Pensando junto com Ana

A brincadeira era fechar e abrir a porta de uma casinha de plástico no chão. E ela fechou e abriu, fechou e abriu, fechou e abriu. Até enjoar de tanta facilidade.

“Preciso muito de uma chave”, disse, e foi correndo pegar uma chave inexistente; voltou como se estivesse com ela na mão. Fez que dava uma volta na fechadura mas, “Não abriu!”. Eu fiz cara de enorme surpresa, e rimos as duas. “Vou pegar outra”, ela disse e foi correndo buscar outra chave inexistente que trouxe de novo na mão para abrir a porta que, mais uma vez, não se abriu.

A brincadeira passou a ser essa até que foi minha vez de enjoar e introduzir pequenas variações: “Pôxa, Ana! Assim não dá! Vê se pega a chave certa”, e lá ia ela correndo, voltando com a errada e se divertindo com sua desobediência. Então falei, “Se dessa vez você não voltar com a chave certa, vai ter que ficar de castigo”, e ela, trazendo outra vez a chave errada, introduziu sua própria variação, “Agora eu vou sentar ali pra pensar no que eu fiz”, e lá foi se sentar no degrau da escada.

A brincadeira passou a incorporar essa variante: ela saía correndo feliz pra pegar a chave certa, trazia a chave errada, a porta não se abria e ela ia se sentar pra pensar no que tinha feito.

Enquanto isso, eu também pensava: o que significa uma criança de dois anos e meio transformar em alegria o que supostamente é o pequeno e talvez único e certamente raro “ato disciplinador” que ela conhece? Demonstrando perfeito conhecimento sobre seu faz-de-conta, ela modificava tanto o “ato transgressor” – a “desobediência” de buscar a chave certa – quanto a possível consequência disso – ter que “pensar sobre o que tinha feito”.

É curioso como desde tão cedo a criança é capaz de imitar e manipular a lógica do castigo de nossos tempos modernos. Para isso, seus pequenos neurônios devem ter recorrido ao entendimento das histórias que escuta (na versão menos cruel da nossa época), e como elas tratam a transgressão e suas consequências: desde a desobediência de Chapeuzinho Vermelho que acaba ilesa em companhia da vovó tirada viva da barriga do lobo; ou dos Três Porquinhos que escapam na casa de tijolos do Porquinho mais sábio; ou da maioria das histórias da educação contemporânea com seus finais felizes.

Quer dizer: há a transgressão, há a tensão e o “medo” da consequência, mas no último minuto todos somos “salvos”. Resta-nos “pensar sobre o que fizemos”, isto é, compreender nosso ato. Quando compreendemos e não o repetimos, maravilha. E se não o “compreendemos”? A sociedade contemporânea pretende se basear nessa nossa racionalidade, nossa capacidade de compreensão. Não à toa estamos sempre à beira do abismo.

Mas ainda bem que estamos. Tanto porque há certa beleza nisso quanto porque o contrário é que seria deveras assustador.

Uma comunidade que preferisse não pensar e agir pela força e medo do castigo seria, sem dúvida, um lugar insuportavelmente terrível onde viver.

(Crônica pulicada no jornal “O Popular” em 14.10.2012)

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Uma resposta para Pensando junto com Ana

  1. laura disse:

    Genial, Zezé!~

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