Enquanto isso, em São Paulo:

Um pequeno texto para o final de semana:

“… seguem os dois, tensos, conversando pela Faria Lima, esgotados, já muito depois do horário usual, faróis e lâmpadas da rua criando brechas de luz na noite, e eles seguindo, um em direção ao estacionamento onde sempre deixa o carro, o outro em direção ao ponto de ônibus, em um a cabeça estoura, no outro apenas têmporas latejam e os músculos dos maxilares se contraem; são amigos que trabalham juntos há vários anos, perto dos 10 anos, talvez, e vieram juntos da outra empresa, contratados para essa maior, promissora, que imaginavam eterna, e agora, essa! Como explicar uma empresa sólida, globalizada, com gente competente na administração, donos de primeira linha, passando por dificuldades financeiras?! Ninguém está mesmo a salvo nesse bosta desse país!? E nessa merda de capitalismo que não pára de se alimentar de crises e mais criss, permanentemente crises?!
Você acha que o Jefferson também está nos cortes?
Deve estar. Aquele puto. É péssimo funcionário. Um atrasado em tudo, cara de pau, a cabeça na bunda das meninas ou na fumaça da tal fábrica de malhas que ele quer ressuscitar das cinzas.
Você acredita nessa história? Que botaram fogo na fabriqueta que ele tinha?
Sei lá! O cara mente mais que vendedor. Aquela conversa de que foi do mundo da moda, que conhece sicrano e beltrano, que comia as modelos. Qualquer dia desses vai dizer que já comeu a Giselle. E agora dando em cima da assistente do Iago? Vai acabar é se fudendo com aquela cascavel, e eu vou rir da arquibancada.
Você também já gosta de uma fofoca, hein?
Tá me estranhando, cara? O que sou é bem informado, coisa que você não é e pode se dar mal por isso, já te avisei faz tempo.
Avisou o quê? Você sabe de alguma coisa?
Não, cara, sossega, não sei de nada.
Mas você acha que eles vão cortar só os maus funcionários, é?
A lógica seria essa.
E eles lá têm lógica, cara?
Claro que têm, você acha que eles são burros? É claro que vão selecionar pela competência, capacidade de trabalho, dedicação à firma.
Dedicação à firma, me poupe. Puxação de saco, isso sim.
Que puxação de saco, cara? Ser competente e dedicado no trabalho é puxar o saco?
Vestir a camisa como eles querem, trabalhar nas horas de folga sem falar em hora extra, isso no meu vocabulário é sinônimo de pura puxação de saco. Como se a firma também fosse nossa e não deles.
Num certo sentido, acho que é nossa mesmo. Afinal, quem dá duro somos nós. Sem nós, a firma não existe.
Puta que pariu!
Que que é, cara?
Você não está vendo que todos nós somos substuíveis com um peteleco?
Mas se não for esse o critério, qual vai ser?
Sei lá! Mas se fosse eu a decidir, ia procurar cortar quem precisasse menos do emprego.
Fodeu.
Fodeu por quê?
E quem precisa mais, cara? Eu ou você?
Eu, com meus dois filhos pequenos e minha mulher amamentando.
E eu, só por que não me casei nem tenho mulher, tenho que ser castigado? Vá se foder!
Vá se foder mesmo, seu filho da puta!
Babaca!
Cretino!
E os dois amigos fraternos se separam, bufando de raiva, prontos a se engalfinharem nas frestas da noite e decidirem ali aos murros quem ainda estará empregado amanhã, ainda que o mais provável é que nenhum esteja.”

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s