Um mar de morros

E me juntando aos que comemoram os 458 desta cidade que amo, um pequenino trecho do meu romance com o título (talvez provisório) de “Paulicéia 2012”:

“(…)

vai ser hoje cadela vai ser agora puta você eu sei onde você está, sei perfeitamente, não fui eu que arrumei esse emprego pra você vadia, não foi meu pai? era pra isso que você me queria maldita? tô vendo sua cara fingida aproveitadora tô vendo seu cu tô enfiando meu dedo no seu cu meu canivete cadela tô vendo seu grito sua goela de mucosas sua língua roxa gritando, grita safada grita puta eu quero ver, quero ver como você é por dentro e vou te abrir vagaba cachorra vou te abrir como se abre uma coisa maldita uma coisa maligna um tumor na minha cabeça um cancro, uma bosta qualquer, uma coisa ruim, vou saber direitinho como te abrir e ver seu sangue saindo e me ensopando putamerda merda de sinal, tô chegando vagabunda, e vou te abrir como abro uma fruta, uma fruta branca branca sua pele branca amor sua pele de algodão macio, espuma do mar de Maresias, disso você gostava, não é? da espuma na sua pele, sua pele submersa na água verdeazul seu cabelo molhado com gosto de algas e você me dizendo que estava tão feliz que o mar era sua casa que um dia ia gostar de morar numa cidade que tivesse mar, era impossível pensar em São Paulo com praia não dava pra pensar em praiaspoluídas nas Marginais e praiaspoluídas na Pompéia e praiaspoluída naVilaPrudente não dava e você ria só de imaginar e eu ria com você e seus dentinhos brancos mordendo o carmesim dessa boca de gueixa cachorra e você repetindo nãodá nãodá SãoPaulo é um mar de morros topograficamente falando, entende? você gosta de falar assim, topograficamente um mar de morros, tudo tãobonito naquele dia, sim, dá pra ver que essa cidade é um mar de morros ladeiras descendo vales subindo espigões, é isso que estou fazendo agora sem você subindo e descendo esse mar de morros topograficamente doidamente planejadamente te matando milvezes enquanto subo e desço as ondas de asfalto e cimento trás de você, vaca, comovocê pode ter deixado de gostar do que gostava, como podedizerque não gostamais não quer mais, nãodápraaceitar, entende? você dizer NÃO Arturito, não!, como pode cadela?, cachorra fingida, agora você vai ver a espuma negra a bolha suja de sangue ensopando seu cabelo de alga suja você imunda seu corpo se decompondo, virando escamas, e vamos morar no mar nós dois, espumas brancas batendo e rebatendo na praia nas ondas do mar onde você queria morar e agora vai morar lá no fundo bem fundo onde vou te enterrar, amor, vou te enterrar no mar”

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