Sexta de crônicas

NESSA RUA TEM UM BOSQUE

Na minha infância, ele era apenas “o bosque”.
Morávamos na Rua 101 do Setor Sul, e ele ficava quase em frente a minha casa. Era mata fechada, sem cuidados, proibidíssimo para crianças. E com certeza sem nenhum interesse para os adultos, pois eles tampouco passavam por lá.
Mas nós, os meninos da vizinhança, não sempre, mas nos dias de coragem, fazíamos temerárias e divertidas incursões pelo então inculto bosque da nossa rua. Com primas ou amigas, eu ia atrás dos meus irmãos e seus amigos. Entrávamos pelo portãozinho de madeira e arame farpado, e seguíamos pela abertura estreita que formava uma trilha rústica aberta por entre as árvores fechadas, folhas secas, terra, espinhos e pedras no chão, galhos, cipós, buritis, pés de mamona. A trilha passava por uma tosca ponte de madeira, de onde, às vezes, encontrávamos outro grupo de meninos pulando pelados no riacho. Nós, meninas, então nos escondíamos atrás das árvores, achando uma graça danada, e depois voltávamos correndo pelo mesmo caminhozinho, afogueadas com a aventura e as risadas.
Agora, todos o chamam com seu nome próprio, Bosque dos Buritis. Num final de semana recente em Goiânia, fui caminhar por ali.
Logo na entrada, o monumento aos 15 goianos que foram mortos e desaparecidos pela Ditadura entre 1968 e 1979. Fui amiga de dois: Honestino Guimarães e Pedro Celestino Filho, quando estudávamos na Universidade de Brasília. Penso, sem drama: só por sorte, não sou o número 16 dessa lista; e sinto muita saudade dos dois.
Um monumento tão bonito e significativo, por que está abandonado, enferrujando, sem a água e sem a chama que faziam parte da sua concepção? Por que isso se repete tanto: a incapacidade da administração de uma cidade em manter seus monumentos e sua memória? E não só esse monumento na entrada está abandonado, mas também o que está dentro do bosque, criado por Siron Franco, artista goiano prestigiado no mundo inteiro. Como é possível que a capital de um estado rico como Goiás não conserve as obras públicas de seus artistas?
Então entro no bosque, hoje um lugar acolhedor, um oásis na quentura seca da cidade. Já não o caminhozinho proibido mas várias trilhas alternativas organizam as caminhadas. No lugar do antigo riacho, lago represado, canais, as áreas úmidas dos buritis. Bancos de pedra, teatro de arena, um passeio delicioso na manhã de sol. As folhas secas, terra, árvores fechadas, galhos, cipós, continuam lá, no lugar agora alegre, cheio de famílias, idosos, jovens, meninos e meninas, e turistas tirando fotos entre as placas, essas também sem manutenção, outra pena. O que faz um lugar frequentado e querido pela população não merecer um pouco mais de cuidados?
Paro junto ao grande portão gradeado que isola a área preservada, uma parte que ainda se assemelha um pouco ao bosque da minha rua de infância. Ali reencontro minha cidade e percebo mais uma vez o quanto sou goiana, ao sentir esses pequenos detalhes que indicam e revivem nosso pertencimento a um lugar.

(Publicado no jornal “O Popular”, de Goiânia)

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