Tirando conclusões

 

De uma experiência, é bom que se tire conclusões. Do meu “reality literário”, tiro algumas.

– Antes de mais nada, o que me fez pensar em escrever um “conto aberto” neste blog foi ter constatado que o item mais acessado aqui tem sido os contos. Tanto por quem realmente gosta do gênero, quanto por estudantes enviados por seus professores, suponho, para ler tal ou qual conto para algum tipo de trabalho.

Nada de surpreendente nisso já que, pelo tamanho, o conto ou a crônica são os gêneros literários que mais se prestam à leitura rápida em um blog. (A poesia também, talvez, mas este não é blog de poeta.)

Daí porque pensei em dar mais substância a esses interessados, mostrando-lhes os bastidores da coisa.

Só que, como se sabe, o fazer literário supõe um trabalho de repetição: é preciso voltar inúmeras vezes ao texto. O que, evidentemente, só interessa a um determinado tipo de leitor que tem curiosidade pelo avesso do processo da escrita, mas não ao leitor em geral cujo interesse é tão só – e isso basta – no trabalho pronto. Assim, a primeira conclusão que salta aos olhos vendo os posts em que tive que repetir o texto do conto in process – ainda que sempre com algumas modificações – é que, para o leitor “comum”, digamos assim, isso não deve ter funcionado lá muito bem. Ninguém reclamou, mas é o me parece mais ou menos óbvio.

– E ninguém reclamou, imagino, porque há também uma falácia em relação à interação proporcionada por um blog. Quem mantém um blog sabe que essa interação é mínima. As pessoas que navegam pela internet, entram e saem rapidinho de blogs, sites, Facebook, artigos, sem tempo nem disposição de deixar comentários. É sempre uma minúscula minoria que deixa um sinal de vida. Quando comecei este blog, estranhei, mas logo compreendi que esse é o comportamento normal, meu inclusive. Raríssimas vezes deixo um “Oi de casa!” E se mais comentários foram deixados nos posts do meu “reality literário” foi só porque o número de acessos aumentou bastante. Em termos relativos, não houve diferença.

– O que me leva a confirmar uma vez mais que, em se tratando de literatura, a interação entre autor-obra-leitor se dá em outro nível. A obra literária, como qualquer outra, é uma obra aberta mas por motivos que independem da interação insinuada pelo teclado acoplado ao computador. Motivos esses que formam a parte imponderável e essencial dessa relação tão peculiar.

O leitor é tão solitário quanto o autor. A relação entre eles é mais como um fascinante “diálogo de mudos” acontecendo através de signos que provocam, de um lado e de outro, reflexões solitárias. A comunicação se dá e se esgota no texto. O leitor não precisa – nem quer – saber mais. Quem gosta de sublinhar as frases de um livro, ou escrever comentários à margem da página que está lendo, sabe que faz isso para si mesmo e, não para mostrar depois ao autor.

– A circunstância de vivermos um momento em que a necessidade, não da literatura, mas do marketing da literatura tenta o impossível para colocar o autor cara a cara com seu leitor, nos leva a uma certa confusão, mas se você pensar bem, quantas vezes, realmente-realmente-no fundo-no fundo você sentiu a vontade de conhecer ou “falar” com o autor de um livro que amou, que mudou sua vida, que lhe trouxe uma nova compreensão do mundo? É bem possível que nenhuma. Eu me lembro apenas de uma vez quando, adolescente, tive essa vontade e escrevi para Manuel Bandeira. Never more.

Como diz Margaret Atwood, “Querer conhecer o autor porque gostou de seu livro, é como querer conhecer o ganso depois de comer o patê.”

– Por esse motivo também – e continuando com a metáfora gastronômica, – conhecer o processo da escrita de um texto literário é dissecar os ossos depois de comer o frango. A grande maioria dos leitores não quer isso. Não precisa disso. A magia da literatura não tem nada a ver com isso. Que só interessa a quem tem a literatura como objeto de estudo ou trabalho. Não a quem deseja apenas ver, sentir, e se emocionar com o texto literário.

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2 respostas para Tirando conclusões

  1. Izilda Bichara disse:

    Suas observações são perfeitas, Maria José. No meu caso, acompanhar o processo de criação de seu conto foi muito interessante. Não pude, porém, interagir a cada postagem, como eu gostaria, por outros motivos. Mas, no geral, concordo com suas conclusões. Aos leitores interessa mesmo o patê, não o ganso…rs
    Beijos e parabéns pelo conto, que ficou muito bom!
    Izilda

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