai até o toca disco, põe pra tocar o LP que escutou a noite toda. O revólver descansa sobre a capa branca do disco.

No entanto, mal escuta a música. A cabeça fervilha; quase não dormiu a noite passada. Não que tenha acontecido nada de extraordinário, é só uma sensação. Quando passa alguns dias sem encontrar ninguém, fica assim, pesado. Não por nada de concreto; apenas a sensação de que algo pode acontecer, ou já estar acontecendo.

Chegou há três dias, e não saiu daquela casa. Não se acostuma com o calor pegajoso. Vai até a cozinha minúscula, faz um café e fica um tempo sentado olhando o fundo borrado da xícara. Não imaginou que estivesse tão cansado.

Levanta-se decidido a tomar um banho. Liga o chuveiro, a água o mais quente possível. A água quente engana o corpo que, ao sair, acredita que o ar ficou mais fresco. Pelo sim, pelo não, o vapor que o envolve o exime de pensar em qualquer coisa, coloca-o dentro de uma nuvem. Cantarola a música que ecoa em sua cabeça. Sente o começo de uma ponta de certa alegria.

É quando os três entram na casa, sem muito barulho.

Escutam o barulho da água no chuveiro e a voz cantando obladi, obladá, la lá how the life goes on. Veem o revólver na mesa.

Dois se aproximam da porta do banheiro. Um chuta com força, o outro entra e atira no vapor, uma nuvem densa e viva.

“O merda tentou fugir”, a voz do que atirou grita do banheiro, entra no box, fecha a torneira e completa, “Pôrra! Me molhei.”

O que está vasculhando as coisas da mesa, pega o revólver com um lenço e passa para o terceiro que vai até o banheiro e o coloca na mão ainda quente de Ruy.

O que pegou o revólver sobre a capa branca do disco comenta: “Não entendo porque esses caras têm a porra desse disco! Será um tipo de código, ou tão pensando que isso é festa? Não são eles que dizem que vivemos na ditadura? Então por que diabos acham que a gente vai dar moleza?”

O corpo fica lá estirado no box, enquanto os três policiais se espalham pela casa, esperando o dono ou seja lá quem for chegar.

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