“Isabel do Brasil” – a encenação do TESC

Com direção de Márcio Souza e Carla Menezes representando a Princesa Isabel.
Iluminação: Dimas Mendonça
Coordenação de palco: Robson Ney Costa
Cenário e figurinos: Óscar Ramos
Produção: Robison Medina

Claro que não posso dizer que sou exatamente isenta, mas sei que não erro ao afirmar que foi uma beleza a encenação do monólogo que escrevi.

O cenário e o figurino (criação do artista plástico e cenógrafo Óscar Ramos) estavam um luxo só. A iluminação, a produção e coordenação de palco: nos trinques. A atriz, maravilhosa. A direção do Márcio, surpreendente.

Digo surpreendente porque, como sabemos, o texto de teatro existe para ser encenado. Ou seja: só se realiza, de fato, como uma criação coletiva onde ele não é mais que o suporte para a criação do diretor, da atriz, do cenógrafo e figurinista, do iluminador, e de todo o pessoal da produção. Daí porque a cada encenação ele pode virar um espetáculo completamente diferente e ser uma surpresa inclusive para quem escreveu o texto.

Como acho que já disse pra vocês – e, se não disse, está no texto da peça na página Teatro ao lado – a concepção do monólogo supõe uma atriz negra. Quando o Márcio me encomendou o monólogo já havia pensado em Carla Menezes – integrante do grupo há vários anos, e de ascendência negra – para ser a atriz.

Esse foi o desafio que me fez criar “duas personagens em uma”. O que inclusive possibilitou, através dos comentários da personagem “atriz” sobre a personagem “princesa”, dar um tom mais crítico, divertido e contemporâneo ao monólogo. Assim, pude terminar o texto colocando a Princesa Isabel, transformada em baiana, sambando na avenida.

A encenação do Márcio enfatiza esse fio de negritude. E o fez desde o cenário que, como painel de fundo, estiliza desenhos de Rubem Valentim (que, para quem não sabe, é negro), passando pela trilha musical (só de compositores de origem negra), até a cena final em que Isabel, em vez de sambar na avenida, senta-se no trono (uma lindíssima cadeira vitoriana feita especialmente para representar Dom Pedro II) como uma Imperatriz negra, com roupa e turbante de baiana e gestos de mãe de santo, enquanto a Velha Guarda da Mangueira toca “Negro Samba” no fundo.

Emocionante mesmo.

E, para completar, no dia seguinte assistimos também à estreia da peça ”Rodrigueanas Amazônicas”, com texto do próprio Márcio e sua direção.

Também com cenário e figurinos de Óscar Ramos, iluminação de Sidney Fernandes, coordenação de palco de Robson Ney Costa, e produção de Robson Medina. E com os cada vez melhores Daniely Peinado, Emerson Nascimento e Dimas Mendonça.

Em homenagem ao centenário de Nelson Rodrigues, são seis peças curtas bem ao estilo do homenageado. E foi como se o subúrbio carioca tivesse se mudado para Manaus. As mesmas relações humanas patéticas e cômicas que, aliás, sempre existiu em qualquer lugar do planeta.

A temporada, que inclui as duas peças, vai até dezembro, apresentando “Isabel do Brasil” às sextas, e “Rodrigueanas Amazônicas”, aos sábados, no Teatro Experimental do TESC.

Se você mora em Manaus, ou calhar de passar por lá, não perca.

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2 respostas para “Isabel do Brasil” – a encenação do TESC

  1. Izilda Bichara disse:

    Parabéns, Maria José! Tenho certeza de que a alta qualidade de seu texto propiciou essa brilhante encenação. Gostaria muito de assistir ao monólogo. Vai haver uma temporada também em São Paulo? Beijo

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