A experiência de escrever um conto VI

 
 (Pensei em outro título: “Olhos Sujos”. Vou dar o novo título, e desenvolver as ideias de ontem.)

Olhos sujos

O consultório da minha analista fica em um prédio em Pinheiros.

Na esquina tem uma padaria, onde quase sempre passo ao sair. Tomo um café expresso no balcão e compro pães para levar.

É uma excelente padaria, como em geral são as padarias em São Paulo. Pãozinho honesto, ciabatta crocante, pão italiano bem feito, pão de queijo quentinho, sonhos prontos para a boca de quem gosta. Para mim, é prático ir até lá porque tenho um cartão de entrada na garagem do prédio da analista. Não pago, independente do tempo que passe ali. Não abuso, mas suponho que eles não tenham um controle rígido: prédio grande, mil consultórios, clientes que entram e saem.

Dorival, o garçom que me atende, simpático na medida certa, comenta uma coisa ou outra enquanto lava as xícaras e tira um expresso da máquina, também na medida certa.

O senão, às vezes, é um senhor que aparece e se senta a minha frente no balcão. Enquanto ele ficava no seu canto, tudo bem, eu mal o via. Recentemente, no entanto, deu de aparecer no caixa ao meu lado quando vou pagar.

Da primeira vez, me sobressaltei: “Quer que eu pague sua conta?”, a voz soou atrás. Imagine! Um café expresso e uns míseros pãezinhos, eu sequer havia comprado uma ciabatta. Respondi, “Não. Obrigada”, e fechei a cara.

Na semana seguinte, comprei também um pão italiano redondo, além dos pãezinhos. Quando fui pagar, a mesma oferta atrás de mim, “Quer que eu pague?” E a mesma resposta, “Não, obrigada.” Mas dessa vez, olhei para o cara, para a gestalt toda: um velho já passado dos 70, camisa de algodão de manga curta azul, calça bege sem forma. Cabelos ralos, mãos de veias e manchas, olhos amarelos que pareciam sobretudo sujos, olhos que entregavam o sujeito que devia ser viúvo ou separado. Olhos de cão vira-lata, pedinte, esses eram os olhos do cara. Olhos que pareciam babar. Queriam mulher, queriam mulher, queriam mulher.

Saí.

Passei um tempinho sem voltar.

Quando voltei, Dorival parecia muito interessado em me dar a notícia, e mal esperou eu me sentar: Sabe aquele velho que ficava sentado ali? – apontou. Aquele que tava querendo pagar sua conta?

Sim, sei, eu disse.

Outro dia veio um grupo grande de rapazes e moças e escreveram na porta da casa dele “Aqui mora um torturador”. Eram jovens da universidade. A casa é aquela logo ali na frente, a que tem um muro alto e um portão de metal na garagem. Eles ficaram lá na porta, com um sistema de som, fazendo discurso, esperando o cara sair. Passaram aqui depois.

Ele saiu?

Que nada. Ficou tudo fechado, como se não tivesse ninguém, mas tinha. A mulher dele não sai de casa. O pessoal ficou um tempão na porta.

Vendo meu interesse e espanto, continuou.

Ele torturava os presos no tempo da ditadura, o pessoal disse. Ainda bem que eu nem tinha nascido nessa época. Parece que foi muito barra pesada.

Balancei a cabeça.

O velho ficou dias sem aparecer, Dorival continuou, animado com a novidade. Quando apareceu, ficou conversando com o patrão, dizendo que o pessoal é que era doido, era tudo mentira, ele nunca deu sequer um tapa em ninguém e que, além do mais, já tinha sido anistiado há muito tempo. O patrão ficou só escutando na dele, mas o Dr. Vicente, um advogado que mora aqui perto e vem todo dia tomar café, perguntou pra ele, bem alto: O senhor foi julgado ou processado? Se não foi, como é que foi anistiado? O velho fez de conta que não escutava, mas o doutor continuou, mais alto ainda. E quem sabe seu nome pra lhe dar anistia? Qual foi o crime que o senhor cometeu? Matou, torturou, estuprou, espancou, ou o quê? Ninguém é anistiado assim ao léu. É preciso saber do crime, primeiro, pra depois anistiar. Todo mundo olhando e o Dr. Vicente falando essas coisas todas, e o velho foi ficando branco e saiu como se fugindo, sem pagar nem nada.

Depois que o velho saiu foi que o Dr. Vicente pareceu bravo mesmo, ele continuou. Continuou falando o que os torturadores faziam e tudo, todo mundo escutando. Falou dos lances todos e disse que é por conta disso que esse pessoal não é nem julgado nem punido que até hoje tem tortura no país. E isso tem sim, eu sei. No meu bairro mesmo, vira e mexe tem gente torturada pela polícia. A mãe é que fica sabendo de tudo, ela tem uma banca de pastéis e as pessoas vão lá e contam. Gostam de contar pra ela porque ela gosta de escutar, não é como eu que gosto mais de contar. Mas pra contar tem que escutar antes, é ou não é? Ou ver o que aconteceu como eu vi dessa vez.

Lembrei dos versos de um poeta cujo livro eu havia lido havia pouco: “Nós sobrevivemos ao pau-de-arara. Mas o pau-de-arara também sobreviveu.”

E ele apareceu outra vez? perguntei. O torturador?

Dorival estava dizendo que não, que não vira mais o velho, e uma senhora que está sempre por ali comprando pão a essa hora se aproximou. Cabelos brancos, vestido cinturado, colar e brincos. Um rosto atencioso, marcado pelas rugas.

Eu também vi o que aconteceu, ela me disse. Fiquei com muita pena dele. A mulher é doente, não sai de casa. Achei que os jovens exageraram. É preciso ver o lado humano das pessoas. E se ele cometeu algum crime, é Deus que deve castigar.

Olhei pra ela e abaixei um pouco minha voz, tentando agir com toda educação: A senhora tem filhos?, perguntei.

Três filhos e dois netos, respondeu orgulhosa.

E se ele tivesse levado preso um filho da senhora, quando ele ainda era rapaz? Pendurado de cabeça pra baixo em um pau de arara e aplicado choques elétricos, como eles faziam, e depois assassinado e enfiado o corpo em uma vala abandonada e a senhora até hoje não soubesse que vala é essa?

O rosto dela, antes aberto, fez um perceptível movimento para dentro: Isso não aconteceria nunca com nenhum dos meus filhos. Eles não são de fazer coisa errada.

(E por hoje fica por aqui. Veremos o que vai acontecer na segunda-feira.)

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4 respostas para A experiência de escrever um conto VI

  1. Izilda Bichara disse:

    Que delícia acompanhar a feitura do seu conto, Maria José! A trama do conto é muito boa e me deixou ansiosa para saber por onde vai seguir.
    Dentre o mar de elogios que a leitura me provoca, tenho apenas duas pequenas e insignificantes observações a fazer ( e, por favor, nem publique este comentário):
    1 – Acho que há uma expressão – “jovens universitários”, que não combina com o tom da linguagem do garçom. Na minha opinião, ele diria – “uns moços da faculdade” ou coisa parecida.
    2 – você pulou uma palavrinha em outro trecho da fala do garçom: “dos lances todos e disse que é por conta que esse pessoal não é nem julgado”. Para mim, soou estranho. Talvez você quisesse dizer: é por conta DISSO que esse pessoal…
    Como você vê, não é nada de relevante.
    No mais, estou adorando essa sua experiência, que tanto enriquece a todos nós, seus leitores.
    Um grande beijo,
    Izilda

    • Querida, muito obrigada!
      Você tem toda razão, “os jovens universitários” pode soar estranho, vou pensar nisso. E pulei mesmo o DISSO.
      Vou corrigir.
      Eu não teria problema nenhum em publicar um comentário tão legal, mas se você não quer, tudo bem, só que eu acho que ele é automaticamente publicado. Não sei bem. Muitas vezes me perco por aqui.
      Só se eu rejeitar, eu acho. Mas é bobagem.
      Vou responder e vamos ver no que dá.
      Beijo grande,
      Z

  2. siltava disse:

    Zezé, isso tá ficando muito bom!!!! Há duas semanas, participei de um curso de poesia no Tomie Othake (com a maravilhosa Noemi Jaffe): por conta da proposta de um exercício que fizemos em aula, duas participantes comentaram sobre o “incômodo” provocado pelos cartazes que haviam sido colados nos postes da Vila Madalena (por “jovens universitários”), na região próxima à casa de um torturador… Participei de um diálogo muito parecido com esse que você colocou no finalzinho, rss… E também fiquei imaginando a cara e a reação do tal torturador — esses olhos amarelos que você descreve, nossa, tô adorando!
    um beijo

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