Lembranças resumidas de uma formação musical igual e dessemelhante a tantas outras 2

(Continuação do post anterior)

Abandonando o piano, voltei para o violão outra vez. Época do “Tibum, tibum! Lálálálá raá lá lá, lá tibum, tibum!” Sem faltar das sertanejas, quase sempre mais fáceis, como as músicas do rio Araguaia, e das noites goianas. Voltei várias vezes ao violão – até hoje tenho um, ainda que sem cordas – mas nunca fui em frente. A vontade não foi maior que a falta de talento pra coisa.

Então passei um ano de internato, onde o que ouvíamos era aquela cantoria religiosa enjoativa. Mas me lembro de uma música que nos emocionava a todas, e que depois descobri: eram versos religiosos inventados pelas freiras que cantávamos com a melodia do Coro dos Hebreus, de Verdi.

Já mais crescida, começam as festinhas com Ray Coniff, boleros e um LP do qual pouca gente se lembra, “Moendo Café”. Logo rock&roll, Elvis Presley, Paul Anka desbancaram esse som mais comportado. Twist, hully-gully, e a grande favorita de nove entre dez mocinhas da época: Blue Moon/ you saw me standing around/ without a girl on my arm/ without a love of my own.” Ou, “Fascination”, que tocava muito na rádio, e eu gostava de escutar esparramada no banco de trás do Simca em dois tons de verde da minha mãe na garagem. (Músicas podem ser escutadas em estranhos lugares.)

Era o tempo das canções românticas: Dolores Duran, Maísa, Miltinho (desse eu não gostava; implicava com sua pronúncia pernóstica. Nem sei por que me lembrei dele agora). Minhas amigas tinham grossos cadernos espirais caprichosamente encapados, onde copiavam as letras das músicas favoritas. Eu achava o máximo esses cadernos mas, por algum motivo hoje indecifrável, nunca tive nenhum.

Mais ou menos por essa época, passei a escutar na casa de admiradas primas mais velhas – Mira, Marizete e Loli – um disquinho 43 rotações totalmente diferente de tudo que eu já havia escutado. Meio cantado, meio recitado, falava que o Brasil era “um gigante adormecido/ um país subdesenvolvido/subdesenvolvido/ essa é que a vida NACIONAL!”

Também por essa época (ou antes ou depois) veio Celly Campello com “Estúpido Cupido” e “Banho de Lua”. Vieram os italianos Nico Fidenco, Rita Pavone, Sergio Endrigo, Pepino di Capri, Domenico Modugno.

Passei um tempo em Nova York, estudando numa high-school, e descobri o folk americano de Bob Dylan, Peter Seeger e Peter Paul & Mary, os spirituals de Mahalia Jackson e, por incrível que pareça, um disquinho com a capa verde e amarelo da bandeira do Brasil: era um disco de João Gilberto, do meu primo Arrhenius Fábio, na casa de quem eu estava morando. Começavam também os primeiros acordes do ye-ye-ye. Tudo isso e mais “I left my heart/ in San Francisco”, na voz articulada de Andy Williams.

Voltando ao Brasil, com minha prima Gracy que tocava violão bem melhor do que eu (meu feliz mundo da época era mesmo cheio de primas e primos), cantávamos “Tous les Garçons et les filles”, de Francoise Hardy e “Je ne regrette rien”, de Edith Piaf, sem abandonar o Nat King Cole de “Those happy days/ that we once knew/ so long ago/ still make me blue/ still maaake me bluuuuue”, a duas vozes. (Tínhamos mania de duas vozes.)

Quando minha família se mudou para Brasília, tive um momento para curtir o trompete de Louis Armstrong e sua banda, o jazz de New Orleans (não, não descobri Armstrong em New York mas em Brasília).

Foi um tempinho curto pois, já estávamos em pleno anos 60, quando nossa privilegiada geração foi então colhida pela avalanche – quase tudo ao mesmo tempo agora – dos Beatles/ o ie-ie-ié/ a MPB, a Tropicália e a trilha sonora do resto da nossa vida.

Fim

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