Até tu?

Gosto de ver estatísticas. Algumas trazem resultados que sacodem o senso comum no qual estamos afundados.

Vejam este: o Brasil é o terceiro país com maior proporção de doutoras.

Não é surpreendente? Na proporção de doutores em relação ao total da população, ainda estamos atrás de alguns países, mas na tendência de ter mais mulheres que homens conquistando o título, estamos na vanguarda.

Doutoras eram pouquíssimas na minha infância, e eram médicas. A primeira que conheci foi Dra. Idalina, amiga da minha mãe. Trabalhava com o marido, Dr. Campos, também médico, no sanatório de tuberculosos de Goiânia. A segunda, Dra. Feiga Grunspun, psiquiatra de São Paulo, também casada com médico, Dr. Haim, amigo do meu pai. Duas mulheres fascinantes que provocavam reboliço com a mera presença, e com a elegância com que erguiam seus cigarros.

Acompanhando os cursos de doutorado sendo abertos, aos poucos foram aparecendo doutoras em várias outras áreas, abrindo caminho e conseguindo conciliar carreira, emprego e vida pessoal.

Acho de grande impacto ver que em tão pouco tempo elas são maioria.
Luc Ferry, filósofo francês, chamou atenção outro dia para o fato de que foi preciso a Segunda Guerra Mundial para as mulheres conquistarem o direito a voto, e que só em 1991 – 1991! – isso aconteceu no último cantão da Suíça. Exatamente, Suíça! E ele completou o raciocínio nos lembrando que o mundo ocidental – como estamos não apenas vendo mas vivendo – mudou mais nos últimos 50 anos do século 20 que nos 500 anos anteriores!

Mulheres com doutorado é uma dessas mudanças. E sua rapidez talvez explique a sobrevivência de alguns trogloditas que ainda teimam em dar as caras, como aquele sujeito que semanas atrás se recusou a voar em um avião cujo comandante era mulher.

Fico daqui imaginando o pior pesadelo de um cara desses.

Começar o dia na casa administrada por uma mulher, ler no jornal uma colunista comentando as decisões da Presidenta, deixar a filha na escola nas mãos de uma professora, parar no trânsito ao sinal de uma policial, entrar no elevador manobrado por uma ascensorista, participar de uma reunião onde a chefa é doutora em agronomia, sair para almoçar no restaurante de uma “chéfe” em gastronomia, passar para ver a construção de sua nova casa a cargo de doutoras em engenharia e arquitetura, depois, de volta à firma, ouvir o parecer de uma doutora em advocacia e, ao se sentir mal, ser levado ao pronto-socorro por uma colega mulher, sendo atendido – sem poder dizer ui!– por uma médica e cercado na maca por enfermeiras, onde então seu coração masculino, não resistindo a tantos eflúvios profissionais femininos, sofre uma pane e para de bater. Ele é, então, arrumado no caixão pela mesma mulher que dirige o carro da funerária até o cemitério onde, ao intuir que a primeira pá de terra será também jogada por uma mulher – a sua –, não suporta mais, se levanta e diz, “Até tu, Bruna!”… e morre outra vez.

(Crônica publicada pela primeria vez no jornal “O Popular”, de Goiânia.)

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