O crítico

Abel Barros Batista, professor de literatura e crítico português, autor de vários livros de crítica, em entrevista a Miguel Conde no “Prosa & Verso”, um sábado desses, no Globo:

“O livro hoje é uma instituição social muito generalizada. É muito fácil um sujeito apresentar-se com um romance. É um dos paradoxos mais curiosos da nossa cultura: qualquer um escreve um livro, o que desvaloriza imediatamente o livro. Há pessoas que não se consideram gente enquanto não escreverem um livro. (…) Um sujeito está na televisão, apresenta algum programa ou é um jornalista interessante… Enquanto não escrever um livro, não está descansado. São pessoas cuja projeção midiática não se fez com a literatura e nem precisa dela. No entanto, eles vão escrever livros, e alguns até de ficção.(…) eles não estão preocupados com o que o crítico literário vai dizer do livro deles. Eles já são importantes. O livro é um complemento no seu retrato. Se alguém diz mal é porque é chato. A ação de dizer mal de un livro presume que ainda há um público interessado em escolher, e que nós podemos aspirar moldar a atividade literária de acordo com critérios fiéis à literatura. Ora, se um crítico se mantiver fiel àquilo que ele pensa que são os critérios de qualidade da literatura, ele está perdido, pois não vai trabalhar. Teria que passar o ano inteiro a dizer: “Uma bosta, uma bosta, uma bosta – uma obra-prima! Ah, é do século XVIII… Desculpe. Uma bosta, uma bosta, uma bosta, uma bosta…” Faz mal ao fígado. Conheço pessoas que acham que é útil, que é profilático denunciar certas reputações. Não vejo utilidade nenhuma nisso. É uma pulsão agonística que eu não tenho. Quando acho um livro contemporâneo extraordinário, acho que é importante escrever sobre ele, fico contente de poder dizer qualquer coisa, porque ainda há autores interesssantes.”

Copiei o texto integral dessa resposta porque gostaria de comentar que:

1. Concordo enfaticamente com toda a primeira parte;

2. Mas ao brincar que o livro que considerou uma obra-prima era do século XVIII, o crítico não está valorizando as regras e normas do século XVIII? Se esse for o caso, tô fora. Eu continuaria dizendo “bosta, bosta, bosta”, e mais ainda para o texto tipo século XVIII escrito no século XXI.

3. Ele também está certíssimo ao dizer que faz mal ao fígado “denunciar certas reputações.” Se tem tão pouco espaço nos jornais, por que escrever sobre um livro que o crítico acha que é bosta? Esqueça-o. Deixe que ele mesmo procure sua cova, e não perca tempo com ele.

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2 respostas para O crítico

  1. Tania Mendes disse:

    ZZ, amiga querida, ainda fico, teimosamente, com os ‘ clássicos” — o que não quer dizer que só gosto de livros do século XVIII, claro. Clássicos são eternos, sejam produzidos no século XXI ou XXII. Acho que hoje é tudo tão completamente descartável, especialmente em nossa ‘ literatura brasileira contemporanea’ . Vc e outros poucos, claro, são exceções tupiniquins, pq sempre acrescentam ( e aqui , sem puxação de saco). Mas continuo temendo e desconfiando, pq como seu texto transcrito diz muito a propósito, ” qualquer um escreve livro hoje em dia”. E daí????

  2. Taña, querida: enquanto você me excluir, vou ficando feliz. Beijinhos :))

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