Um brado que não retumbou

“O brado retumbante” começou contando com minhas melhores expectativas. Há tanto preconceito e temor no tratamento de temas explicitamente políticos entre nós, e é tão raro que alguém, mesmo assim, se aventure a tratá-los, que a princípio sempre aplaudo as iniciativas que enfrentam essa maré.

Além disso, gosto do Euclydes Marinho, acompanho a carreira de Denise Bandeira com quem fui jovem em Brasília, admiro os atores escolhidos, e torci muito para gostar do que iria ver. O que aconteceu no primeiro capítulo e, talvez, no segundo. A partir daí, no entanto, a coisa foi degringolando de tal jeito que dava para ouvir perfeitamente o barulho da audiência despencando.

Uma pena.

Entre outros motivos, porque esse fracasso com certeza vai servir para que se continue dizendo que tema político é chato, que o publico não gosta, que não dá Ibope etc. Quando, na verdade, a maneira como minissérie desenvolveu seu conteúdo é que resultou em capítulos frouxos e muito, muito chatos.

Um dos equívocos, acho, foi optar pela quantidade absurda de problemas que resolveram tratar sem aprofundar nenhum. O coitado do presidente passou por todo um catálogo de eventos possíveis e impossíveis – desde assumir sem estar preparado a ter seus bons propósitos resumidos – como hoje se quer fazer crer – apenas na luta contra a corrupção, encarnada num Zé Wilker tão caricato que só ele mesmo conseguia se divertir com os próprios trejeitos. Para completar, uma inconsequente invasão de país estrangeiro e um atentado. Além de um episódio de indigestão realmente difícil de engolir.

Não satisfeito, ainda teve que enfrentar, no campo particular, a maravilhosa esposa “sem libido” tão altaneira e bem resolvida que deixa tudo por um amante “ar-rren-tino”; a mãe insuportável não por absurda mas por total ausência de comicidade; a filha maluquete; o genro traidor; o tio aproveitador e, de quebra, o filho transexual! É coisa demais para ser tratada sem o tempo e, sobretudo, a tensão que mereciam. Tudo tão artificial como o próprio palácio no Rio.

E – ainda! – como se não bastasse, o infeliz abuso da linguagem do “discurso político” – a linguagem mais chata que existe, se superando, no último capítulo com cenas explícitas de propaganda e debate eleitoral, coisa que ninguém suporta nem quando verídicas.

Pena, pena, pena!

Tudo pra dar certo e desanda desse jeito.

Quantos séculos mais teremos que atravessar antes que alguém ouse ficcionalizar a política em nossa televisão outra vez?!

P.S – Nem vou falar do outro retumbante fracasso que foi a novela “Amor e Revolução”, na SBT, porque esse foi um projeto com tal redundância de equívocos que…bem, deixa pra lá!

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2 respostas para Um brado que não retumbou

  1. Elizabeth de melo Naves disse:

    não assisti a todos os capítulos. Só ao último que foi ontem. Confesso que acreditei que não perdi nada. Adorei o que você escreveu.

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