O tom correto

Às vezes pode ser complicado achar o tom correto para contar o que se quer contar. Depende do tom a história virar uma coisa piegas demais, ou crítica demais. Ou dramática demais. Ou qualquer coisa demais.

Em seu livro “Heróis Demais”, Laura Restrepo passa por esses perigos ao fazer um relato romanceado para contar a seu filho a história do pai, um companheiro militante que ela conheceu nos tempos da ditadura da Argentina. E diz, em certo momento do próprio livro, como descobriu esse tom:

“E foi ali, no apartamento de Gabriela, que Lorenza acreditou ter encontrado o tom que ia permitir que ela escrevesse, agora sim, esse capítulo de sua história. Precisava enfim pôr em palavras essa história até agora marcada pelo silêncio. Sempre soubera que cedo ou tarde teria que encarar a tarefa, não havia mais remédio, porque passado que não foi amansado com palavras não é memória, é espreita. O problema tinha sido como contá-lo, e agora pensava tê-lo descoberto: íntimo e simples, como uma conversa a portas fechadas entre duas mulheres que recordam. Sem heróis, sem adjetivos, sem slogans. Em tom menor. Sem entrar nos acontecimentos, ficando apenas no eco, para envolvê-lo em papel de seda, como aos lençóis, para ver se por fim deixava de latejar e pouco a pouco ia se tornando amarelado.”

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