Lembranças resumidas de uma formação musical igual e dessemelhante a tantas outras (1)

Acho que é possível dizer que – com exceção de quem manifesta dons musicais desde cedo ou tem pais músicos ou especialmente ligados à música -, crescemos todos mergulhados no fundo sonoro da música popular da nossa região e país.

A começar pelas clássicas canções de ninar que já haviam ninado e seguem ninando outras gerações: “Boi da cara preta”, “Nana nenê”, “Tutu Marambá”, “Sapo Jururu”, “Boa noite, meu bem, dorme um sonho tranquilo/ boa noite, meu amor, meu filhinho encantador”, e tantas outras. Canções que cantei também para meus filhos e hoje canto para as netas.

Uma diferença é que minha mãe tocava “Quem sabe”, de Carlos Gomes, talvez o som mais longínquo que escuto em minha memória musical de seu piano, junto com valsas e chorinhos de Chiquinha Gonzaga. Outra lembrança é a do carro cheio de crianças no banco de trás, em alguma viagem, ouvindo-a cantar “Na Serra da Mantiqueira, junto à fronde da mangueira, que ela em moça viu plantar”, uma linda canção que jamais ouvi gravada e nunca mais escutei.

Clássicas também eram as cantigas de roda – “Fui no Tororó”, “Samba Lelê”, “Terezinha de Jesus”, “Dizei-me Senhora Viúva”, “Ciranda”, “Escravos de Jó” e muitas mais que, presumo, todos nós sabemos. Basta alguém começar a cantar, e elas voltam inteiras à nossa cabeça.

Na infância (estou falando da década de 50), o som coletivo era formado também pelas músicas da igreja e das procissões de velas acesas. Além das bandinhas da praça, dos violeiros e forrós da época das férias e de eleições (família de político tem emoções intensas, inclusive musicais, como os jingles das campanhas. Lembro perfeitamente deles).

Na época do primário, havia as chatíssima (eu achava) aulas onde tentavam nos ensinar a solfejar, a cantar o Hino Nacional e o monótono coro infantil de “Viva o sol do céu de nossa terra/ vem surgindo por trás da linda serra.” (O som realmente lindo era o da campainha tocando para o recreio.)

Não que eu não gostasse de cantar. Pelo contrário.

Com minhas primas Diva e Délia, cantávamos com grande inspiração em todos os lugares, até na banheira da casa da minha avó, um repertório formado de musica sertaneja, guaranias e boleros. Incluía – se possível, cantado a duas vozes – o sucesso gravado pelo nosso primo Amintas (“Veneno/Veneno/ é o nome de você! Por que ora porque pequeno/ é todo o frasco de veneno./ E o batom que você traz na boca/ é uma coisa louca (repetir 3x) / E o beijo teu que de veneno cheio/ tem estricnina (idem).” Incluía também as eternas “Índia” e “Chalana”, junto com nossas primeiras incursões pelo portunhol: “Caminito Verde”, Noches de Ipacaray”, “Una vez um ruisseñol/que cantava à luz da aurora/ ficou preso de una flor/ longe de su ruisseñora”.

Nas férias, eu tinha minhas primeiras aulas no alquebrado violão de Bastião, velho empregado de minha tia Mariinha. Bastião, um senhor personagem, entrou no primeiro romance que escrevi, e talvez ainda entre em outros.

No rádio, escutávamos as canções da música popular brasileira: Angela Maria, Elizeth, Cauby. E por esse tempo – ou antes ou depois, a cronologia exata é impossível – entram o “Que será, será”, de Doris Day, e o sotaque de Nat King Cole. Os toca-discos quase rachavam esses discos, e também os de Ivon Curi cuja voz tonitruante me parecia incomparável.

Como toda mocinha bem educada, comecei a ter aulas de piano, mas sei lá por que minhas professoras (chatíssimas) deviam ter ojeriza de músicas pois só me faziam tocar exercícios (sofri horrores com o chatíssimo Czerny). Só bem mais tarde, aprendi a memorável “Le Lac du Côme” que sei tocar até hoje (a primeira parte, pelo menos).

Nas aulas de ballet, duas professoras autenticamente russas nos faziam dançar o que, suponho, deviam ser clássicos russos (impossível saber). Lembro também de dançar nas pontas dos pés “Tico-tico no Fubá“, de Zequinha de Abreu. (Acho que já não era no tempo das russas autênticas, e a coreografia, com certeza, não devia ser toda nas pontas dos pés mas foi essa parte que minha memória selecionou. E da minha apresentação na Dança da Cobra – o grande sucesso dos meus 8/9 anos – não há nada que me faça recordar que música acompanhava a minha flexibilidade dentro de uma malha preta listrada de amarelo.)

Não era comum escutar música erudita. Meu pai tinha seus discos, mas não me lembro de escutá-los. Na casa cheia de crianças, devia ser difícil ter o sossego necessário; ou tínhamos coisas mais interessantes pra fazer.

E nós, meninas, sempre cantamos muito. Eu, que não tinha o menor dom musical, brincava até de inventar música com uma vizinha. A que inventasse a música mais bonita ganhava. Pelo que me lembro, a vizinha ganhava sempre. Era a caçula de uma casa cheia de irmãs moças e tinha um repertório tão formidável que um dia ela cantou, como se inventasse ali na hora, “Encosta sua cabecinha no meu ombro e chora/ e conta logo sua mágoa toda para mim.” Acho que depois dessa a brincadeira teve seus dias contados. Não por eu ter descoberto que andava sendo enganada, mas porque desisti frente ao tamanho desnível da competição.

(continua na quinta)

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