A experiência de escrever um conto V

 
(Continuando: vou dar um título provisório ao conto. Gosto de dar um título de trabalho ao que estou escrevendo, tão logo seja possível. De certa forma, o título serve como um delimitador para um universo que começa bastante aberto. Dá um rumo, um tipo de foco. Mesmo que seja apenas um título descritivo como este: )

 

O Velho da Padaria

(…)

Na semana seguinte, parei outra vez na padaria. Era confortável, porque eu tinha o cartão de entrada na garagem do prédio da analista. Não pagava por ele, independente do tempo que passasse ali. Não abusava, mas suponho que eles não tinham nenhum controle rígido daquilo: prédio grande, mil consultórios, etc. etc.

Dessa vez comprei também uma ciabatta além dos pãezinhos. Quando fui pagar, a mesma oferta, “Quer que eu pague?” E a mesma resposta, “Não, obrigada.” Só que dessa vez, olhei para o cara, para a gestalt toda: um velho vestido como velho, chegando ou já tendo passado dos 70, camisa de algodão e manga curta azul claro, calça bege sem forma, cabelos ralos, mãos de veias e manchas, olhos amarelos esponjosos, de uma cor que parecia sobretudo suja. Eram os olhos que entregavam o sujeito que devia ser viúvo ou separado. Olhos de cão vira-lata, pedinte, esses eram os olhos do cara. Queriam mulher, queriam mulher, queriam mulher.

Saí.

(Daqui ainda posso ir para onde eu quiser. Mas ainda não sei aonde quero ir. Não sei o que fazer com esse velho. Um tarado? (Muito previsível.) Um solitário, sofredor? (Mais previsível ainda.) Um velho doente? Uma tremenda história de sofrimento? (Idem, idem.) Um velho bacana e sábio? (Tarde demais pra isso, não depois da descrição que fiz dele. Teria que voltar e inventar outro velho, mas esse tá me parecendo um bom personagem.) Tem outra coisa, também. Parece que a história da analista já andava circulando por minha cabeça. Quem frequenta este blog sabe que dias atrás postei o começo de uma futura personagem, pensando em fazer um monólogo ou algo assim. Trata-se de um texto mais para o humor e deixei-o parado em seu arquivo. Agora estou achando que aquela personagem pode entrar neste conto do velho e da padaria. Quem quiser ver, é o post do dia 03/04/2012 (Uma personagem). Vou ver se encontro um lugar pra ele aqui.

E voltando a pensar no velho, me veio à cabeça uma notícia que andou circulando pelos jornais pouco tempo atrás, e me interessou bastante. Jovens que, em várias cidades do país, descobriram onde moram torturadores conhecidos, foram lá e escreveram na calçada: “Aqui mora um torturador”.

Achei de enorme importância essa manifestação de jovens pela “Comissão da Verdade”, pela urgência do esclarecimento dos crimes cometidos pela Ditadura. Foi uma manifestação feita de um modo diferente e bastante eficaz. Pode ser também que eu tenha pensado nisso  hoje porque ontem, no Facebook, li um post com um artigo que o Vladimir Safatle, professor da USP, escreveu na Folha sobre a questão.

Será que daria para fazer do tal velho da padaria um torturador?

Vou caminhar nesta manhã de céu claro e pensar um pouco mais a respeito. ) 

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3 respostas para A experiência de escrever um conto V

  1. Manoel Amaral disse:

    Maria José, sou escritor de contos e louvo a sua ideia, muito boa por sinal.
    Já fiz esta experiência há uns quatro anos, quando iniciei um contos, passei a segunda
    parte para um de meus colegas, que passou para um de outro estado e
    assim corremos o Brasil,
    Foram de blogueiros escrevendo e usando o mesmo personagem que havia criado.
    Interessante que continuo escrevendo contos e crônicas, sempre com o mesmo personagem.
    Um sugestão, como não poderia deixar de ser: tire estes parênteses, que cabem melhor em
    crônicas, quando o autor interfere no assunto. Para conto, na minha opinião não pega bem.

    Abraços e sucesso!
    Te espero na Bienal de Minas a partir de 18 de Maio
    Manoel Amaral
    http://osvandir.blogspot.com

  2. Manoel Amaral disse:

    Cara Maria José,

    “Cancele tudo que disse”, como diria o político, em tempos de CPI.
    Fui navegar melhor no seu blog e achei a sua bibliografia.
    Não precisa de conselho nenhum. Já é escritora há tempos.

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