A experiência de escrever um conto IX

(Acho que estamos perto do final.

Vou fazer uns acréscimos e uns cortes aqui e ali, e dar mais vida ao garçom. Ele tem um papel importante na historia, precisa de um pouquinho mais de espaço.

Vou também mudar seu nome. Dorival é muito comum. Me veio Wendell à cabeça. É o nome de um estagiário da minha academia de ginástica; nome que agora vai passar para o garçom.

E vou trabalhar mais o final. Não está bom.

Ah, pensei também em mudar o título. Gostei de “Olhos Sujos” mas vou deixar para outro conto. Neste quero enfatizar outra ideia.

Vamos lá: )

 

 

Miscelânea de lados humanos

O consultório da minha analista fica em um prédio em Pinheiros.

Ao sair, quase sempre passo pela padaria da esquina. Tomo um café expresso no balcão e compro pães para levar. É uma boa hora essa, quando sai uma das fornadas da tarde, e os fregueses do bairro aparecem.

A padaria é ótima, como em geral são as padarias em São Paulo. Pãozinho honesto, ciabatta crocante, pão italiano bem feito, pão de queijo quentinho, sonhos prontos para a boca de quem gosta. É prático para mim ir até lá porque tenho um cartão de entrada na garagem do prédio da analista. Não pago, independente do tempo que passo ali. Não abuso, mas suponho que eles não tenham um controle rígido: prédio grande, dezenas de consultórios, clientes que entram e saem.

Wendell, o garçom que me atende, simpático na medida certa, comenta uma coisa ou outra enquanto lava as xícaras e tira um expresso da máquina, também na medida certa.

O senão, às vezes, é um senhor que aparece e se senta a minha frente no balcão. Enquanto ele ficava ensimesmado no seu canto, tudo bem, eu mal o via e mal percebia a figura inclinada sobre um copo de cerveja, garrafa ao lado. Recentemente, no entanto, ele deu de aparecer no caixa ao meu lado quando vou pagar.

Da primeira vez, me sobressaltei: “Quer que eu pague sua conta?”, a voz roufenha soou atrás. Imagine! Um café expresso e uns míseros pãezinhos, eu sequer havia comprado uma ciabatta! Respondi, “Não. Obrigada”, e segui meu rumo.

Na semana seguinte, comprei também um pão italiano redondo, além dos pãezinhos. Quando fui pagar, a mesma oferta atrás de mim, “Quer que eu pague?” E a mesma resposta, “Não, obrigada.” Mas dessa vez, pela posição em que estávamos, foi impossível deixar de olhar para o cara, ver a gestalt toda: um velho talvez passando dos 70, camisa de algodão de manga curta azul, calça bege sem forma. Cabelos ralos, mãos de veias saltadas e manchas senis, olhos de um amarelo sujo. Eram os olhos que entregavam o sujeito que devia ser viúvo ou separado. Olhos de cão vira-lata, pedinte, esses eram os olhos do cara. Olhos que pareciam babar. Queriam mulher, queriam mulher, queriam mulher.

Saí.

Conscientemente ou não, passei um tempinho sem voltar. Quando voltei, Wendell, o garçom, parecia muito a fim de me contar uma novidade, e mal esperou eu me sentar: Sabe aquele velho que ficava sentado ali? – apontou. Aquele que vivia querendo pagar sua conta?

Sim, sei.

Outro dia veio um grupo de rapazes e moças da universidade e escreveram na calçada da casa dele “Aqui mora um torturador”. A casa é logo ali na frente, a que tem um muro alto e um portão de metal na garagem. Eles ficaram lá na porta, com um sistema de som, fazendo discurso, esperando o cara sair. Passaram aqui depois.

Ele saiu?

Que nada. Ficou tudo fechado, como se não tivesse ninguém, mas tinha. A mulher dele não sai de casa. O pessoal ficou um tempão na porta. Depois deixaram uns folhetos explicando quem era o cara.

Vendo meu espanto, continuou.

Ele torturava os presos no tempo da ditadura, eles disseram. Ainda bem que eu nem tinha nascido nessa época. Parece que foi muito barra pesada.

Muito, balancei a cabeça.

O velho ficou dias sem aparecer – Wendell continuou contando, animado com a novidade e meu interesse. Quando apareceu, ficou conversando com o patrão, que o pessoal era doido, era tudo mentira, ele nunca deu nem um tapa em ninguém e já tinha sido anistiado há muito tempo. O patrão ficou só escutando na dele, mas aconteceu que o Dr. Vicente, um advogado que também mora aqui perto e vem todo dia tomar café, perguntou pra ele, bem alto – o doutor tava aqui no café e o velho tava lá no caixa, mas eu tenho pra mim que ele falou alto porque queria que todo mundo escutasse: O senhor foi julgado ou processado?, ele perguntou. Se não foi, como é que foi anistiado? O velho fez de conta que não escutava, mas o doutor continuou, mais alto ainda. E quem sabe seu nome pra lhe dar anistia? Qual foi o crime que o senhor cometeu? Matou, torturou, estuprou, espancou, ou o quê? Ninguém é anistiado assim ao léu. É preciso saber do crime, primeiro, pra depois anistiar. Todo mundo olhando e o Dr. Vicente falando essas coisas todas, bem alto mas bem tranquilo, como quem quer só saber, mas o velho foi ficando branco e saiu como se fugindo, sem pagar nem nada. O patrão disse que se ele não voltar aqui vai lá cobrar, na casa dele.

Wendell parecia contente em poder contar essas coisas extraordinárias que havia testemunhado ali, enquanto encaixava com perfeição as xícaras lavadas na bandeja a seu lado. Sua mão direita tinha seis dedos e se quebrasse uma xícara ia ter que pagar, o patrão tinha lhe avisado quando lhe deu o emprego, dois anos antes. Wendell nunca quebrou nem um pires. Eu tinha vontade de lhe perguntar por que não se operava, mas temia ofendê-lo.

Depois que o velho saiu foi que o Dr. Vicente pareceu bravo mesmo, ele continuou. Disse que não sabia que um torturador morava aqui no bairro, e falou o que os torturadores faziam e tudo, todo mundo escutando. Falou dos lances todos e disse que é por conta desse pessoal não ser julgado nem punido que até hoje tem tortura no país. E isso tem sim, eu sei. No meu bairro mesmo, vira e mexe tem gente torturada pela polícia. A mãe é que fica sabendo de tudo, na banca de pastéis. As pessoas vão lá e contam. Gostam de contar pra ela porque ela gosta de escutar, não é como eu que gosto mais de contar. Mas pra contar tem que escutar antes, é ou não é? Ou ver o que aconteceu como vi dessa vez. O grupo de rapazes e moças encheu isso aqui, a padaria nunca ficou tão lotada.

Lembrei dos versos de um poeta: “Nós sobrevivemos ao pau-de-arara. Mas o pau-de-arara também sobreviveu.”

E ele apareceu outra vez? O torturador?, perguntei.

Wendell estava dizendo que não, não vira mais o velho, e uma senhora que também está sempre por ali comprando pão a essa hora se aproximou. Cabelos brancos, vestido cinturado, colar e brincos. Um rosto atencioso, marcado pelas rugas. Achei-a simpática.

Eu também vi o que aconteceu, ela me disse. Fiquei com muita pena dele. A esposa é doente, não sai de casa. Achei que os jovens exageraram. É preciso ver o lado humano das pessoas. Ele cuida da esposa e cria os dois netos que moram com eles. E se cometeu algum crime, Deus é quem vai castigar.

Olhei pra ela e tentei caprichar na educação, abaixando um pouco minha voz: A senhora tem filhos?, perguntei.

Três filhos e dois netos, respondeu, erguendo o rosto.

E se ele tivesse levado preso um filho da senhora, quando ainda era rapaz? Pendurado de cabeça pra baixo em um pau de arara e aplicado choques elétricos, como eles faziam, e depois assassinado e enfiado o corpo em uma vala abandonada e a senhora até hoje não soubesse que vala é essa?

Seu rosto, antes aberto, fez um perceptível movimento para dentro e se fechou: Isso não aconteceria nunca com nenhum dos meus filhos.

Como a senhora pode saber?

Eles sempre foram ajuizados, disse. Nunca foram de fazer nada errado.

Mordi minha língua.  Lembrei do que vinha discutindo com minha analista.

É que somos todos multifacetados, certo? Mostramos faces diferentes em situações diferentes, como se fôssemos habitados por uma miscelânea de eus.

Um desses eus que me habitam é o que não serve para discussões.  Me ponho veemente demais e antagonizo de imediato qualquer questão, mesmo as minúsculas. Por paradoxal que possa parecer, é por isso mesmo que odeio discussões.

Meu mundo ideal seria aquele no qual todos concordariam quanto ao ar fresco da manhã, a qualidade do pão, as causas da miséria, a crescente violência do mundo, o que fazer para tornar o mundo mais justo e como não podemos aceitar que um homem torture outro homem.

Meu mundo ideal seria um mundo de concordâncias.

Como não é assim, e como sei das minhas inabilidades, muitas vezes apenas dou minha opinião, ou sequer a dou, e deixo seja lá o que for que estiver sendo discutido seguir seu curso.

Outras vezes – quando a questão me toca de perto ou quando sei uma ou duas coisas sobre ela – de repente me vejo, sem perceber, elevando a voz – nesses momentos a primeira coisa que acontece é minha voz se elevar nem que seja apenas um meio-tom – e quando me dou conta já estou no meio de uma briga. Sem querer, sem querer, sem querer. Como poderia querer, por exemplo, brigar com essa senhora simpática?

Nesses tediosos anos que tenho passado me deitando no sofá da sala da minha analista freudiana, falando mil vezes sobre as mesmas coisas, remoendo os mesmos probleminhas sem importância, essa questão aparece de vez em quando sem jamais se resolver.

A teoria dela é que eu sou uma pessoa irada. Que não gosta de discutir porque tenta bloquear uma grande raiva que, caso exploda, levará consigo meu controle.

Parece uma teoria boa. Às vezes tento levá-la a sério e escarafunchar mais que trauma infantil estaria no início de tudo, mas não chego lá.

Até agora, o mais longe que cheguei foi contar à analista o que havia me acontecido por uma dessas circunstâncias meio inexplicáveis da vida em que, contra muitas das minhas convicções e me deixando vencer pela curiosidade – mais uma prova de como somos multifacetados –, me vi sentada na frente de uma sensitiva, dessas que só de olhar supostamente adivinham nossas coisas mais profundas. Depois de ter esperado uma interminável meia hora, não estava nem um pouco feliz quando entrei em sua sala. Ela me fez duas ou três perguntas, me olhou e, se pôs a falar. Falou bastante. Mas a única coisa que me ficou, de tudo que falou, foi que via no fundo de mim uma criança selvagem, dessas descabeladas e esfarrapadas que vivem em alguma gruta no mato.

Isso me impressionou.

Não sei o que minha analista pensou quando lhe contei esse diagnóstico que parecia corroborar o dela. Deitada ortodoxamente no divã, não vejo seu rosto nem suas expressões. Quando pergunto, às vezes, ela diz alguma coisa, mas nesse dia não perguntei nem ela disse. E em nada me ajudou.

Temendo, agora, que a descabelada surgisse ali na padaria, mordi a língua, respirei fundo e perguntei à senhora: Seus filhos são formados?

O rosto da mulher se animou outra vez, com alguma aragem interna.

Minha filha se formou no colégio, disse erguendo o queixo de leve. Está casada com um dentista,  é ela que tem meus netos e mora em Araraquara; tem uma lojinha de doces. Dos filhos homens, um é corretor e o outro é técnico de oftalmetria. Estão muito bem. O mais velho ainda mora comigo e com o pai, naquela casinha que fica entre os dois prédios que dá pra ver daqui, sabe qual é? Um ponto ótimo. Meu filho corretor está só esperando a hora certa pra vender nossa casa pra construção de um prédio.

Wendell, vendo que o assunto tinha se desviado completamente, foi atender outros clientes. Olhei para o fundo da minha xícara, meu cafezinho já estava mais do que terminado.

O esforço de morder minha língua tinha me exaurido. Estava passando minha hora de ir embora.

Pedi licença e fui pagar minha conta. No caixa, estava atendendo a filha do dono, que às vezes cobria os descansos do pai. Arrumadinha, cara de séria, mas dada a errar no troco, do que só fui me dar conta depois de um tempo. Nas primeiras idas ali, devo ter deixado uma interessante contribuição para suas gratificações. Passei a me dar ao trabalho de verificar as moedas, mas nesse dia, não verifiquei.

Saí mortificada com minha deserção.

Deixei a senhora gabar sua vidinha alienada e continuar lamentando a sorte do vizinho torturador. Gabar o trabalho conjunto da filha que vende doces e o marido que trata dos dentes; o corretor que espera a melhor chance de contribuir para descaracterizar o bairro; e o mais velho vendo os irmãos saírem e ele, por algum motivo, ficando.

Queria muito ter conseguido fazer o que Wendell disse que o advogado havia feito. Falar, toda calma, sobre o acontecera no país e a necessidade de esclarecer a verdade do que ainda está enterrado nos porões. E se essa verdade incluía o vizinho, a necessidade de julgá-lo pelo que fez. Tinha matado alguém cuja mãe, mulher ou filhos até hoje não sabem em que vala ele foi jogado? E seus colegas hoje? Continuam torturando e despejando cadáveres nas periferias?

Seria uma discussão inútil, eu sabia. Que os torturadores da ditadura continuem impunes, que diferença vai lhe fazer agora, se tudo já passou? E se a tortura ainda continua viva nos porões do país, quem é ela para saber? Ela é apenas uma alma caridosa que se esmera em ver o lado humano das pessoas. Mesmo sabendo o que essas pessoas fizeram com o lado humano de tantas outras, o que ela sentirá é pena também deles. É dó.

A simpática senhora da padaria é tão só uma esposa-mãe-avó que deseja o bem de todos.

Igual a tantos outros – e é isso o que é pior.

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