Fosse lá o que fosse

As duas caminham sossegadas chupando sorvete. Vão de shorts, alegrinhas, conversando.

– A única coisa que o Vinícius não queria, ela-

As pernas da que falava são brancas e grossas; as da que escuta, morenas finas de manequim, e ela vai passando a língua pelo sorvete que, no calor da tarde de sábado, ameaça escorrer pela casquinha. Então, ergue os olhos, sorrindo de curtição e malícia:

– Deu?

As duas se entreolham e quáquaquá! quáquáquá! quaquáquá!

Os sorvetes não caem com as risadas porque estão bem acomodados na casquinha, ou porque ambas as mãos são peritas em segurar firme.

– A única coisa que ele não queria-

Quáquaquá! quáquáquá!

O sorvete de uma era de chocolate, o da outra de morango. Sem parar de rir, a branquinha lambeu o creme gelado escorrendo por sua mão. A morena pediu:

– Pare que não aguento mais!

Já não é possível parar, no entanto. E elas continuam, aos engasgos, uma completando a outra:

– A única-

– Coisa-

Quáquáquá! Quáquáquá!

– Que o Vinícius-

– Não queria!

Batem os pés no chão, sacolejam o corpo todo. Os pés brancos de uma estão dentro de uma sandália vermelha fechada no calcanhar, de salto grosso, moderninha. Os pés morenos da outra, unhas pintadas de azul, em uma sandália preta também de salto, só que mais aberta. As unhas dos pés brancos não estão pintadas – certamente por descuido passageiro porque sua dona é a que se veste com mais estilo. Seu short jeans e a blusa de malha branca não custaram nada barato, dá pra ver. O short de brim cáqui e a blusa rosada da outra provavelmente também não, mas seus acessórios não combinam com tanto charme quanto os da outra. Usam colares, as duas. Só a de cabelo curto está de brincos.

– A única co-co-coisa –

– Que Vi-vi-ni-

Quáquáquáquaquá!

As pernas se sacodem com os pés batendo. Uma das mãos brancas pega no braço moreno da outra enquanto uma das mãos morenas pressiona a própria barriga.

E os sorvetes lá, firmes. Verdadeiros equilibristas esses dois sorvetes, há que se reconhecer.

– Não que-queria-

Quáquáquá!

O cabelo escuro da morena, preso num rabo, não consegue se decidir pra que lado vai com tanta agitação. O cabelo também escuro da outra se comporta melhor por ser curto e se agarrar ao crânio da dona, enquanto ela se sacode pra frente e pra trás. As duas bolinhas pretas presas com graça nos lóbulos das orelhas descobertas tampouco se mexem.

E então eles caem. Os dois sorvetes.

Passando pela blusa mais próxima e deixando um rastro marrom rosado antes de se esborracharem no chão onde logo formam uma única poça de duas cores na calçada. Um caiu com a casquinha perfeitamente equilibrada por cima. A casquinha do outro caiu de lado.

Sem fôlego, as duas ainda dizem, murchando:

– Aa-

– Úu-

Uma olha desapontada para os sorvetes no chão. A outra olha para a mancha cremosa na blusa branca que já se grudou em seu peito. Vai ter que voltar pra casa.

E fosse lá o que fosse que não queria, o fato é que Vinícius acabou com o passeio das duas.

(Publicado no Jornal O Popular – Da série Entreouvido na rua.)

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2 respostas para Fosse lá o que fosse

  1. Herta Pidner disse:

    AH Zezé, fiquei com água na boca ! Nós não vamos ter oportunidade de assistir Isabel? beijos Herta

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