Paulistanos, correi!

Não dá pra perder a chance de ver a exposição do “Guerra e Paz” de Portinari no Memorial da América Latina. Acho que só fica por aqui até meados de abril.

Essa obra-prima – na qual Portinari trabalhou quatro anos – foi doada pelo governo brasileiro à ONU, em 57. Agora, está de volta, e viaja pelo Brasil, aproveitando a reforma do salão onde está alojada em Nova York.

São dois enormes painéis: um sobre a guerra, o outro sobre a paz. Acompanhada, nessa exposição atual, por sinal muito bem montada, por um pequeno filme e cerca de uma centena de estudos de fragmentos, alguns praticamente quadros prontos.

Adolescente, vi esses painéis quando morei em Nova York, na vizinhança do prédio da ONU. Mas naquele momento, cabeça explodindo com outras coisas, não me marcaram tanto. O Portinari que me marcou – ele foi o primeiro pintor do qual eu soube o nome – foram reproduções de duas de suas gravuras na sala de jantar de minha avó, em Jaraguá, uma cidade do coração do país. Do país meu e dele, Portinari. Elas ficavam penduradas na parede branca atrás da grande mesa das refeições cotidianas das férias, e eu as via no almoço e no jantar: uma, a reprodução de seu célebre quadro dos colhedores de café, e a outra, do mestiço. Eram figuras fortes, robustas, com cores que me pareciam tender mais para o escuro. Guardei as imagens muito nítidas nas lembranças, embora a casa hoje não exista mais e muito menos, suponho, essas reproduções emolduradas da maneira mais simples possível – por um fio escuro de madeira – e que nunca soube de onde vieram, provavelmente de alguma viagem dos meus avós a São Paulo.

Ainda menina, quando meu pai nos levou pela primeira vez a Belo Horizonte, fomos conhecer a famosa igreja azul da Pampulha, e outras obras de Portinari pela cidade. Minha avó e meu pai, pelo visto, eram fãs do pintor. E não tardei a me tornar eu também outra fã: seus trabalhadores, cafezais, retirantes, as crianças, sua visão colorida do país fizeram desse pintor genial um dos meus preferidos. Agora vejo com gosto que minha filha também é fã: aliás, foi ela que, passando esses dias conossco, nos chamou, a mim e a Felipe, para o passeio. O que lhe agradeço muito, pois corríamos o sério risco de cometer o crime de perder a oportunidade de ver/rever os belíssimos painéis pela estranha inércia que às vezes se abate sobre os habitantes dessa metrópole, obnubilando-nos a compreensão de que algumas de suas maravilhosas atrações não ficarão ad aeternum esperando por nós (já perdi coisas imperdíveis atacada por essa síndrome).

Graças a Gali, esta eu não perdi. E pude ler no folheto da exposição, essa declaração de princípios de um gênio brasileiro:

“… uma pintura que não fala ao coração não é arte, porque só ele a entende. Só o coração nos poderá tornar melhores e é essa a grande função da Arte. Não conheço nenhuma grande Arte que não esteja intimamente ligada ao povo.”

Viva o nosso Portinari!

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