Coisas que eu não queria ser

 

Se tem uma coisa que eu não queria ser era galinha. Viver no harém do galinheiro entre outras similares, todas igualmente irrequietas, alvoroçadas, histéricas. Passar a curta vida ciscando e botando ovo para terminar numa panela. Dispenso, obrigada.

Outra coisa que eu não gostaria de ser: barata. Asquerosa, assustada, a raça que, dizem, sobreviverá a uma catástrofe planetária. Mal consigo olhá-las. Pior do que elas, só ratos. Tenho uma vontade ancestral, primitiva, de gritar se vejo um rato. Freud certamente explica.

Também odiaria ser transporte público, abarrotado e espremido por todos os lados nas horas de pico. Dirigido por um motorista estressado pelo caos do trânsito, e pior: mal pago. Ser propriedade de uma empresa cujo interesse prioritário é exaurir meu motor até o bagaço.

E uma estrada esburacada, então! Eu odiaria. Ou uma pobre árvore centenária dividida em dois troncos mortos por uma motosserra sinistra. Como eu odiaria ser uma motosserra! Acho que me suicidaria.

Odiaria também ser secretária de corrupto. A bandinha fraca da coisa toda. Sem saber direito realmente o que sabe ou que não sabe. Sem saber direito se deve dizer o que sabe ou afirmar que não sabe. Sem saber direito se tem consciência ou se a deixou trancada debaixo dos papeis da última gaveta.

Outra coisa que eu odiaria ser é uma cozinha gourmet. Correria o risco de ser presenteada por alguém a outro alguém e ter de ouvir coisas que macularia minha limpeza pristina de cozinha de qualidade. E sem conseguir imaginar a que bocas serviriam os manjares saídos de minhas panelas quentes.

Também odiaria ser paladina da moral. Os Paladinos da Moral (a maiúscula no caso é parte do epíteto), além de chatos de galocha, em geral entendem pouquíssimo de moral. A última moral que eles viram foi posta pra correr faz tempo. Muito antes de começarem a vociferar por ela enquanto sujavam a roupa de baixo e erguiam duro o dedo indicador, “batendo forte” nos outros para que ninguém pensasse em “bater neles”.

O que esses paladinos de fato fazem com seu canto rouco de sereias velhas é cultivar os escândalos que a mídia adora, desviando a atenção das questões principais. Tal como acontece agora quando, falando de cascatas, cataratas e cachoeiras, questões como o Código Florestal, como a Reforma Política (que todos sabem que, enquanto não for feita, a corrupção continuará parte do jogo político), vão caminhando devagar pro brejo. Essas e tantas outras questões cruciais para o país, que deviam estar sendo debatidas por nossos parlamentares e por nós, vão sendo atropeladas por esses falsos paladinos tanto quando começam a erguem suas casas, quanto quando elas caem, e outros paladinos de tocaia começam a construir as suas.

Eu odiaria ser qualquer um deles.

(Crônica publicada em “O Popular”)

Anúncios
Esse post foi publicado em Crônicas. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s