O que vi em Paraty

– Quem me conhece há de estranhar ao me ver aqui elogiando a Flip, mas às vezes – nem sempre (não vou mentir) – acho bacana quando a realidade à nossa frente desmonta sem subterfúgios nossas certezas anteriores. Foi o que me aconteceu.

– Eu nunca tinha ido à Festa Literária de Paraty por certo conceito a respeito, criado pela maneira como a FLIP foi, em seus primeiros anos, vinculada à Companhia das Letras e seus interesses, conceito que, se acertado no início, foi nesses dez anos se tornando um preconceito à medida que a feira foi mudando e eu não via.

– A FLIP, portanto, me surpreendeu bastante. Hoje ela não se resume ao evento: há todo um trabalho de formação de leitores nas escolas dos municípios o ano inteiro. Os dias da festa passaram a ser o remate do que vai se sedimentando a cada ano pela região. Os autores convidados atualmente são publicados por várias editoras, o que dá o caráter diverso que um evento assim deve ter. Ainda falta, talvez, um espaço maior para nossa literatura. Mas como a FLIP “transborda dela mesma”, como se diz, eventos paralelos abrem espaços para mais escritores brasileiros. A maioria dos quais, ouso dizer, é de autores jovens.

– Voltei de lá com a impressão de que estamos vendo atualmente um “boom de autores jovens”. Se antes não havia espaço para eles, agora eu os vejo por toda parte. Vi isso acontecer, primeiro, no site literário Cronópios, que começou a lhes dar grande acolhida. Vi e estou vendo surgirem um monte de prêmios e bolsas só para estreantes. E uma das mesas na própria FLIP foi inteiramente deles, entre os quais estava André de Leones, um jovem escritor goiano. Mesa que, aliás, foi excelente e o meu conterrâneo falou muito bem do que tem escrito sobre a morte, nossa humana finitude – o tema proposto para a discussão.

– Foi também na FLIP que aconteceu, com um marketing de suspense, o lançamento da Revista Granta dedicada ao Brasil, trazendo contos de 20 autores com menos de 40 anos de idade, com o título de “Os Melhores Jovens Escritores Brasileiros”. Por que a tolice de chamá-los de “os melhores” se são apenas uma seleção de um júri específico que, por mais qualificado que fosse (e esse o era), certamente não tinha pretensão de tal monta e objetividade? Mas deixa pra lá. É da natureza do marketing envernizar seus produtos.

– Da programação oficial vi duas mesas excelentes: a dos jovens escritores brasileiros, como já disse, André de Leones, Altair Martins e Carlos de Brito e Mello (sobre a morte) e a de Javier Cercas e Juan Gabriel Vasquez (sobre ficção e história). Não vou falar das mesas de que não gostei, pois as houve, claro, nem tudo pode ser bom para todos, e gostaria de ter visto muitas mais, só que tive de voltar, e não deu.

– Vi também outras duas mesas excelentes da programação paralela do Itaú Cultural, sobre a notável pesquisa que vem sendo feita por eles de mapeamento da literatura brasileira no exterior.

– Outro ponto interessante a reconhecer sobre a Flip é que seu sucesso contribuiu para tirar o estigma de que trabalhar com literatura não vale a pena. Seu exemplo frutificou e hoje há feiras literárias espalhadas pelo país inteiro. Inclusive em novembro próximo acontecerá, vejam só, a FLUPP, a primeira feira literária nas UPPs das favelas do Rio.

– E para completar a festa deste ano, havia sol e lua cheia em Paraty. A beleza extraordinária que cerca a cidade – com sua confluência de azul com azul, mar e céu, verde com verde, mata atlântica e pedaços da Serra do Mar, rios e cachoeiras de águas quiçá ainda límpidas – compõe a natureza copiosa que envolve seu centro antigo de casas brancas e ruas de pedras. Um lugar nada menos que perfeito onde se comemorar o reino da beleza e da verdade das palavras.

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4 respostas para O que vi em Paraty

  1. Maria Luiza disse:

    Gostei demais do que você descreveu. Não me importava de estar lá também.

  2. edith m elek disse:

    Só fui uma vez, àquela organizada pelo Cassiano.Amei. A beleza está nos temas abordados, no cenário,nos momentos em que você conhece e ouve a fala de autores que já te deram tanto prazer,nas descobertas de novos autores e livros, nos encontros e trocas com amigos.Tem algumas chateações e guerrinhas de vaidades? Tem.E onde não tem?

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