Sexta de contos

Retomando a série da “Sexta de Contos”, em 2012, aí vai:


O jogo de dominó

Olhando de longe, dá gosto vê-los. Parecem, eu não diria contentes mas tranquilos, desfrutando de um jeito prazeroso a manhã de sol. Acordaram cedo, tomaram seu café, assistiram o jornal matutino da tevê, fumaram um dos cinco cigarros do dia, e agora estão lá, na sombra das árvores da pracinha, sentados nos banquinhos de cimentos frente à mesinha, preparando as peças do dominó.
– Foi isso o que eles me ofereceram – diz o mais novo deles, o que ainda não conseguiu aceitar plenamente sua situação, embora já faça mais de ano que se aposentou. – Por uma quantia dessas, não trabalho nem morto. É só porque tenho mais de 60. Prefiro jogar dominó a semana inteira.
– E começar a morrer, José.
– Começar a morrer já comecei faz tempo. Só não dá pra aceitar trabalhar por esse preço e tomar o lugar do cara jovem que vai ganhar mais. É só pra isso que eles me querem: aproveitar minha experiência e me contratar por menos.
– Os caras são barra pesada mesmo.
– Trabalhei lá praticamente a vida todinha, doei meu sangue pra firma e agora só sirvo pra isso. – Pequena pausa. – Você foi mais esperto.
– Esperto eu não digo. Dei sorte. Tive a chance de abrir meu negocinho de fundo de quintal, depois de aposentado. Dá uns trocados. Sempre tem alguém com eletrodoméstico estragado. E eu tô lá, trabalhando como gosto, o que é o principal. Pra não me sentir inútil; desanuviar a cabeça. Esquecer os problemas.
– Já eu, nem se quisesse. Eu dependo das máquinas do patrão pra trabalhar. Fiquei de mãos vazias.
– A diferença é essa.
– A vida todinha pra mim foi isso. Trabalhar pros outros. E depois ser deixado pra começar a morrer. Pouco a pouco. Tipo boi dessangrando.
– Quem é que dessangra boi, José?
– Todos eles. São açougueiros. Nunca pensou nisso?
– Eu não. Num gosto de pensar bobagens.
– Pois eu penso.
– Vai, sua vez.
– Penso na morte. Pensar na morte não é bobagem.
– Acho que, sim, é bobagem. É o tipo do pensamento que não tem serventia. Não ajuda em nada. Só prejudica.
– Você sempre foi um conformado mesmo.
– Vai, joga.
– Não sei por que continuo jogando com você.
– Por que não tem outro parceiro, José. Nem você tem nem eu.
– A primeira verdade que você diz hoje.
– Vai, é sua vez, homem!
– Você vai morrer achando que consertar liquidificador velho no fundo do quintal vale alguma coisa.
– Ainda bem que eu acho.
– No fundo sabe que não é nada.
– …
– No fundo sabe que nossa vida foi servir aos outros, ser a mola do carro dos outros, ser a comida dos outros.
– …
– Ser o pé dos outros.
– Pronto! Você ganhou outra vez. Todo dia a mesma ladainha pra me distrair. Pra mim, chega.
Furioso, Batidão ajunta as peças do dominó porque o dominó é dele e se levanta:
– Vai pro raio que o parta, José.



(Publicado pela primeira vez em “O Popular”, fevereiro de 2012)

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2 respostas para Sexta de contos

  1. Monstrinha disse:

    hahahaha! Gostei da tática do José!
    Mas pra falar a verdade fica dificil mesmo saber quem ganha essa parada.
    Estou começando a ter a impressão de que a pessoa que leva a vida mais simples, sem tentar analisar demais as coisas acaba sendo mais feliz (ou pelo menos se sentindo mais feliz), mesmo que perca algumas partidas de dominó!

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