Sexta de Crônicas

IMAGINE A CENA

A casa é simples, de alvenaria, uma entre cinco outras espalhadas pela mesma rua de terra, de um bairro da zona rural. Tem a mãe, o pai, dois filhos. O maior, de sete anos, vai toda manhã pra escola a um quilômetro, distância que percorre junto com os filhos mais velhos dos vizinhos. O pai cultiva uma roça de milho. A mãe cuida da casa, das galinhas, do filho de seis meses.

O pai já saiu pra roça faz tempo, o menino mais velho está na escola, o nenê dorme no berço no quarto. A mãe amarra na cabeça um lenço de estampas vermelhas pra não pegar o poeirão da seca e vai varrer o quintal.

É quando escuta o barulho.

Barulho mesmo, barulhão de pancada forte e coisarada quebrando e coisarada caindo.

Jesus, Maria e José!, exclama. O menino!

Corre para o quarto, é de lá que vem o barulho agora já enfraquecido, só quase o eco do barulhão primeiro, parecendo mais uma arrumação final, junto com o choro do nenê e como que uns bufos, uns resfolegos, um bater de cascos no chão de cimento, uma zoada que quando ela escancara a porta, ela vê: os olhos molhados de uma vaca se levantando assustada do meio de um monte de telhas e madeirame quebrados, a centímetros do berço.

Tivesse os nervos fracos, a mãe desmaiaria ali. A vaca, tivesse também os nervos fracos ou corpo menos resistente, teria até mais razões para desmaiar ali entre os destroços onde estava antes seu doce capim. As duas se olham, a mulher e a vaca. É uma vaca normal, da cor amarronzada de uma vaca pacata e sem asas, absolutamente sem asas. Só os olhões embaraçados de animal que não tem a menor ideia de onde está nem o que fazer. Resta-lhe só o instinto. E com ele entende que da abertura de onde veio a mulher é por onde deve sair, desminlinguida, insegura. Sua vontade é correr mas entende que é melhor se controlar, ir tateando e reparando, até ver a luz vindo de uma outra abertura, a da frente, e em direção à luz salvadora ela se arremessa já com outro vigor, e é quando no vão iluminado aparece a velha vizinha, a primeira a correr pra lá alertada pelo barulho, e que ao querer entrar pela mesma porta por onde a vaca quer sair, cai atropelada tanto pelo susto quanto pelo empurrão do animal desembestando de vez pelo largo da rua.

Outras vizinhas, que também vêm correndo, param por um momento, sem saber o que pensar de uma vaca saindo de uma casa igual às delas, por mais comum que a vaca seja. Enquanto uma socorre a velha esparramada no chão, as outas entram aos trambolhões em direção ao quarto. No teto, um buraco enorme no telhado; no chão, os destroços. Ao lado, a mãe segurando o bebê.

Uma delas entende a situação de imediato. O barranco alto bem ao lado da casa. Veio de lá a vaca que devia estar na dela, pastando. Deu um passo em falso e caiu direto no telhado da casa.

Era só o que lhes faltava: chuva de vacas.

E eu, lendo a notícia do que ocorreu na cidadezinha mineira, pensei comigo: não tem imaginação de escritor capaz de concorrer com essa realidade delirante. Realismo fantástico é pouco!

(Publicado em “O Popular”)

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